Camisa das senhoras

Descriptografando a Carta Rosa

2020.09.26 01:53 altovaliriano Descriptografando a Carta Rosa

Texto original: https://cantuse.wordpress.com/2014/09/30/the-pink-lette
Autor: Cantuse
Partes traduzidas: 1) A Estrada Para Vila Acidentada, 2) Uma Aliança de Gigantes e Reis, 3) Despindo o Homem Encapuzado, 4) Confronto nas Criptas, 5) Tendências Suicidas
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OBS: Esta é a última parte que traduziremos por agora.
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O MANIFESTO : VOLUME II, CAPÍTULO VII

Não há como negar que resolver o mistério da Carta Rosa é uma imbróglio complicado. Já existem dezenas de teorias.
Resolver esse mistério tem sido um dos grandes objetivos do Manifesto desde o início, e acho que fiz um bom trabalho de construção progressiva até este ponto.
NOTA: O ideal era que você tivesse lido todos os ensaios até este ponto, mas se você insiste em ler assim, eu sugiro que pelo menos você leia Confronto nas Criptas e Tendências Suicidas primeiro.
Vamos direto ao assunto. Neste ensaio, estou apresentando os seguintes argumentos.
À luz das muitas teorias anteriores estabelecidas aqui no Manifesto, podemos desenvolver um entendimento muito convincente da chamada Carta Rosa e do que ela realmente diz.
[...]

A CARTA ROSA

Esta seção é apenas uma recapitulação da carta, seu texto e as várias outras características que possui.
Coloco esta seção aqui como uma referência fácil durante a leitura deste ensaio.

O texto

Seu falso rei está morto, bastardo. Ele e toda sua tropa foram esmagados em sete dias de batalha. Estou com a espada mágica dele. Conte isso para a puta vermelha.
Os amigos de seu falso rei estão mortos. Suas cabeças estão sobre as muralhas de Winterfell. Venha vê-las, bastardo. Seu falso rei morreu, e o mesmo acontecerá com você. Você disse ao mundo que queimou o Rei-para-lá-da-Muralha. Em vez disso, você o enviou para Winterfell, para roubar minha noiva.
Terei minha noiva de volta. Se quer Mance Rayder de volta, venha buscá-lo. Eu o tenho em uma jaula, para que todo o Norte possa ver, a prova de suas mentiras. A jaula é fria, mas fiz um manto quente para ele, com as peles das seis putas que o seguiram até Winterfell.
Quero minha noiva de volta. Quero a rainha do falso rei. Quero a filha deles e a bruxa vermelha. Quero sua princesa selvagem. Quero seu pequeno príncipe, o bebê selvagem. Quero meu Fedor. Mande-os para mim, bastardo, e não incomodarei você e seus corvos negros. Fique com eles, e eu arrancarei seu coração bastardo e o comerei.
Estava assinado:
Ramsay Bolton
Legítimo Senhor de Winterfel
(ADWD, Jon XIII)

A descrição da carta

Bastardo, era a única palavra escrita do lado de fora do pergaminho. Nada de Lorde Snow ou Jon Snow ou Senhor Comandante. Simplesmente Bastardo. E a carta estava selada com um pelote duro de cera rosa.
Estava certo em vir imediatamente – Jon falou. Está certo em ter medo.
(ADWD, Jon XIII)

DIFICILMENTE O BASTARDO

Acho que já fiz um argumento convincente de que Mance Rayder está disfarçado de Ramsay Bolton (veja o Confronto nas Criptas).
Mas tenho certeza de que os leitores apreciariam pelo menos uma rápida avaliação das muitas outras razões pelas quais não acredito que a carta possa ser de Ramsay.
Especificamente, esta seção está identificando maneiras pelas quais a carta é incoerente com o que sabemos sobre Ramsay. Não acredito que nada disso por si só desqualifique Ramsay como autor, mas coletivamente elas geram grandes dúvidas.
Se minuciosas listas de evidências o aborrecem, pule para a próxima seção.

Falta o botão

Todas as cartas anteriores de Ramsay foram seladas com "botões" bem formados de cera:
Empurrou o pergaminho, como se não pudesse esperar para se ver livre dele. Estava firmemente enrolado e selado com um botão de cera dura rosa.
(ADWD, A noiva rebelde)
Clydas estendeu o pergaminho adiante. Estava firmemente enrolado e selado, com um botão de cera rosa dura.
(ADWD, Jon VI)
A Carta Rosa é lacrada com "pelote duro de cera rosa", uma discrepância notável.

Cabeças na Muralha

Enfiar cabeças em lanças parece um tanto incoerente com o estilo pessoal de Ramsay e com os maneirismos de Bolton observados a esse respeito: esfolar ou enforcar.

Sem pele ou sangue

Um dos artifícios mais conhecidos de Ramsay é o envio de mensagens escritas com sangue e com pedaços de pele anexados.
Não há menção de sangue usado como tinta, nem está implícito, como ocorre em outras cartas que parecem ser dele. Definitivamente, não há menção a um pedaço de pele, o que é estranho, considerando que Ramsay afirma ter Mance Rayder e todas as seis esposas de lança ... certamente uma delas poderia fornecer um pouco de pele.

Como Ramsay saberia?

Por que Ramsay pede Theon a Jon ?
Se Theon foi entregue a Stannis, e Stannis tinha toda a intenção de matá-lo, por que Ramsay acreditaria que Theon está agora com Jon?
Nem mesmo Mance Rayder saberia disso.
Além disso, “Arya” foi entregue a Stannis também, via Mors Papa-Corvos.
Por que ele acreditaria que Arya está com Jon?
Se todo a hoste de Stannis foi realmente destruída, você deve se perguntar onde Ramsay ficou sabendo destes detalhes, principalmente com relação a Theon.
É uma suposição sensata pensar que Stannis pode enviar "Arya" de volta a Castelo Negro (na verdade, foi o que Stannis faz), mas mesmo uma formação primária em inteligência [militar] torna óbvio que Theon seria de grande valor estratégico em uma batalha contra Winterfell, mas em nenhum outro lugar.
Uma pessoa pode então arguir que isso só pode significar que o corpo de Theon não foi descoberto entre os mortos. No entanto, dadas as condições meteorológicas, essa provavelmente é uma tarefa impossível de realizar. Portanto, Ramsay não teria nenhuma base e nenhuma confiança para pensar que Jon tinha Theon em absoluto.

ENDEREÇADO À MULHER VERMELHA

No início deste ensaio, declarei que a Carta Rosa se destinava especialmente a Melisandre. Preciso lhes dar as evidências. Tanto aquelas dedutivas (ou razoáveis), quanto aquelas que estão implícitas ou que foram estabelecidas daquele jeito inteligente e sutil que Martin faz com frequência.

Missão de Mance

Como já estabeleci no Manifesto, a missão de Mance baseava-se em saber onde seria o casamento de Arya.
Assim, quando Jon recebeu seu convite de casamento, Mance deveria partir para Vila Acidentada.
Jon acidentalmente recebeu o convite enquanto estava no pátio de treinamento, lutando com Mance disfarçado de Camisa de Chocalho. Assim, Mance foi capaz de simplesmente ouvir o local. Mas não podemos presumir que Mance e Melisandre apostaram tudo em terem a sorte de ouvir qual seria o local.
Uma dedução simples conclui que Mance era capaz e estava determinado a ler as cartas no quarto de Jon até que surgisse a localização.
NOTA: Se esta explicação parece insuficiente, eu apresento o argumento por completo em um ensaio anterior A estrada para Vila Acidentada.
Isso também significa que o convite não era realmente para Jon, mas sim para Melisandre e Mance, como um 'gatilho' para o início de sua missão. Novamente, eu explico a base para essas conclusões no ensaio mencionado acima.
Isso estabelece o precedente de que as mensagens enviadas para Castelo Negro podem, de fato, ter a intenção de se comunicar secretamente com Melisandre.

Ratos Cinzentos

Aqui há um exemplo de Martin possivelmente invocando um dispositivo que é sua marca registrada: enterrar recursos de enredo relevantes para uma história em outra, geralmente via metáforas ou alegorias inteligentes.
Três citações devem ser suficientes para você entender (em negrito, para dar ênfase nas partes principais):
Três deles entraram juntos pela porta do senhor, atrás do palanque; um alto, um gordo e um muito jovem, mas, em suas túnicas e correntes, eram três ervilhas cinza de uma vagem negra.
(ADWD, O Príncipe de Winterfell)
:::
Se eu fosse rainha, a primeira coisa que faria seria matar todos esses ratos cinzentos. Eles correm por todos os lados, vivendo dos restos de seus senhores, tagarelando uns com os outros, sussurrando no ouvido de seus mestres. Mas quem são os mestres e quem são os servos, realmente? Todo grande senhor tem seu meistre, todo senhor menor deseja ter um. Se você não tem um meistre, dizem que você é de pouca importância. Esses ratos cinzentos leem e escrevem nossas cartas, principalmente para aqueles senhores que não conseguem ler eles mesmos, e quem diz com certeza que eles não estão torcendo as palavras para seus próprios fins? Que bem eles fazem, eu lhe pergunto.
(ADWD, O Príncipe de Winterfell)
:::
Lorde Snow. – A voz era de Melisandre.
A surpresa o fez afastar-se dela.
Senhora Melisandre. – Deu um passo para trás. – Confundi você com outra pessoa.À noite, todas as vestes são cinza. E subitamente a dela era vermelha.
(ADWD, Jon VI)
A noção de que todos os mantos são cinza parece equivocada: Melisandre equivale a um meistre .
O que é verdade em muitos sentidos: ela é definitivamente uma conselheira de Stannis e 'sussurra' em seu ouvido. E talvez o mais notável seja o fato de que muitos questionam quem realmente está no comando: Stannis ou sua mulher vermelha?
Quando você vê esses paralelos, a alusão a ela usar vestes cinzas tem uma conexão forte e interessante com o conceito de cartas em que alguém está 'torcendo as palavras'.
Afinal, eu dei argumentos convincentes de que o convite de casamento de Jon era para Mance e Melisandre e foi enviado por Mors Papa-Corvos. Alguém contestaria a noção muito razoável de que outras cartas seriam igualmente confidenciais?
Outra coisa engraçada sobre essa ideia é que Melisandre literalmente distorce as palavras para seus próprios propósitos:
O som ecoou estranhamente pelos cantos do quarto e se torceu como um verme dentro dos ouvidos deles. O selvagem ouviu uma palavra, o corvo, outra. Nenhuma delas era palavra que saíra dos lábios dela.
(ADWD, Melisandre)

Uma bela truta gorda

Há um outro elemento temático que sugere que as cartas podem possuir conteúdos secretos, uma característica interessante atribuída a duas cartas diferentes em As crônicas de gelo e fogo.
A primeira carta é a de Walder Frey, enviada a Tywin após o Casamento Vermelho:
O pai estendeu um rolo de pergaminho para ele. Alguém o alisara, mas ainda tentava se enrolar. “A Roslin pegou uma bela truta gorda”, dizia a mensagem. “Os irmãos ofereceram-lhe um par de pele de lobo como presente de casamento.” Tyrion virou o pergaminho para inspecionar o selo quebrado. A cera era cinza-prateada, e impressas nela encontravam-se as torres gêmeas da Casa Frey.
O Senhor da Travessia imagina que está sendo poético? Ou será que isso pretende nos confundir? – Tyrion fungou. – A truta deve ser Edmure Tully, as peles…
(ASOS, Tyrion V)
A segunda é a carta ostensiva que Stannis escreveu a Jon Snow enquanto estava em Bosque Profundo. Não vou citar a carta (é um texto imenso), apenas um elemento da descrição:
No momento em que Jon colocou a carta de lado, o pergaminho se enrolou novamente, como se ansioso para proteger seus segredos. Não estava seguro sobre como se sentia a respeito do que acabara de ler.
(ADWD, Jon VII)
O que estou tentando apontar aqui é que a primeira mensagem de Walder Frey definitivamente tinha uma mensagem inteligentemente escondida. E por alguma razão, Martin decidiu mostrar que a carta 'queria' enrolar-se novamente.
A segunda mensagem também quer enrolar-se e, se você a ler com atenção, há um grande número de coisas que são totalmente incorretas ou atípicas em relação a Stannis nela. Cavaleiros homens de ferro? Execução por enforcamento?
Já tomei a liberdade de esquadrinhar tortuosamente os livros e não consigo encontrar de pronto outros exemplos em que as cartas foram personificadas dessa maneira.
Junto com os pontos anteriores, este não reforçaria a ideia de que Melisandre (e Mance por um tempo) está recebendo mensagens camufladas enquanto está em Castelo Negro?

Carta de Lysa

Outra indicação de que tais 'cartas codificadas' não são incomuns é que uma das primeiras cartas que vimos nos livros era uma: a que Catelyn recebe de Lysa.
Seus olhos moveram-se sobre as palavras. A princípio pareceu não encontrar nenhum sentido. Mas depois se recordou.
Lysa não deixou nada ao acaso. Quando éramos meninas, tínhamos uma língua privada.
(AGOT, Catelyn II)
* * \*
Deve ser apontado que isso também faz sentido de uma perspectiva puramente lógica. Como já argui veementemente que Stannis, Mance e Melisandre conspiraram juntos, faria sentido que todas as partes precisassem ser capazes de se comunicar de uma forma que protegesse a referida conspiração.
Nesse ponto, tal tipo de carta constitui a opção mais adequada, como mostram as cartas de Walder Frey e Lysa Tully.
Esse tipo de proteção de carta – enterrar uma mensagem secreta em outra mensagem, de modo que não possa ser detectada – é conhecido como esteganografia.
A Dança dos Dragões faz de tudo para educar os leitores de que nem sempre se pode confiar nos meistres com segredos: ouvimos isso de Wyman Manderly e Barbrey Dustin. No entanto, se um rei ou outro oficial escrever suas cartas com mensagens secretas esteganográficas, os verdadeiros detalhes serão ocultados até mesmo dos meistres. Na verdade, foi exatamente isso que observamos na carta de Walder Frey a Tywin Lannister.
Meu objetivo final neste ensaio é convencê-lo de que a Carta Rosa é uma mensagem esteganográfica de Mance Rayder para Melisandre. A forma como foi escrita esconde seus segredos de qualquer meistre (ou Jon Snow) que tente interpretá-la.
A principal desvantagem de tentar decifrar qualquer mensagem esteganográfica é esta:
Por que eles não encontraram nada? Talvez eles não tenham procurado o suficiente. Mas há um dilema aqui, o dilema que capacita a esteganografia. Você nunca sabe se há uma mensagem oculta. Você pode pesquisar e pesquisar, e quando não encontrar nada, você pode apenas concluir “talvez eu não procurei com atenção”, mas talvez não haja nada para encontrar.
ESTRANHOS HORIZONTES, ESTEGANOGRAFIA: COMO ENVIAR UMA MENSAGEM SECRETA
Isso significa que a única maneira real de provar a você que Mance escreveu a Carta Rosa é se eu conseguir encontrar uma tradução irresistivelmente convincente de qualquer conteúdo secreto que ela possa ter.
E mesmo assim você pode argumentar que não é verdade. Embora eu espere que você não diga isso quando terminar este ensaio.

Querida Melisandre

Além de todos os pontos acima, Melisandre consegue tornar tudo ainda mais explícito. Antes da chegada da Carta Rosa, Melisandre diz:
Todas as suas perguntas serão respondidas. Olhe para os céus, Lorde Snow. E, quandotiver suas respostas, envie para mim. O inverno está quase sobre nós. Sou sua única esperança.
(ADWD, Jon XIII)
Isso parece enfaticamente dizer a Jon que ela quer vê-lo depois que a carta chegar.
Observe como ela está lá quando Jon decide ler a carta em voz alta no Salão dos Escudos. Eu sei que isso parece um detalhe trivial, mas considere que ela não apareceu antes do início da reunião e que ela desapareceu quase imediatamente após Jon terminar.
Isso está relacionado à principal preocupação que a vemos expressar em sua conversa com Jon antes da chegada da carta: abandonar a caminhada para resgatar os que estavam em Durolar.
Mas por que?
Este é um ponto que revelarei mais tarde no Manifesto. Por enquanto, deve bastar saber que Melisandre queria ver ou ouvir o conteúdo dessa carta.

VERNÁCULO SELVAGEM

Nas próximas duas seções, demonstrarei por que a Carta Rosa foi escrita por Mance. Esta primeira seção consiste em detalhes o que vemos no texto, a linguagem usada e assim por diante.
Em particular, existem frases que são bastante específicas para Mance (ou que excluem Ramsay), e também detalhes que são específicos para a conspiração Mance-Melisandre.
Se minuciosas listas de evidências o aborrecem, pule para a próxima seção.

“Falso Rei”

Esta frase é especificamente o que Melisandre usa para se referir a Mance Rayder, ela o chama de falso rei duas vezes. Quase não aparece em nenhum outro lugar em A Dança dos Dragões , a exceção sendo uma instância onde Wyman Manderly declara Stannis um falso rei.

“Corvos Negros”

Os selvagens são as únicas pessoas que usam os termos corvo ou corvo negro em um sentido depreciativo.
A única exceção a isso é Jon Snow (o que é interessante), quando ele está tentando convencer o povo livre.

“Princesa Selvagem” e “Pequeno Príncipe”

O termo princesa selvagem abunda na Muralha, uma invenção dos irmãos negros que então se espalhou entre os homens da rainha.
O pequeno príncipe foi especificamente apresentado na Muralha, primeiro por Melisandre e depois por Goiva:
Melisandre tocou o rubi em seu pescoço. – Goiva está amamentando o filho de Dalla, além do seu próprio. Parece cruel separar nosso pequeno príncipe de seu irmão de leite, senhor.
(ADWD, Jon I)
Faça o mesmo, senhor. – Goiva não parecia ter nenhuma pressa em subir na carroça. – Faça o mesmo pelo outro. Encontre uma ama de leite para ele, como disse que faria. Prometeu-me isso. O menino... o menino de Dalla... o principezinho, quero dizer... encontre uma boa mulher pra ele, pra que ele cresça grande e forte.
(ADWD, Jon II)
Embora uma pessoa possa pensar que Melisandre está sugerindo de maneira sutil que sabe sobre a troca do bebê, isso não fica claro. O trecho sobre Goiva certamente deixa isso explícito.
O verdadeiro ponto aqui é que a terminologia aqui só foi vista antes na Muralha. Além disso, uma vez que nem Val nem o filho de Mance são verdadeiramente da realeza, não faz muito sentido que Mance ou qualquer uma das esposas de lança digam que são, mesmo que sob tortura.

Para que todo o Norte possa ver

O autor afirma que tem Mance Rayder em uma jaula para que todo o Norte possa ver.
Mance disse algo muito semelhante a Jon anteriormente:
Ele queimou o homem que tinha que queimar, para todo mundo ver. Fazemos o que temos que fazer, Snow. Até mesmo reis.
(ADWD, Jon VI)

INCLINAÇÃO PARA A SAGACIDADE

Além dos vários atributos já citados que favorecem Mance como autor, há um que se sobressai a todos:

Disfarçado de Camisa de Chocalho

Observe:
Vou patrulhar para você, bastardo – Camisa de Chocalho declarou. – Darei conselhos sábios, ou cantarei canções bonitas, o que preferir. Até lutarei por você. Só não me peça para usar esse seu manto.
(ADWD, Jon IV)
É muito difícil negar que esta não seria uma grande alusão ao próprio Mance em quase todos os detalhes. É tão certeiro que estou surpreso de que Melisandre ou Stannis não o tenham repreendido ou o mandado calar a boca.
Stannis queimou o homem errado.
Não. – O selvagem sorriu para ele com a boca cheia de dentes marrons e quebrados. – Ele queimou o homem que tinha que queimar, para todo mundo ver. Fazemos o que temos que fazer, Snow. Até mesmo reis.
(ADWD, Jon VI)
Esta é uma maneira inteligente de sugerir que Stannis queimou o Camisa de Chocalho verdadeiro no lugar de Mance, apenas porque o mundo precisava ver Mance morrer, não porque os crimes de Mance justificassem a execução.
Eu poderia visitar você tão facilmente, meu senhor. Aqueles guardas em sua porta são uma piada de mau gosto. Um homem que escalou a Muralha meia centena de vezes pode subir em uma janela com bastante facilidade. Mas o que de bom viria de sua morte? Os corvos apenas escolheriam alguém pior.
(ADWD, Melisandre)
Como observei em outro ponto do texto, muito provavelmente se esperava que Mance subisse aos aposentos de Jon e lesse suas cartas, se assim fosse necessário para descobrir o local do casamento. Portanto, esta passagem parece ser uma dica engraçada de que ele pode ter estado nos aposentos de Jon, sem nunca tê-lo matado.

Disfarçado de Abel

O apelido de Mance por si só é uma pista inteligente, mas ele dá um passo além em muitos aspectos ao se passar por Abel.
Perto do palanque, Abel arranhava seu alaúde e cantava Belas donzelas do verão. Ele se chama de bardo. Na verdade, é mais um cafetão.
(ADWD, O Príncipe de Winterfell)
Aparentemente, muito pouco se sabe sobre a música. No entanto, um exame cuidadoso de um capítulo em A Tormenta de Espadas revela o primeiro verso da música (pelo menos na minha opinião):
– Vou à Vila Gaivota ver a bela donzela, ei-ou, ei-ou...
Co’a ponta da espada roubarei um beijo dela, ei-ou, ei-ou.
Será o meu amor, descansando sob a tela, ei-ou, ei-ou.
(ASOS, Arya II)
Uma escolha de música inteligente considerando sua inspiração em Bael, o lendário ladrão de filhas que se escondeu nas criptas Stark.
O mesmo poderia ser dito sobre a deturpação de “A Mulher do Dornês” quando ele mudou a letra para ser sobre a “filha de um nortenho”.
Além disso, há ocasiões em que ele toca uma música “triste e suave”, que já demonstrei ser um sinal para as esposas de lança.

UMA TRADUÇÃO LINHA-A-LINHA

Essa é a parte essencial do texto. Vou percorrer toda a Carta Rosa e explicar o que ela realmente diz. Lembre-se de que você deve ter chegado a este ponto no Manifesto tendo lido os textos anteriores, o que significaria que você já assumiu as seguintes premissas (ou pelo menos suspendeu sua descrença sobre elas):
Há apenas uma nova suposição que eu gostaria de fazer, uma bem sensata:
Mance saber esse único detalhe fornece uma pista impressionante para decifrar a Carta Rosa.
Agora vamos lá...

Primeiro parágrafo

Seu falso rei está morto, bastardo.
Isso significa que Stannis fingiu sua morte.
Ele e toda sua tropa foram esmagados em sete dias de batalha.
Isso diz mais ou menos a mesma coisa. Eu acredito que diz ainda mais, mas vou guardar para mais tarde.
Estou com a espada mágica dele.
Como parte da simulação de sua morte, a Luminífera de Stannis será levada para "Ramsay". Isso permite que os Boltons concluam que Stannis está morto, apesar haver uma quantidade limitada de outras evidências sobre isso.
Conte isso para a puta vermelha.
Literalmente, isso está instruindo Jon a contar a Melisandre. É muito interessante que Melisandre tenha implorado a Jon para 'envia-a para mim' depois de ler a carta, e o autor da carta está sugerindo exatamente a mesma coisa.
Coletivamente, o primeiro parágrafo parece um resumo dos principais detalhes: está dizendo que Stannis fingiu sua morte, provavelmente ganhou a batalha, mas que os Boltons estão convencidos da própria vitória. É muita informação de inteligência transmitida em um único parágrafo.
A linha sobre a espada é o que eu acredito ser um sinal a Melisandre para que começasse quaisquer próximos passos que ela tenha em mente (que serão discutidos posteriormente neste Manifesto).

Segundo parágrafo

Os amigos do seu falso rei estão mortos.
Isso significa que os aliados de Stannis também estão fingindo morte. Muito provavelmente, isso significa as tropas daqueles que viajam com Stannis. Por exemplo, Mors Papa-Corvos e seu bando de meninos verdes.
Suas cabeças estão sobre as muralhas de Winterfell.
Usar 'sobre' no sentido de estar perto de algo, isso significa que Mors está nas redondezas de Winterfell.
Venha vê-los, bastardo.
Esta é uma das várias provocações da carta, embora implique que Jon deveria viajar para Winterfell.
Seu falso rei mentiu, e você também. Você disse ao mundo que queimou o Rei-para-lá-da-Muralha.
[na versão brasileira, a frase começa com “Seu falso rei morreu, e o mesmo acontecerá com você”, uma tradução errada do texto original]
Este é o início do anúncio de que Mance Rayder está vivo. A parte em que o autor diz 'Você disse ao mundo' é muito semelhante ao que Mance disse a Jon: “Ele queimou o homem que tinha que queimar, para todo mundo ver. Fazemos o que temos que fazer, Snow. Até mesmo reis.” (ADWD, Jon VI)
Em vez disso, você o enviou para Winterfell, para roubar minha noiva.
Isso informa Jon e Melisandre que Mance terminou em Winterfell. Isso é importante porque, se você se lembra, Mance partiu originalmente para Vila Acidentada. Esta linha, portanto, confirma para onde Mance foi. Também revela que o autor conhecia a missão de Mance.
No todo, o parágrafo parece sugerir que Jon ou alguém precisa se juntar a Mors do lado de fora de Winterfell.
Este parágrafo declara ainda que Jon quebrou seus votos ajudando Stannis e Mance na tentativa de roubar Arya Stark. Isso é interessante porque Jon de fato não queria fazer isso, ele apenas queria resgatar Arya na estrada, presumindo que ela já tivesse escapado. O fato de a carta declarar esses detalhes mostra um esforço calculado para minar a honra e a legitimidade de Jon.

Terceiro parágrafo

Terei minha noiva de volta.
Isso nos diz claramente que “Arya” foi resgatada.
Se quer Mance Rayder de volta, venha buscá-lo. Eu o tenho em uma jaula, para que todo o Norte possa ver, a prova de suas mentiras.
Isso requer uma perspicaz (porém, simples) interpretação da falsa execução do próprio Mance.
Se assumirmos que minha teoria no Confronto nas Criptas está correta, duas observações podem ser feitas:
O acréscimo de ' prova de suas mentiras ' indica que Ramsay não está sob a magia de disfarce e, portanto, caso ele seja encontrado, isso arruinaria o truque.
Tudo isso somado, a implicação da frase dupla:
A jaula é fria, mas fiz um manto quente para ele, com as peles das seis putas que o seguiram até Winterfell.
Esta é uma referência à maneira como Melisandre disse que as seduções [glamors] funcionam: vestindo-se a sombra de outra pessoa como capa. Também parece uma possível alusão a usar a pele de outra pessoa, de acordo com o conto de Bael, o Bardo.
Na íntegra, o terceiro parágrafo parece deixar uma mensagem de que Mance conseguiu se disfarçar de Ramsay, que Ramsay está vivo como um prisioneiro nas criptas e que ninguém parece saber disso. Também pode significar que nenhuma das esposas de lança traiu seu segredo.

Quarto parágrafo

Ao contrário dos parágrafos anteriores, acredito que o quarto parágrafo é direcionado diretamente a Jon Snow. Melisandre pode saber o segredo por trás de seu conteúdo, mas este parágrafo foi elaborado para ter um efeito específico sobre Lorde Snow.
Quero minha noiva de volta. Quero a rainha do falso rei. Quero a filha deles e a bruxa vermelha. Quero sua princesa selvagem. Quero seu pequeno príncipe, o bebê selvagem. Quero meu Fedor.
Essas frases apresentam uma lista de demandas, muitas das quais Jon não tem capacidade de cumprir. Ele não tem permissão para enviar Selyse, Shireen, Melisandre, Val ou o filho de Mance para Winterfell.
Além disso, ele não tem ideia de quem é Fedor.
E independentemente da identidade de Ramsay (o real ou o disfarçado), ambos saberiam que Jon não tem ideia de quem é Fedor.
Esses pedidos colocaram Jon em uma posição tênue. A carta declara abertamente que Jon violou seus juramentos à Patrulha da Noite, participou de uma mentira quando colaborou para resgatar Arya usando Mance, o que também beneficiou a causa de Stannis.
Mande-os para mim, bastardo, e não incomodarei você e seus corvos negros. Fique com eles, e eu arrancarei seu coração bastardo e o comerei.
Esta ameaça sugere fortemente que Jon precisa cooperar ou ele será atacado. Considerando que os Boltons são aliados dos Lannisters, é razoável concluir que os Boltons também usariam a oportunidade para destruir as forças de Stannis em Castelo Negro e fazer muitos reféns.
A carta deixa claro: o envolvimento de Jon com Mance e Stannis resultou em uma ameaça à Muralha, à Patrulha da Noite e à família de Stannis e ao assento de poder.
Jon é então forçado a um dilema:
Em ambos os casos, ele está ferrado e proscrito como um violador de juramentos.
Então, por que Mance enviaria uma linguagem tão provocativa para Jon e Melisandre?
A resposta deriva de vários fatos, alguns dos quais serão discutidos posteriormente no Manifesto. Mas a resposta simples é esta:
O que posso dizer neste momento é que Mance, Melisandre e Stannis sabem que Jon estava disposto a violar seus votos quando era necessário servir à Patrulha da Noite (e por extensão aos sete reinos).
Forçando Jon a se tornar um violador de juramentos, Melisandre e Stannis são capazes de usá-lo de outras maneiras, particularmente de maneiras que não envolvem sua permanência na Patrulha.
Com que propósito Stannis e Melisandre usariam Jon Snow, o violador de juramentos?
Infelizmente para Jon, ele mesmo forneceu a Stannis o motivo para 'roubá-lo' da Patrulha da Noite.
Explicar melhor isso é um dos pontos principais do Volume III do Manifesto.

CONCLUSÕES

A carta como um todo parece ser coerente com as teorias que descrevi até agora, particularmente com o resultado do ‘confronto nas criptas’.
Como discuto nos apêndices, também é coerente com algumas interpretações reveladoras das visões de Melisandre.
Obviamente Melisandre acreditava que a Carta Rosa responderia às perguntas de Jon sobre Stannis, Arya e Mance, e a carta o fez. Ela pensou que isso o obrigaria a confiar nela.
Embora a Carta Rosa tenha respondido suas perguntas, ele ignorou tanto a carta quanto Melisandre quando se recusou a procurá-la e agiu por conta própria. Acredito que isso se deva em grande parte ao fato de ele não perceber que havia segredos no texto; ele entendeu a carta pelo significado literal.
Existem algumas grandes questões que permanecem abertas:
Além disso, parece que Melisandre queria um ou ambos das seguintes coisas:

IMPLICAÇÕES

As perguntas e conclusões que podemos fazer parecem sugerir que chegamos a um beco sem saída. De fato, se continuarmos a tentar entender as coisas pelo ângulo de Mance Rayder, será.
Se dermos um passo para trás e começarmos a investigar algumas das outras pistas, preocupações e mistérios em A Dança dos Dragões, surgem novas ideias que nos levam de volta a Mance e Stannis.
Para aguçar seu apetite, aqui estão as questões importantes, antes de avançarmos para o próximo volume do Manifesto:
Essas e outras perguntas são respondidas no próximo volume do Manifesto, ‘O Reino irá Tremer’.
E, finalmente, para terminar com algum floreio, aqui está uma passagem de A Dança dos Dragões:
O Donzela Tímida movia-se pela neblina como um homem cego tateando seu caminho em um salão desconhecido.
(ADWD, Tyrion V)
submitted by altovaliriano to Valiria [link] [comments]


2020.09.05 04:27 frdnt Despindo o Homem Encapuzado

A teoria abaixo é parte de uma serie de textos escritos por Cantuse em seu blog. Link: https://cantuse.wordpress.com/2014/09/30/the-hooded-man-uncloaked/
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O MANIFESTO : VOLUME II, CAPÍTULO III

Provavelmente, um dos maiores mistérios de A Dança dos Dragões é a identidade do homem encapuzado. Muitas pessoas foram propostas, de Robett Glover a Harwin e ao próprio Theon em algum estado dissociativo.
No entanto, acredito que posso fazer uma conclusão mais convincente de que o homem encapuzado não é nenhuma dessas opções mais conhecidas. Este ensaio explica minha teoria sobre o homem encapuzado e seu propósito em Winterfell.
Colocando minhas cartas na mesa, aqui estão as principais afirmações que faço:
NOTA: Este ensaio pode ser controverso em sua construção e conclusões. Deve-se notar que a identidade do homem encapuzado não é verdadeiramente crítica para que o restante do Manifesto valha a pena. Este ensaio é bastante independente, não afetando mais nada no Manifesto.
Em outras palavras, se você não gosta deste ensaio, pode simplesmente ignorá-lo e continuar.
[...]

PRIMEIROS SINAIS DO GIGANTE

Eu gostaria de um breve momento para destacar algo importante.
– Para lutar com Lorde Stannis, temos que encontrá-lo primeiro – Roose Ryswell observou. – Nossos batedores saíram pelo Portão do Caçador, mas até agora nenhum deles retornou.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
Batedores estão desaparecendo do lado de fora do Portão do Caçador. Este é o mesmo portão onde Mors Crowfood parece chegar um ou dois dias depois:
O rufar parecia estar vindo da Matadelobos, além do Portão do Caçador. Estão do lado de fora das muralhas.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
O desaparecimento dos batedores parece algo pelo qual Mors seria responsável. É consistente com o que encontramos no capítulo liberado de Theon de Os Ventos do Inverno: construir obstáculos e impedir ou matar aqueles que saem dos portões. No mínimo, Mors não quer que nenhum batedor encontre seu bando de garotos e informe a Roose Bolton.
Mais importante, os batedores ausentes indicam que Mors estava realmente fora de Winterfell há pelo menos um dia (talvez mais) antes de tocar seus berrantes de guerra.
Mas por que ele ficaria lá aguardando em segredo?
Para responder a essa pergunta, temos que mergulhar no mistério do homem encapuzado.

O IDIOTA DOS RYSWELL

É difícil imaginar o tipo de mente obtusa que é necessária para ser Roger Ryswell. Há algo de suspeito sobre a magnitude e a natureza de sua idiotice.
O Idiota dos Ryswell
Eu gostaria de um momento para mostrar algumas passagens:
– Um bêbado – Ryswell declarou. – Mijando da muralha, aposto. Escorregou e caiu.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
:::
– Esses mortos eram todos homens fortes – disse Roger Ryswell –, e nenhum deles foi apunhalado. O Vira-Casaca não é nosso assassino.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
:::
Roger Ryswell grunhiu.
– Se não é ele, quem é? Stannis tem algum homem dentro do castelo, isso está claro.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
:::
Ryswell não estava convencido.
– Ele, no entanto, ama seus bifes, costelas e tortas de carne. Rondar o castelo na escuridão exigiria que deixasse a mesa. O único momento em que faz isso é quando procura a latrina para uma de suas longas horas agachado.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
Vejam, pode ser apenas eu, mas não parece que ele está quase deliberadamente negando qualquer explicação possível para os assassinatos?
Da perspectiva de um leitor, não é também uma estranha coincidência que Roger faz afirmações que contradizem vários truques que nós realmente vimos em A Dança dos Dragões:
Roger nega que as três diferentes conspirações que descobrimos sejam verdadeiras ou se tornarão verdadeiras posteriormente no livro e rapidamente descarta o restante.
Como uma pessoa consegue ser tão boa em acidentalmente impedir uma investigação de assassinato?
Falta de contato visual
Quando você pensa no Homem Encapuzado e na descrição que temos dele, existem apenas dois detalhes que vêm à mente: sua capa e seus olhos.
Mais adiante, cruzou com um homem que vinha na direção oposta, uma capa com capuz agitando-se atrás dele. Quando se encontraram frente a frente, seus olhos se encontraram brevemente. O homem colocou a mão na adaga.
– Theon Vira-Casaca. Theon assassino de parentes.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
Assim, vemos que Theon dá uma rápida olhada na capa do homem. Vemos também que Theon evita contato visual com o homem.
Essa falta de contato visual pode ser importante para determinar a identidade do homem encapuzado. Não há dúvida de que Theon evita o contato visual em geral, podemos supor que isso aconteça de vez em quando.
No entanto, gostaria de apontar outro exemplo muito interessante que mostra Theon evitando deliberadamente o contato visual ou olhar para o rosto de uma pessoa:
Pernas de Aço o levou pelo Grande Salão, até o solar que certa vez fora de Eddard Stark. Lorde Bolton não estava sozinho. A Senhora Dustin estava sentada com ele, o rosto pálido e severo; um broche de ferro com o formato de uma cabeça de cavalo prendia a capa de Roger Ryswell; Aenys Frey estava em pé perto do fogo, as bochechas vermelhas com o frio.
– Me contaram que você anda vagando pelo castelo – Lorde Bolton começou. – Homens reportaram terem visto você nos estábulos, nas cozinhas, nos barracões, nas ameias. Foi observado perto das ruínas das torres caídas, do lado de fora do velho septo da Senhora Catelyn, indo e vindo do bosque sagrado. Nega isso?
– Não, ‘nhor. – Theon fez questão de falar mal a palavra. Sabia que aquilo agradava Lorde Bolton. – Não consigo dormir, ‘nhor. Eu caminho. – Manteve a cabeça baixa, olhos fixos nas velhas tábuas corridas no chão. Não seria sábio olhar sua senhoria no rosto.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
Você notou o rosto que Theon não conseguiu explicar?
A Senhora Dustin estava sentada com ele, o rosto pálido e severo; um broche de ferro com o formato de uma cabeça de cavalo prendia a capa de Roger Ryswell; Aenys Frey estava em pé perto do fogo, as bochechas vermelhas com o frio.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
Por que obtemos descrições dos rostos de Barbrey Dustin e Aenys Frey, mas apenas a capa e o broche de Roger Ryswell? Ora, mesmo que Theon não olhe para Roose Bolton, ele pelo menos explica a razão para não fazer isso.
Tenha em mente que este interrogatório acontece logo após o encontro de Theon com o homem encapuzado, então o contato visual furtivo pode ser um indicativo de um comportamento continuado daquele encontro anterior.
Além disso, um detalhe extremamente pequeno é que Theon se detém na capa de Roger, o único outro detalhe que temos sobre o homem encapuzado.
Existem outros elementos interessantes do interrogatório de Theon:
Dedos perdidos
Quando a Senhora Dustin exige que Theon remova suas luvas: Roger Ryswell não mostra nenhum interesse nos dedos perdidos de Theon. Os outros participantes (Barbrey Dustin e Aenys Frey) comentam especificamente sobre suas mãos. Ryswell não o faz, em vez disso, descarta imediatamente Theon como um suspeito, não com base nos dedos, mas na falta de força de Theon. Ele também o chama de vira-casaca aqui. Talvez sua falta de interesse nas mãos de Theon seja porque ele acabou de vê-los.
Vassalos rivais
A outra coisa interessante sobre Ryswell aqui é sua aversão particular por Wyman Manderly. Embora insultar o personagem de Manderly seja muito comum, Manderly e Ryswell não têm grandes motivos para animosidade e, portanto, as observações de Ryswell sobre Wyman parecem bastante enfáticas:
– Ele, no entanto, ama seus bifes, costelas e tortas de carne. Rondar o castelo na escuridão exigiria que deixasse a mesa. O único momento em que faz isso é quando procura a latrina para uma de suas longas horas agachado.
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
Este é um insulto particularmente venenoso.
Há um homem no norte que fez comentários grosseiros deste tipo sobre Wyman. Mors Papa-Corvos Umber:
– Manderly? – Mors Umber fungou. – Esse grande saco bamboleante de banha? Seu próprio povo caçoa dele, chamando-o de Lorde Lampreia, segundo ouvi dizer. O homem quase não consegue andar. Se espetasse uma espada na sua barriga, dez mil enguias torceriam-se para fora.
(ACOK, Bran II)
Os Umbers e Manderlys são conhecidos por entrarem em conflito por várias questões, como a herança das propriedades da Senhora Hornwood. Independentemente de qualquer trégua atual que possam ter, Mors continua sendo uma pessoa improvável de conter tais comentários depreciativos.
Agora você pode ver que estou começando a afirmar os dois pontos a seguir:
Devo admitir que, até agora, apresentei evidências interessantes, porém circunstanciais.
Não tenho dúvidas de que esses pontos parecem apenas parcialmente sólidos até agora. Mas tenha fé. O resto virá em alguns instantes.

O GRILHÃO DE RUBI

Então, onde está o “grilhão de rubi” - a braçadeira que Melisandre colocou em Mance Rayder em A Dança dos Dragões?
Sabemos que esse grilhão parecia criar e sustentar um glamour (ou ilusão), que Mance Rayder era na verdade Camisa de Chocalho.
Esta parece ser uma ferramenta incrivelmente valiosa, especialmente quando se fala sobre os tipos de atividade furtiva em que Mance e Mors estão envolvidos.
Então onde está? O que pode ser feito com isso?
Mance Revelado
Em primeiro lugar, sabemos que Mance não está usando a braçadeira de rubi, ou que ela pelo menos está desativada. Sua aparência como Abel é muito parecida com sua aparência original em A Tormenta de Espadas:
Uma mulher grávida estava em pé junto a um braseiro, cozinhando algumas galinhas, enquanto um homem grisalho com um esfarrapado manto preto e vermelho estava sentado numa almofada, de pernas cruzadas, tocando uma alaúde e cantando.
(ASOS, Jon I)
O Rei-para-lá-da-Muralha não se parecia em nada com um rei, e tampouco se parecia com um selvagem. Era de média estatura, magro, com feições bem definidas, astutos olhos castanhos e longos cabelos castanhos já quase totalmente grisalhos.
(ASOS, Jon I)
Os dedos de Abel dançavam pelas cordas de seu alaúde. A barba do cantor era castanha, embora seu longo cabelo já estivesse em grande parte cinza.
(ADWD, Theon)
Então, como ele removeu o grilhão de rubi?
O texto deixa claro que o grilhão de rubi não interfere de forma alguma com o livre arbítrio de Mance, conforme implícito no conforto de Melisandre de que suas visões diriam se Mance era uma ameaça para ela, e em ela sentir que ter o filho de Mance é o que obriga a sua lealdade.
Com isso em mente, não há razão para deixar a algema em Mance.
Um fator adicional é o fato de que a Camisa de Chocalho é absolutamente horrível. Ninguém acreditaria que ele é um cantor e artista, e mesmo que acreditasse, sua aparência mereceria mais escárnio do que qualquer outra coisa.
Além disso, Melisandre tem interesse em ver Mance bem-sucedido. Se o grilhão de rubi pode ajudar nessa tarefa, parece não haver razão para que ela interfira. Afinal, a missão de Mance é vital para a campanha de Stannis, quão importantes são os segredos dela em comparação a isso?
As regras do jogo
Melisandre revela alguns dos mecanismos internos de seus glamours:
– Os ossos ajudam – disse Melisandre. – Os ossos se lembram. As seduções mais fortes são construídas com tais coisas. Uma bota de um homem morto, um tufo de cabelo, um saco de dedos da mão. Com palavras suspiradas e orações, a sombra de um homem pode ser tirada de um e vestida em outro como um manto. A essência de quem veste não muda, apenas sua aparência.
(ADWD, Melisandre)
Isso é interessante porque é incoerente com as preferências de Martin sobre a implementação de magia em romances de fantasia:
Eu simpatizo mais com a maneira como Tolkien lidou com a magia. Eu acho que se você vai fazer magia, ela perde suas qualidades mágicas caso se torne nada mais do que um outro tipo de ciência. É mais eficaz se for algo profundamente desconhecido e maravilhoso, e algo que pode tirar o fôlego.
(George RR Martin sobre magia vs ciência: Weird Tales)
Isso sinalizar imediatamente para os leitores de que algo importante está acontecendo aqui: Martin decidiu que revelar o mecanismo interno dos feitiços era mais importante para a história do que preservar o encanto da magia.
Embora isso não seja evidência de nada em particular, certamente deixa aberta a possibilidade de que Martin não apresentou desordenadamente os mecanismos subjacentes do glamour sem um bom motivo. O trecho sobre glamours é notável precisamente porque não é característico de sua representação da magia em As crônicas de gelo e fogo .
Deixando de lado as opiniões de Martin sobre magia na ficção, também é notável que Melisandre forneça essas explicações naquele momento. Afinal, supostamente nunca mais veremos o glamour ou o grilhão de rubi novamente. Por que se preocupar em explicar tudo, se é irrelevante para Mance ou Jon Snow?
Juntas, essas ideias soam como se Martin pensava que os glamours eram importantes o suficiente para explicar aos leitores, sugerindo importância futura.
Quem está com o grilhão?
Se Mance não está usando a algema, onde está?
A melhor maneira de lidar com essa questão é considerar a origem primeira... quem terá autoridade final sobre quem fica com o grilhão?
Melisandre.
Agora reflita:
Faz todo sentido do mundo que ela o deixe usá-lo. Não há absolutamente nenhuma evidência de que Jon o tivesse, e é altamente duvidoso que ela o daria a outra pessoa ou privaria Mance de sua utilidade.
Isso significa que Melisandre deu o grilhão a Mance, colocando-o em posição de dá-la a qualquer pessoa que encontrar. Portanto, a ideia de que Mors Papa-Corvos estava com o grilhão é, no mínimo, plausível.
A ideia de que Mors está com o grilhão faz muito sentido: fornece a ele uma maneira de acessar Winterfell e garantir que tudo esteja pronto para a missão de resgate. Afinal, Mors deve ter considerado a possibilidade de que Mance falhou em sua missão, Mors não poderia simplesmente tocar sua bateria e soprar suas buzinas indefinidamente.
No entanto, fazer 'muito sentido' e ser a resposta definitiva são duas coisas muito diferentes. Será necessário investigarmos mais para tornar esta afirmação convincente.
* * *
Não, não expliquei nem articulei que Mance sabe usar a braçadeira. Mas acredito que o convencimento de que o grilhão será usado pode ser feito sem que este fato seja revelado.

MORTE DE UM RYSWELL

Se eu acredito que Ryswell é um antagonista secreto?
Não. Roger Ryswell está morto .
Deixe-me explicar.
Um broche de cabeça de cavalo
Roger Ryswell usa um broche ímpar para prender sua capa:
um broche de ferro com o formato de uma cabeça de cavalo prendia a capa de Roger Ryswell
(ADWD, Um Fantasma em Winterfell)
Lembre-se do que Melisandre disse:
– Os ossos ajudam – disse Melisandre. – Os ossos se lembram. As seduções mais fortes são construídas com tais coisas. Uma bota de um homem morto, um tufo de cabelo, um saco de dedos da mão. Com palavras suspiradas e orações, a sombra de um homem pode ser tirada de um e vestida em outro como um manto. A essência de quem veste não muda, apenas sua aparência.
(ADWD, Melisandre)
Parece ser uma observação justa que o broche (e talvez a capa) seria uma fonte ideal para um glamour.
A confusão de Theon
Havia uma passagem no início de A Dança dos Dragões que sempre me intrigara:
Uma coluna de cavaleiros veio logo atrás, liderada por um fidalgote com uma cabeça de cavalo em seu escudo. Um dos filhos de Lorde Ryswell, Fedor soube. Roger, ou talvez Rickard. Ele não sabia quem era quem quando estavam separados.
– Estes são todos? – o cavaleiro perguntou, do alto de um garanhão castanho.
(ADWD, Theon)
Portanto, vemos que Theon tem problemas para diferenciar Roger de Rickard. É possível então que ele pudesse confundir os dois, dentro de determinadas circunstâncias.
Tenho certeza de que a confusão não está presente em situações de grupo, em que seria capaz deduzir qual deles era com base nas ações dos demais. Essa confusão seria mais proeminente em situações em que ele não tivesse outras pessoas para ajudar: em situações silenciosas e solitárias.
A utilização mais proeminente dessa dificuldade ocorre na noite anterior ao início dos assassinatos:
Sob a Torre Queimada, passou por Rickard Ryswell com o nariz enfiado no pescoço de outra das lavadeiras de Abel, a gordinha com bochechas de maçã e nariz achatado. A garota estava descalça na neve, embrulhada em um manto de pele. Ele imaginou que estivesse nua por baixo. Quando ela o viu, disse algo para Ryswell que o fez gargalhar.
(ADWD, O vira-casaca)
É interessante considerar que este aí pode ter sido Roger Ryswell.
A oportunidade
Com base na descrição, a esposa de lança nesta cena é Frenya, uma mulher corpulenta que é bastante habilidosa no combate: na tentativa de fuga, ela conseguiu lutar com uma lança de um dos guardas de Bolton e ferí-lo.
Quando você reflete sobre Frenya estar realmente se atirando sobre Roger (e não Rickard), as hipóteses de repente ganham vida!
Roger está sozinho em uma área isolada de Winterfell, com a esposa de lanças Frenya. A oportunidade de matar Roger para pegar seu broche e sua capa surgiu.
Lembre-se de que os assassinatos começam a acontecer na manhã seguinte a Theon ver Ryswell com Frenya.
A teoria
Usando as ideias que apresentei até agora, gostaria de montar uma teoria sobre Roger Ryswell.
  1. Frenya atraiu Roger Ryswell para o topo da muralha interna de Winterfell. Ela pegou a capa dele e então o empurrou para a morte.
  2. Esta capa foi então atirada ou enviada para Mors Papa-Corvos.
  3. Mors, em posse do grilhão de rubi, usou a capa para parecer Roger e entrar em Winterfell.
  4. Ele então fica por perto, talvez debatendo coisas ou reunindo conhecimentos. Ele participa das investigações dos assassinato, sabotando-as.
  5. Ele encontra Theon na famosa cena do “Homem Encapuzado” e novamente no interrogatório.
  6. Sua presença no interrogatório é o que dá a Mors a confiança de que a missão pode começar.
    Essa teoria faz sentido por alguns motivos:
Vernáculo compartilhado
Sempre houve uma notável semelhança entre duas afirmações, uma feita por Mors Umber e a outra pelo encapuzado:
– Theon Vira-Casaca. Theon assassino de parentes.
– Não sou. Eu nunca... eu era um homem de ferro.
– Falso é tudo o que você era. Como é que ainda está respirando?
(ADWD, Um fantasma em Winterfell)
:::
Em vez disso, ele choramingou através de dentes quebrados e disse:
– Sou...
– ... um vira-casaca e assassino de parentes, – Papa-corvos completou. – Segurará essa língua mentirosa ou a perderá.
(TWOW, Theon – tradução minha)
É notável que pouquíssimas pessoas se refiram a Theon como um assassino de parentes: Mors, Rowan e o Homem Encapuzado.
Mas isso nada se compara ao fato de que o homem encapuzado e Mors chamam Theon de vira-casaca, assassino de parentes e mentiroso / falso ... exatamente na mesma ordem.
Por algum tempo, isso sugeria a possibilidade de Mors ser o homem encapuzado, mas seu olho a menos [de Mors] me impedia de explicar essa possibilidade.
No entanto, a braçadeira de rubi subverte esse problema perfeitamente.
Ocultando o corpo
Vamos revisitar o primeiro assassinato, usando essa teoria como um guia.
Para refrescar sua memória:
Com esta teoria como guia, de repente fica claro: a primeira vítima de assassinato, o corpo enterrado na neve, era na verdade Roger Ryswell.
Em primeiro lugar, há algo muito singular neste assassinato em comparação com todos os outros: o corpo estava escondido.
Os outros assassinatos estavam todos à vista e tiveram um claro componente psicológico. Este corpo não era para ser descoberto:
Se as cadelas de Ramsay não o tivessem desenterrado, ele poderia ter ficado lá até a primavera. Quando Ben Ossos o puxou, Jeyne Cinza havia comido tanto do rosto do morto que meio dia se passou antes que soubessem com certeza quem era: um homem em armas de quatro e quarenta anos que marchara para o Norte com Roger Ryswell.
(ADWD, Um fantasma em Winterfell)
Além disso, é interessante que o rosto tenha sido comido porque tornou a identificação impossível. Caberia quase inteiramente a “Roger Ryswell” apurar a identidade do homem. Talvez seja por isso que Roger foi tão rápido em descartar o corpo como sendo apenas um bêbado.
Mais uma coisa a notar é que “Roger” declara que a vítima provavelmente estava mijando à beira da muralha:
– Um bêbado – Ryswell declarou. – Mijando da muralha, aposto. Escorregou e caiu. – Ninguém discordou. Mas Theon Greyjoy se perguntou por que um homem subiria por degraus escorregadios de neve até as ameias, na escuridão da noite, apenas para mijar.
(ADWD, Um fantasma em Winterfell)
Isso poderia de alguma forma implicar que as calças do homem morto estavam abertas ou abaixadas?
Fosse esse o caso, não poderia ser mais provável que o homem estivesse envolvido em um ato sexual quando caiu e morreu? No mínimo, certamente parece mais plausível que um homem procurasse um canto recluso para fazer sexo no alto das muralhas do que que ele tenha escalado uma muralha para mijar.
Resumidamente, se o morto estivesse no meio de algo que envolvesse seu pênis ficar fora das calças enquanto estava em cima das muralhas, provavelmente seria para sexo e não para urinar.
Se for esse o caso, temos que reconhecer que no dia anterior à descoberta do corpo, Theon viu um Ryswell com Frenya. Naquele momento, Theon observa que Frenya provavelmente “estivesse nua por baixo” da capa de pele de urso. Isso parece implicar que eles estavam fazendo (ou iam) fazer sexo. Minha opinião pessoal é que Frenya atraiu Roger Ryswell para o topo das muralhas, prometendo sexo oral. Durante o ato, ela agiu e o matou.

Preparado o palco

Voltando aos pontos iniciais deste ensaio, há questões que precisam de respostas:
  1. Dado que Mors e Mance colaboraram na missão de resgate, como Mors saberia que Mance estava pronto para levar a missão a cabo?
  2. Como Mance saberia que Mors estava fora de Winterfell, pronto para receber Arya?
  3. Por que Mors permaneceria em segredo fora de Winterfell por um dia ou mais antes de tocar seus berrantes?
Mors poderia facilmente indicar a Mance que ele estava no a postos: os berrantes de guerra fazem isso muito bem.
O verdadeiro problema é informar Mors de que a missão de resgate está pronta para acontecer. Para isso, os selvagens precisam ter algum tipo de sinal ou outra forma de se comunicar com Mors. Também pode haver detalhes específicos que modificam quaisquer planos que Mors e Mance possam ter inicialmente traçado.
Em última análise, Mance e Mors iria precisar de alguma forma de se comunicar. Eu acredito que foi por isso que Mors permanece por vários dias fora Winterfell antes de anunciar sua presença com os berrantes de guerra. Ele usa sua presença icógnita para acessar Winterfell e verificar se tudo está pronto para a tentativa de resgate. Talvez seja por isso que os batedores tenham desaparecido, para garantir o disfarce ou algo semelhante.

IMPLICAÇÕES

Existem algumas idéias (e questões) interessantes que surgem a partir deste ensaio:
O que aconteceu com o grilhão de rubi?
Eu acredito que é entregue a Mance antes da partida final de Papa-Corvos do castelo. Isso ocorre porque há evidências de que isso é fundamental para a “estratégia de saída” de Mance.
Senhora Dustin ou o outro Ryswell não notariam?
Os Ryswells se odeiam abertamente. Eles não prestam muita atenção às nuances do comportamento de seus irmãos.
Os Ryswells eventualmente não perceberiam que Roger estava desaparecido (depois que Mors saiu)?
Eventualmente. Não acho que Mors ou Mance realmente se importariam, e ninguém teria ideia do que realmente aconteceu.
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2020.08.22 03:24 frdnt A estrada para a Vila Acidentada

O texto abaixo é uma tradução de um artigo originalmente publicado no blog de Cantuse. Ele é o 9º texto de uma série de teorias que ele chama de “O Manifesto”.
O MANIFESTO : VOLUME II, CAPÍTULO I
O volume anterior [deste manifesto] não mediu esforços para estabelecer que Stannis, Melisandre e Mance conspiraram para resgatar Arya Stark.
Os detalhes desse resgate foram, até agora, vagos. O Volume II do Mannifesto visa detalhar precisamente a totalidade das jornadas de Mance ao longo de A Dança dos Dragões e além.
Sabemos que Mance primeiro deixou Jon com o objetivo declarado de resgatar Arya Stark. No entanto, o Volume I mostrou com detalhes meticulosos que o resgate também era necessário para ajudar Stannis.
Após o último encontro de Jon com Mance no capítulo de Melisandre, não o vemos novamente até o capítulo O Príncipe de Winterfell no castelo dos Stark.
O que aconteceu entre esses dois períodos?
Responder a esta pergunta requer uma análise detalhada das razões para Mance estar em Castelo Negro e qual era seu objetivo imediato ao partir. Para esses fins, este verbete do Manifesto afirma os seguintes pontos:
DEIXADO PARA TRÁS
Em Jon IV de A Dança dos Dragões, Stannis declara que está dando Camisa de Chocalho a Jon Snow. Por quê?
Afinal, Jon imediatamente declara que não tem uso para Camisa de Chocalho alegando que ele os trairá e retornará aos selvagens ou que outros membros da Patrulha da Noite irão matá-lo.
Mesmo assim, Stannis não muda de postura e deixa Camisa de Chocalho com Jon.
Por mais enigmático que pareça, explicar as razões para deixar Camisa de Chocalho em Castelo Negro é surpreendentemente simples - principalmente quando você compreende que Mance e Stannis conspiraram juntos.
A grande questão
Há uma grande questão que paira sobre tudo até agora dito em relação a Mance e Stannis:
Por que Stannis intencionalmente deixou Mance para trás?
Já mostrei que o plano quase certamente consistia em Mance se infiltrar no casamento e sequestrar Arya. Mas isso por si só não requer que Mance permaneça em Castelo Negro. Ele poderia ir para qualquer lugar, até mesmo com o próprio Stannis, se desejasse.
Qual foi então a razão para deixar Mance em Castelo Negro?
Outro Enigma
Antes de Stannis deixar Castelo Negro, ele tinha planejado originalmente levar os Thenns com ele. Eles deveriam ser sua vanguarda.
No entanto, Jon convence Stannis a deixá-los para trás.
Mais tarde descobrimos que os Thenns foram subsequentemente movidos para Vila Toupeira junto com todos os outros selvagens (ADWD, Jon V). Na verdade, eles foram rebaixados a serem iguais a estes colegas.
O que levanta questões importantes:
Por que Camisa de Chocalho não foi rebaixado da mesma forma?
Por que ele foi especificamente dado a Jon, como uma sumidade única entre os selvagens?
Quando você pensa sobre isso, parece que Stannis quer que Mance esteja o mais próximo possível de Jon.
Antes do Anúncio
Dado que Melisandre teve sua visão da garota cinza antes de Stannis partir para Bosque Profundo, isso significa que os conspiradores (Melisandre, Mance e Stannis) sabiam sobre o casamento antes mesmo de os anúncios terem sido enviados.
NOTA: Alternativamente, eles poderiam ter ficado sabendo através do serviço de “inteligência” de Arnolf Karstark.
Agora, aqui está o detalhe importante: eles não sabiam onde o casamento seria realizado.

As hipóteses

Isso nos traz às minhas hipóteses:
  1. Mance foi deixado para trás porque o local do casamento não fora confirmado ou era desconhecido.
  2. Arranjos foram feitos para que Mance fosse rapidamente informado do local do casamento assim que fosse conhecido.
Isso é bastante convincente quando você pensa a respeito. Mance precisaria estar em um lugar que pudesse receber mensagens para saber o local do casamento. Se ele estivesse viajando com um exército, não teria sido capaz de obter essa informação em tempo hábil.
Além disso, permite que ele viaje como uma 'unidade' à parte dos exércitos de Stannis.
Claro, essa hipótese não seria nada sem evidências e raciocínio válido.
O LOCAL É A CHAVE
A descoberta do local do casamento é simples. Explicar alguns dos detalhes do pano de fundo não é.
Pressão do Grupo
Pra começar, Jon recebe um 'anúncio de casamento' de Ramsay (ADWD, Jon VI) . Ele lê na presença de Mance (disfarçado de Camisa de Chocalho) e até lê o conteúdo em voz alta. Ele diz especificamente que o casamento será em Vila Acidentada.
Jon não conta a ninguém sobre esta carta ou seu conteúdo, mas Melisandre o confronta naquela mesma noite, tentando obter sua permissão para 'salvar sua irmã'. Só podemos supor que Mance contou a ela sobre a carta e foi isso que a levou a se aproximar, principalmente quando você nota que Melisandre não falava em privado com Jon desde o início do livro.
A observação é clara:
Já posso ouvir suas perguntas e objeções:
Não é um tanto presunçoso pensar que Mance iria apenas coincidentemente descobrir a localização do casamento ao ouvi-lo por acaso de Jon?
Parece improvável ou ao menos pouco seguro supor que um 'convite de casamento' seria enviado a Castelo Negro.
* * *
Escalando janelas
Tenho certeza de que Mance descobriria o local do casamento pelas cartas de Jon de uma forma ou de outra.
Acredito que ele planejava descobrir o local do casamento escalando os aposentos de Jon e lendo as cartas deixadas em sua mesa. Foi um acaso Mance ter ouvido Jon lendo a carta.
Mance até sugere isso de uma forma indireta:
– Eu poderia visitar você tão facilmente, meu senhor. Aqueles guardas em sua porta são uma piada de mau gosto. Um homem que escalou a Muralha meia centena de vezes pode subir em uma janela com bastante facilidade. Mas o que de bom viria de sua morte? Os corvos apenas escolheriam alguém pior.
(ADWD, Melisandre)
Ele basicamente diz que se ele escalasse a janela de Jon não seria para matá-lo.
* * *
É claro que isso não é uma prova concreta. Mas lembre-se de que as evidências até agora indicam fortemente que Mance, Melisandre e Stannis estavam em conluio. É quase óbvio que a carta de Jon foi o que motivou a “missão” de Melisandre e Mance.
Se Jon não tivesse lido a carta em voz alta, Mance teria sido obrigado a lê-la por algum outro meio . E a única maneira viável de fazer isso seria subir em sua janela.

UM CONVITE IMPROVÁVEL

Como demonstrei, a ideia de que Mance pudesse esperar por um convite (ou similar) contendo o local do casamento parece carregada de incerteza.
Abordei a logística de como Mance ficaria sabendo do local do casamento. Mas depende da certeza de que Jon receberia um convite em primeiro lugar: uma suposição bastante duvidosa.
Por que os Boltons enviariam um convite para Jon?
Por que Stannis, Mance e os demais estariam tão certos de que Jon receberia um?
Isso não faz sentido
Quando você pensa sobre isso, realmente não faz sentido enviar um convite para o casamento a Jon:
No entanto, apesar de todos os motivos para não fazê-lo, Jon recebe um convite.
Por quê?
O convite de Jon nem mesmo faz sentido por causa de uma passagem específica nele:
Jon não viu motivo para não contar.
– Fosso Cailin caiu. Os cadáveres esfolados dos homens de ferro foram pregados em postes ao longo da estrada do rei. Roose Bolton convoca todos os senhores leais para Vila Acidentada, para confirmar a lealdade ao Trono de Ferro e celebrar o casamento de seu filho com... – seu coração pareceu parar por um momento.
(ADWD, Jon VI)
Jon não é um lorde (sim, ele é Lorde Comandante, mas não é a mesma coisa), nem sua lealdade é relevante para seu trabalho.
Caro Senhor ou Dama
Se você der um passo para trás e refletir bem, a carta parece que poderia ter sido endereçada a outra pessoa.
Além disso, a carta foi escrita com sangue, e o sangue está descascando:
A tinta marrom se desfez em pedaços quando Jon passou o polegar sobre ela.
(ADWD, Jon VI)
Asha recebe uma carta semelhante, também escrita com sangue. O sangue não está descascando no dela.
Isso sugere que a carta de Jon talvez seja mais antiga.
Isso nos leva à minha teoria:
Mors Crowfood encaminhou seu convite para Jon.
Está claro tanto em A Dança dos Dragões quanto nos capítulos liberados de Os Ventos do Inverno que Mors estava conspirando com Mance em Winterfell. Eu exploro e sintetizo o relacionamento deles no próximo ensaio, Uma Aliança de Gigantes e Reis.
Mors estava aparentemente tão envolvido na missão de Mance quanto qualquer outra pessoa.
Faz sentido que ele encaminhe seu convite com base no fato de que ele sabe que é o que Mance precisa.
Nenhuma outra explicação viável parece estar disponível, pelo menos nenhuma que faça tanto sentido.
Tendo explicado a logística por trás do que desencadeou a missão de Mance, podemos passar aos detalhes da jornada de Mance a Vila Acidentada.

O BARDO DE VILA ACIDENTADA

O convite de casamento original recebido por Jon indicava que o casamento seria em Vila Acidentada, mas não vemos Mance / Abel até que Theon chegue em Winterfell.
Então o que aconteceu?
Mance viajou diretamente para Winterfell? Ou para Vila Acidentada*?*
Colocando de forma clara, Mance viajou primeiro para Vila Acidentada. Isso não é apenas coerente com a teoria montada até agora, mas dá sentido a algumas coisas.
Cavalos Velozes
Primeiro, Mance pede especificamente bons cavalos:
– Precisarei de cavalos. Meia dúzia dos bons. E isso não é algo que eu possa fazer sozinho. Algumas das esposas de lança encurraladas na Vila Toupeira devem servir. Mulheres podem ser melhores para isso. A garota vai confiar mais nelas, e elas me ajudarão com certo estratagema que tenho em mente.
(ADWD, Melisandre)
Ele poderia ter pedido simplesmente cavalos sem precisar esclarecer os que são bons. Essa pequena adição implica que ele planeja uma cavalgada com afinco.
Uma janela de oportunidade
Em segundo lugar, há uma quantidade considerável de tempo disponível para Mance e suas esposas fazerem a viagem:
Os homens haviam estado dezesseis dias na caçada […].
(ADWD, Fedor III)
Isso se refere à quantidade de tempo que Ramsay gastou rastreando os Freys desaparecidos. Isso significa que os convites já foram enviados há algum tempo. Havia três semanas ou mais para Mance fazer a viagem.
Uma pista sutil
Por todas as aparências externas, no entanto, não há evidências de que Mance realmente tenha chegado a Vila Acidentada.
Ou será que existe?
Há um trecho sutil e facilmente esquecido que poderia ser o murmúrio de uma pista. Quando Theon e Roose Bolton estão cavalgando por Vila Acidentada, Theon faz a seguinte observação:
Passaram por um estábulo e por uma pousada fechada, com um feixe de trigo pintado na placa. Fedor ouviu música através das janelas.
(ADWD, Fedor III)
Esta é uma pousada entre o salão de Harwood Stout e o da Senhora Dustin em Vila Acidentada. A música indica que algum menestrel ou trupe de menestréis deve estar tocando. Não há indicação de que haja homens Frey ou Manderly na vila (provavelmente acampados fora do perímetro da vila). Em qualquer caso, este é o tipo de pousada que você suspeitaria que os viajantes frequentassem. Além disso, os estábulos também são atraentes, visto que Mance estava viajando a cavalo.
Uma vez que sabemos que Mance partiu para Vila Acidentada e sabemos que ele teve tempo suficiente para fazer a viagem, devemos concluir que ele está em algum lugar por lá. Para ele em particular, faz bastante sentido chegar cedo por vários motivos:
Deve-se observar que, mesmo que você discorde que a citação significa que Mance está naquela taverna, temos todos os motivos para acreditar que Mance teria visitado Vila Acidentada. E com isso em mente, suas opções ainda seriam as mesmas descritas aqui.

COLETA DE INFORMAÇÕES

Observando o conhecimento a que Mance está exposto em Vila Acidentada, devemos ser capazes de estimar que tipo de conhecimento ou inteligência ele pode ter reunido.
Despensa Stout
Bem, uma coisa que quase certamente pode haver rumores em Vila Acidentada é que Harwood Stout está ficando sem comida por causa da gula de Ramsay. O texto ainda aponta que esses fatos estão sendo revelados pelos próprios servos de Stout:
Seu anfitrião, um grisalho senhor menor de um braço só, chamado Harwood Stout, sabia que era melhor não negar seu pedido, embora suas despensas devessem estar bem perto de se esvaziar. Fedor ouvira os servos de Stout murmurando sobre como o Bastardo e seus homens estavam comendo todo o estoque de inverno.
– Ele vai se casar com a filhinha de Lorde Eddard, dizem – a cozinheira de Stout reclamou, sem perceber que Fedor estava ouvindo –, mas é a gente que ele vai foder quando a neve começar, escrevam minhas palavras.
(ADWD, Fedor III)
Portanto, isso indicaria que Stout está ciente de um futuro sombrio para sua casa, sua família, seu povo - a menos que ele possa encontrar reabastecimento em algum lugar. Sabemos que Ramsay tem abusado de seu anfitrião de outras maneiras, como permitir que seus cães matem os cães de Stout. É muito provável que Stout odeie Ramsay.
O valor de tal inteligência não é claro, mas ainda é uma parcela de conhecimento que pode ser útil mais tarde.
Ódio de Dustin
O simples fato de que Ramsay está hospedado no salão de Stout já revela muito sobre política. Lembre-se de que Mance estava presente no conselho de guerra de Stannis (ADWD, Jon IV), onde Jon apontou que os Dustins e Ryswells estavam ligados aos Boltons pelo casamento.
A observação de que Ramsay não é bem-vindo no salão da Senhora Dustin sugere fortemente que sua lealdade a Roose Bolton não se estende ao próprio Ramsay. Outro fato útil.
Os Freys Desaparecidos
Ramsay diz que perguntou sobre os Freys desaparecidos em cada aldeia e fortaleza que eles encontraram.
Seria razoável que Mance soubesse disso no caminho para Vila Acidentada, ou que o boato estivesse circulando quando ele chegou à pousada em Vila Acidentada.
***
Como você pode ver, isso dá a Mance uma vantagem em diferentes maneiras de explorar as várias tensões dentro das forças de Bolton.
Em particular, ele sabe que os Freys e Manderlys têm objetivos opostos, e que Stout e Dustin desprezam Ramsay.

CONCLUSÕES

Sabemos que o casamento de Ramsay foi transferido para Winterfell. Também sabemos que Mance também foi para Winterfell e se infiltrou se passando por um trovador viajante e sua “família".
No entanto, este olhar sobre as atividades de Mance em Vila Acidentada mostra que ele teve uma compreensão muito boa da dinâmica da política em jogo antes mesmo de chegar, conhecendo como colocar as casas umas contra as outras.
Também é possível (mas não confirmado) que Mance pode até mesmo ter feito um acordo com um dos senhores presentes em Vila Acidentada naquela época.
***
Esta entrada no Mannifesto nos diz tudo o que acontece a Mance antes de chegar a Winterfell, exceto por uma questão gritante:
Mance encontrou Mors “Crowfood” Umber em seu caminho até Vila Acidentada
O encontro desses dois idealizadores é fundamental para os planos de Mance em Winterfell. A razão de eu atrasar a discussão sobre Mors Crowfood é porque é mais fácil entender os argumentos que vou apresentar se eu os relacionar aos vários eventos em Winterfell ocorridos depois da chegada de Mance.
Para continuar lendo o Manifesto e aprender sobre a relação entre Mance e Mors, vá para Uma Aliança de Gigantes e Reis.
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2020.06.20 12:45 amornostemposdequa Esponja de aço

Acho que todo mundo tem problema com fila de supermercado. É batata. Toda vez que entro numa fila e está chegando a minha vez, a fila trava. Alguma coisa sempre acontece e eu fico meia hora esperando para ser atendido. E o pior é quando eu mudo de fila e a bendita fila que eu estava começa a andar como se estivessem dando dinheiro lá. Ouvi numa palestra de filosofia que essa sina era a vida dizendo que eu tinha que trabalhar minha paciência.
Nesse dia, a fila do caixa rápido estava cheia. O mercado todo estava cheio. Sem pensar muito entrei na menor fila que consegui encontrar. Que sorte eu achei que tinha dado pois só tinha dois carrinhos na minha frente. Estavam cheios mais eram só dois. Estava sendo atendida nesse caixa, uma jovem negra com sua mãe. A moça usava um black power que estava crescente. Dava para perceber que ela tinha feito a transição há pouco tempo. Era um black curto, porém forte e poderoso assim como o episódio que se seguiu.
— Mãe, não vamo comprar dessa marca racista. A senhora não viu o deboche deles com aquele anuncio. — A moça disse isso tirando do carrinho vários pacotes de esponja de aço. Infelizmente a caixa já tinha passado uma unidade. — Não vou levar — Disse a preta com atitude — Pede pra cancelar enquanto eu vou buscar de outra marca. — E saiu correndo mercado adentro enquanto a caixa com uma cara não muito feliz chamava a gerente para cancelar o produto.
Ela voltou com vários pacotes de espoja de aço da marca concorrente. — Espero que ninguém compre DESSA MARCA RACISTA! — Ela disse isso assim alto para chamar a atenção mesmo. A mãe, apesar da vergonha por todos os olhos agora se voltarem para o nosso caixa também emitia um sorriso de orgulho por trás da máscara de pano estampada. Isso me lembrou que é muito difícil ver um negro consciente que não esteja pistola a maior parte do tempo. Experimente ver alguém fazer chacota com uma característica sua pra ver se você também não ficaria fudendo de ódio. Agora imagina aguentar essa chacota a vida toda.
Depois que a caixa passou toda a compra do mês das duas mulheres, a trabalhadora passou álcool no balcão e gritou "próximo". O cara que estava na minha frente usava uma camisa de uma série de vikings e no seu carrinho tinha engradados de cerveja artesanal e várias bobagens de comer como petiscos, batatinhas, biscoitos recheados. Minha surpresa foi quando ele começou a passar todos os pacotes de espoja de aço que a mina tinha deixado. Ainda deu pra ouvir ele dizer para caixa — Vou lá buscar mais alguns. Aproveitar que está na promoção néh? — Ele disso isso com um sorriso de deboche nos olhos e saiu correndo em direção a sessão de produtos de limpeza.
Apesar da vontade de mudar de fila eu lembrei da palestra de filosofia e continuei ali firme exercitando minha paciência. O tupiniviking não tardou a voltar com um monte de pacotes da esponja de aço racista. E quando finalmente ele passou todos os produtos e pagou com cartão, uma outra caixa com máscara de filme de ficção científica e uma bolsa de moedas na mão chegou para trocar de turno me deixando esperando mais uns bons minutos que pareceram eternos, enquanto ela arrumava o seu local de trabalho contando as moedas que serviriam de troco.
Edit: Decidi mudar o titulo do conto para "Cancela o produto" mas como não tem como editar o título da postagem então vou deixar assim mesmo.
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2020.04.13 04:42 altovaliriano Jon Snow (Parte 3)

O Jon que encontramos em A Fúria dos Reis é alguém decidido a fazer parte da Patrulha e seguir para o Norte com o Lorde Comandante Mormont para a batalha contra os selvagens.
Como sua lealdade foi testada durante A Guerra dos Tronos, é natural que Jon esteja em paz com seu papel na hierarquia da Patrulha e dedique suas forças e coragem para cumprir suas ordens. Por essa razão, não surpreende que Jon tenha evitado o bordel de Vila Toupeira mesmo diante da perspectiva de não retornar vivo. Quanta ironia que a última ordem que Jon recebe em A Fúria dos Reis (dada por Qhorin Meia-mão) seja justamente quebrar seus votos e trair a Patrulha.
A primeira cena de Jon em A Fúria dos Reis é interessante. Ele procura por Samwell na biblioteca de Castelo Negro e não compreende o interesse do amigo pelo local.
– Talvez você se surpreendesse. Esta galeria é um tesouro, Jon.
– Se você diz...
Jon tinha dúvidas. Tesouro queria dizer ouro, prata e joias, não poeira, aranhas e couro apodrecido.
(ACOK, Jon I)
Essa reação é curiosa, pois vimos como a educação formal de Jon o distinguia dentro da Muralha. É claro que ninguém pretende comparar a erudição de Tarly com a de Jon, mas retratar Jon como alguém que somente se interessa por conhecimento com utilidade prática é algo soa bastante Eddard Stark. Em contrapartida, Rhaegar Targaryen seria alguém mais parecido com Samwell.
Mas talvez este desinteresse tenha sido Martin plantando um desejo momentâneo por mais ação. Pois é certo que, uma vez que eles entram na Floresta Assombrada, a erudição de Tarly não serve para muito diante da amplitude de coisas inexplicáveis que ocorrem nas terras para-lá-da-Muralha.
Ao chegar em Brancarbor, Jon afirma poder sentir o poder do enorme represeiro no meio da vila. Não fica muito claro o sentimento que perpassa o personagem naquele momento. Ficamos sem saber se o rapaz sentia realmente a presença de algo sobrenatural ou apenas estava fazendo uma metáfora para o quão impressionante aos olhos era a velha árvore.
Outro evento que escapa à razão se dá quando a Patrulha está montando acampamento no Punho dos Primeiros Homens. Fantasma passa a se comportar estranhamento no local, se mostrando desobediente a Jon de forma até então inédita. O lobo se nega a entrar nas ruínas e, quando finalmente entra, começa a chamar Jon para seguí-lo (outra coisas que não o vemos fazer em nenhum outro momento).
No momento em que Jon é levado por Fantasma até a trouxa com as armas de obsidiana e o berrante de chifre de auroque, o pacote está coberto por “um montículo arredondado de terra mole”, o que dá a entender que alguém o havia enterrado ali recentemente. Mas quem quer que tenha enterrado os itens ali o fez para serem achado especificamente por Jon?
A escolha de Jon para fazer parte da equipe de Qhorin Meia-mão é outro momento em que o rapaz é tratado como escolhido pelos deuses.
– Muito bem. Escolho Jon Snow.
Mormont pestanejou:
– Ele é pouco mais do que um rapaz. E, além disso, é meu intendente. Nem sequer é patrulheiro.
– Tollett também pode cuidar do senhor – Qhorin ergueu sua mão mutilada, com apenas dois dedos. – Os deuses antigos ainda são fortes para lá da Muralha. Os deuses dos Primeiros Homens… e dos Stark.
(ACOK, Jon V)
Logo quando estes dois se conhecem, Qhorin logo quer saber em saber onde está Fantasma, que não está presente. Com isso, o patrulheiro estabelece interesse pelos predicados místicos de Jon. Esta inclinação de Qhorin pelo sobrenatural se repete quando ele afirma que Mance está reunindo tropas Presas de Gelo porque estaria atrás de um “poder” mágico, enquanto que Mormont pensa que isso ocorreu para esconder suas tropas dos olhos da Patrulha.
Para a sorte de Qhorin, sua aposta em Jon deu resultado. O rapaz teve um vívido sonho de warg dentro de Fantasma enquanto o lobo se aproximava do exército de Mance Rayder, poupando o trabalho dos patrulheiros. Entretanto, o afloramento deste poder através da intervenção de Bran parece ter sido um modo que GRRM achou de tornar este evento único. Ou seja, Martin o fez dessa forma para parecer que Jon não conseguiria repetir o feito sozinho. E como se vê nos livros seguintes, Jon não entra na pele de Fantasma em sonhos futuros.
De todo modo, Jon não consegue evitar a fama de troca-pele. Ela é suscitada na Muralha e entre o Povo Livre. Jon deve à intervenção hábil de Ygritte sua vida, caso contrário o bando de Camisa de Chocalho poderia estar duplamente disposto a matar um patrulheiro que também era um troca-pele, tivesse ele se rendido ou não.
Assim, fica claro que A Fúria dos Reis envolve um arco mais mágico de Jon nas terras para-lá-da-Muralha. Em contrapartida, A Tormenta de Espadas vai se focar em conflitos internos, no teste de suas lealdades e nas consequências de suas escolhas.
A jornada de Jon com Mance é bem exemplificativa disto. Inicialmente, Jon trata Mance como inimigo em seu íntimo para no final do livro ouvir que seu plano de “conquista” dos Sete Reinos é apenas uma fuga dos Outros. Jon tanto simpatiza pela causa de Mance que assume-a para si quando pensa que Mance estava morto, ao ponto de deixar a Patrulha à beira do motim (que só ocorreu quando ele quebra seus votos para tentar enfrentar Ramsay).
Mas essa empatia por Mance é cultivada por todo o livro. Logo no primeiro encontro, quando Mance parecia ser um completo estranho, GRRM habilmente introduz Mance na infância de Jon, fazendo com que o rapaz experimente a sensação de familiaridade por Rayder.
– [...] Você era só um garoto e eu estava todo de preto, fazia parte de uma dúzia que escoltou o velho Senhor Comandante Qorgyle quando ele desceu até Winterfell para um encontro como seu pai. Eu percorria a muralha em volta do pátio quando me deparei com você e seu irmão Robb. Nevara na noite anterior, e vocês tinham feito uma grande montanha por cima do portão e estavam esperando que alguém passasse por baixo.
– Eu me lembro – disse Jon, surpreso, comuma gargalhada. Um jovem irmão negro no adarve, sim. – Jurou não contar.
(ASOS, Jon I)
Por outro lado, Mance teve motivo para matar Jon duas vezes (quando o garoto mentiu no Punho dos Primeiros Homens e quando seu acampamento foi atacado enquanto Jon foi enviado por Janos Slynt para matar Mance Rayder). Contudo, em nenhuma das duas oportunidades o fez. Na verdade, pouco antes de ser capturado por Stannis, Mance estava explicando que gostava de Jon (apesar de não confiar nele).
Na verdade, durante o ataque de Stannis o próprio Jon teve a oportunidade de finalmente matar Mance e terminar o conflito. Porém, durante o capítulo, o rapaz não fez outra coisa senão avaliar como seria impróprio matar Mance naquelas circuntâncias, demonstrando que não mais o enxergava como um inimigo a ser eliminado a qualquer custo.
No caso do conflito envolvendo Ygritte a coisa é mais óbvia. Mesmo acossado por tipos como Alliser Thorne e Janos Slynt, Jon provou estar mais inclinado à ser leal à Patrulha do que aos desejos românticos. Ainda que Jon não tenha sido capaz de atirar na garota quando a teve sob a mira do arco (nem para retribuir a flecha que ele supõe que ela lhe atirou em Coroadarrainha), o rapaz nunca investigou quem foi que efetivamente atirou em Ygritte, apenas aceitando sua morte como decorrente do conflito.
Na verdade, a única ponta solta relevante que sobrou do evento em Coroadarrainha foi que Jon teve indícios de que Bran estaria vivo. Ou ao menos, vivendo uma segunda vida.
Em Coroadarrainha vi um lobo gigante, um lobo gigante cinza... cinza... ele me reconheceu. – Se Bran estava morto, poderia uma parte dele sobreviver em seu lobo, tal como Orell vivia no interior de sua águia?
(ASOS, Jon VI)
Estas especulações abrem uma grande brecha para novas direções na história, haja vista que o próprio Jon pode estar à beira de ele mesmo viver uma segunda vida em Fantasma. Assim, não pareceria tão fora do personagem que ele fosse atrás do irmão, ao perceber que sua vida humana acabou.
O último aspecto que quero pontuar em A Tormenta de Espadas é os primeiros momentos do relacionamento de Stannis com Jon. Neste livro, Jon é apenas um intendente que recebe do autoproclamado rei uma oferta de ser legitimado, abjurar seus votos, se casar e herdar Winterfell.
Mesmo diante de uma perspectiva tão sonhada, Jon hesita (talvez da mesma forma que Tyrion hesita em casar com Sansa para ganhar os mesmos títulos e terras). Na verdade, Jon fica irado com a perspectiva, porque, como a lembrança de Catelyn parece indicar, isso faria com que ele se tornasse o usurpador que ela anunciava que ele se tornaria.
Por que estou tão zangado?, perguntou a si mesmo, mas era uma pergunta estúpida. Senhor de Winterfell. Poderia ser Senhor de Winterfell. Herdeiro de meu pai.
Mas não foi o rosto de Lorde Eddard que viu flutuando na sua frente; foi o da Senhora Catelyn. [...] Ela o olhava daquela maneira como costumava olhá-lo em Winterfell, sempre que ele se sobrepunha a Robb nas espadas, nas somas, ou em qualquer outra coisa.
(ASOS, Jon XII)
Entretanto, era levado pela necessidade. Afinal, ele sabia que Janos Slynt estava próximo de ganhar a eleição de Lorde Comandante, o que significava que aceitar a oferta poderia ser o único modo de manter sua vida.
Lorde Janos será escolhido Senhor Comandante. E isso deixa-me o quê, além de Winterfell?
(ASOS, Jon XII)
A parte estranha, que eu nunca consegui entender, é qual foi resposta a que Jon Snow chegou quando encontrou com Fantasma.
Ele e o lobo estavam afastados há algum tempo, desde que Jon teve que escalar a Muralha, quando então se reencontraram no dia em que Snow foi escolhido Lorde Comandante. Naquele dia, Jon estava do outro lado da Muralha, refletindo sobre a proposta de Stannis quando o lobo apareceu. Jon estava olhando para Fantasma quando teve a seguinte cadeia de pensamentos:
Olhos vermelhos, percebeu Jon, mas não como os de Melisandre. O lobo tinha olhos de represeiro. Olhos vermelhos, boca vermelha, pelo branco. Sangue e osso, como uma árvore-coração. Este pertence aos deuses antigos. E só ele, entre todos os lobos gigantes, era branco. Tinham encontrado seis filhotes nas neves do fimdo verão, ele e Robb; cinco que eramcinzentos, negros e castanhos, para os cinco Stark, e umbranco, tão branco como a neve. Snow.
Então obteve a sua resposta.
(ASOS, Jon XII)
Uma vez que a eleição de Jon como Lorde Comandante o impede de contar a Stannis esta resposta, nunca ficamos sabendo a quê conclusão o rapaz chegou. Ou eu estou entendendo errado?
No tópico do domingo que vem, vou analisar Jon em A Dança dos Dragões.

Perguntas

  1. Jon realmente sentiu algum poder sobrenatural na árvore de Brancarbor?
  2. As armas de obsidiana e o berrante de chifre de auroque eram destinados a serem encontrado por Jon?
  3. Bran despertou poderes de warg em Jon? Ou aquele foi um evento único, cuja repetição depende de nova intervenção de Bran (ou de outro vidente verde)?
  4. Qual era a resposta que Jon obteve olhando para Fantasma em ASOS, Jon XII?
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2020.02.10 15:30 KNWRV Escrevi esse conto e gostaria de um feedback

O funeral
Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.16 01:33 KNWRV O Funeral

Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.10 16:41 KNWRV Vejam oq vcs acham desse meu conto

O funeral
Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.06 02:48 altovaliriano Mance Rayder

Este sábado de personagens foi movido para o domingo, pois estamos em reformas.
Mance é o pacote completo das terras além da Muralha. Ele é um selvagem, um irmão da Patrulha da Noite, um desertor e um Rei-para-lá-da-Muralha. A história diz que sua mãe era uma selvagem e o pai um irmão juramentado da Patrulha. Portanto, desde a concepção, Mance era destinado a viver em ambos os campos, como gelo e fogo.
Porém, quando garoto, Mance foi retirado da mãe e criado junto a Patrulha da Noite. Não se sabe quando isso aconteceu, nem em que circunstâncias. A Patrulha pode ter matado sua mãe, pois se diz que ele teria sido levado após o grupo de saqueadores em que estava foi morto pelos irmãos negros. Mas este grupo de saqueadores poderia ter o retirado de sua mãe, e a Patrulha não teria culpa na separação. Simplesmente não sabemos.
Tampouco sabemos se Mance serviu lado-a-lado com seu pai. Mance parece ter mais de 40 anos de idade no começo de A Guerra dos Tronos e é dito que ele servia em Torre Sombria. Denys Mallister é o comandante do castelo há 33 anos (o que não o impede de estar servindo há vários anos de ter sido eleito comandante), portanto, se alguém poderia dizer mais sobre isso, provavelmente seria Mallister.
O que é importante entender aqui é que a Muralha foi o pai provedor de Mance durante grande parte de sua vida. Entretanto, mesmo quando era um patrulheiro, Mance era muito interessado em canções, ainda que suas voz e habilidade com o alaúde sejam consideradas apenas medianas. Como o próprio homem alega conhecer todas as canções lascivas já feitas ao norte e ao sul da Muralha, é de se imaginar que Mance tinha desde cedo em si uma paixão incompatível com a vida de deveres de seus irmãos juramentados.
De fato, imaginemos o que é crescer na Muralha. Especialmente sob o comando de um homem cavalheiresco como Denys Mallister. É muito provável que Mance, durante a juventude, tenha desfrutado de uma juventude cheia de frugalidade e provações. Conhecendo o homem como ele é hoje, deve ter sido uma experiência extremamente limitadora e frustrante.
Portanto, não admira que o Rei-para-lá-da-Muralha tenha sido influenciado a desertar da Patrulha após a experiência com a filha de uma velha feiticeira selvagem. Todos conhecem a história: o grupo de Mance foi atacado por um gato das sombras enquanto esfolavam um alce caçado em uma patrulha, Mance estava ferido e foi levado às pressas para uma velha feiticeira selvagem, mas teve que ser tratado pela filha dela (pois a velha havia morrido) e foi bem tratado:
Limpou meus ferimentos, deu pontos em mim e me alimentou com mingau de aveia e poções até eu ficar suficientemente forte para voltar a subir em um cavalo. E também costurou os rasgões em meu manto, com um pouco de seda escarlate de Asshai que a avó tinha tirado dos restos de um barco afundado que apareceu na Costa Gelada. Era o maior tesouro que ela possuía, e foi um presente para mim. (ASOS, Jon I)
Estas poucas linhas apresentam uma história extremamente interessante. É um exemplo de como GRRM consegue comprimir um conto que poderia ser tratado em uma obra autônoma em apenas algumas linhas (algo que, segundo Remy Verhoeve, Martin perdeu em livros mais recentes).
Mance Rayder foi ferido em uma caça e levado a uma velha feiticeira. As expectativas provavelmente eram de encontrar uma senhora esquisita, mas eles acabaram encontrando alguém mais jovem. A mulhegarota aparentemente foi solícita e atenciosa, especialmente quando usou um “tesouro” familiar para consertar as roupas de Mance.
A questão do conserto da roupa, com seda escarlarte é a parte mais impressionante. Há uma sugestão de envolvimento sexual. Poder-se-ia pensar que Mance teve um caso com a mulhegarota e a seda no manto foi uma lembrança. Simbolicamente, representaria que Mance teve o negro da Patrulha conspurcado por um vermelho vivo de um amor encontrado do outro lado da Muralha.
Eu, porém, prefiro pensar que foi uma ferramenta de sedução. Que Mance e a filha da feiticeira não tiveram um caso de amor, mas que a seda seria uma demonstração de interesse, como que um convite à retornar. Afinal, como disse o própri Mance “Parti na manhã seguinte... para um lugar onde um beijo não era crime e um homem podia usar o manto que quisesse” (ASOS, Jon I).
Assim, quando Denys Mallister ordenou que Mance descartasse a roupa costurada e vestisse o uniforme padrão da Patrulha, o então patrulheiro estava diante de um dilema maior do que dever-liberdade. Descartar a roupa significaria virar definitivamente as costas para o amor. Assim, a motivação de Mance encontra um eco nas palavras de Meistre Aemon:
O que é a honra comparada com o amor de uma mulher? O que é o dever contra sentir um filho recém nascido nos braços… ou a memória do sorriso de um irmão? Vento e palavras. Vento e palavras. Somos apenas humanos, e os deuses nos moldaram para o amor. Esta é a nossa grande glória e a nossa grande tragédia.
(AGOT, Jon VIII)
Diante deste dilema, o patrulheiro se dirigiu para o seio de sua antiga comunidade, atraído pelo estilo de vida que nunca deve ter conhecido a não ser nas canções que tanto gostava. O detalhe interessante é que Mance usa este manto quando Jon o encontra.
Entretanto, há outro aspecto essencial nesta história, carregado de mistério. O navio que trazia seda de Asshai era um navio originário de Asshai? Claro que poderia ser um navio de Westeros que trazia a seda. Porém, a Costa Gelada não é conhecida por ser visitada por navios mercantes. Talvez então saqueadores das Ilhas de Ferro que acabaram naufragando na Costa Gelada ainda com a carga roubada? É possível.
Contudo, GRRM poderia simplesmente estar querendo dizer que é um navio vindo do oriente que naufragou após circundar o mundo sentido leste-oeste até chegar a Westeros. O que faria com que Alissa Farman não fosse a primeira navegadora a cruzar o Mar do Poente. Bem, acho que jamais saberemos definitivamente.
Voltando a Mance, não sabemos quanto anos antes do começo da história ele começou a reunir as diversas comunidades do Norte sob seu comando. Sabemos que o plano dele era levar o povo livre para o sul da Muralha, fugindo dos outros, mas não sabemos exatamente quando isso começou. Na verdade, GRRM manteve toda a linha do tempo envolvendo Mance bastante confusa.
Sabemos que ainda quando era patrulheiro, sob o comando do Lorde Comandante Qorgyle (que morreu em 288 DC), Mance visitou Winterfell e conheceu Jon ainda criança (que nasceu em 283-284 DC). Portanto, Mance não devia estar entre o Povo Livre há mais de 10 anos no começo de A GUERRA DOS TRONOS. Se está correta a informação obtida por Jon de que Mance “tinha passado anos reunindo aquela vasta e lenta tropa” (ASOS, Jon II), então é de se esperar que tudo tenha começado em anos recentes.
Por outro lado, podemos questionar a razão que levou Mance Rayder a reunir um exército para atacar a Muralha. O ex-patrulheiro não parece ser exatamente o tipo heroico de pessoa, que pensa em todas as vidas humanas que seriam perdidas em razão dos Outros.
Ou seja, se Mance Rayder pensasse apenas em salvar a própria vida, por que não simplesmente atravessou sozinho a Muralha, disfarçado de bardo e pegou um navio para Essos? Não só ele parece ser um mestre dos disfarces e da arte de se misturar a multidão, como também tinha uma bolsa de veados de prata quando visitou Winterfell para ver Robert Baratheon. Tinha a faca e o queijo na mão.
Se nós pudermos acreditar em Osha, entretanto, o plano de Mance na verdade seria reunir o exértico para lutar contra os Outros:
Por que você acha que fugi para o sul com Stiv, Hali e o resto daqueles idiotas? Mance pensa que vai lutar, o bravo, querido, teimoso homem, como se os caminhantes brancos não fossem mais que patrulheiros. Mas, que sabe ele? Pode chamar a si próprio Rei-para-lá-da-Muralha se bem entender, mas ainda é apenas mais um dos velhos corvos negros que fugiram da Torre Sombria. Nunca experimentou o inverno. Eu nasci lá em cima, filho, assim como a minha mãe e a minha avó antes dela, e a minha bisavó antes dela, nascida entre o Povo Livre. Nós recordamos.
(AGOT, Bran VI)
Dessa forma, fica parecendo que Mance estava reunindo as tribos para enfrentar os Outros, mas acabou fracassando. A fim de manter a unidade, porém, usou a hoste que havia reunido para atacar a Muralha e tentar forçar passagem para o Sul. Ainda assim, nada explica sua motivação para querer salvar toda essa gente.
Veja, Mance não parecia cultuar laços afetivos fortes antes do começo de A Guerra dos Tronos. Seus companheiros de acampamento são apenas líderes que ele submeteu ou parentes de sua mulher, e ele somente conheceu Dalla quando retornou da visita a Winterfell para ver Robert. Portanto, não parece haver qualquer explicação. Ou era ele tão apaixonado pela cultura do Povo Livre que desejava salva-los da extinção? Talvez, mas ainda parece uma justificativa estranha. Teria Mance alguma pessoa querida que foi morta pelos Outros antes que o conhecêssemos pelos olhos de Jon? Não, senão todos no acampamento saberiam e teriam comentado.
De todo modo, a investida de Mance contra a Patrulha da Noite não deu em nada. Coube ao recém-eleito Lorde Comandante Jon Snow ter a sensibilidade de dar seguimento ao plano de Mance, em parceria com Stannis Baratheon. Na verdade, é curioso que Jon tenha dado continuidade ao legado de Mance.
Frequentemente, aponta-se para o fato de Mance ter exercido uma influência partenal sobre o Lorde Comandante. E na mesma frequência Mance Rayder é associado com Rhaegar: um cantor-guerreiro que traiu seus votos em razão de uma mulher e desertou de suas responsabilidades. Com isso, não estou dando crédito à teoria “Mance = Rhaegar”, apenas fazendo um brinde a seus argumentos, pois acho que ela falha em ver literalidade em metáfora.
Diferentemente de outros personagens trazidos a vida do mundo dos mortos, Mance retorna ao mundo dos vivos saído de trás de uma ilusão, não por desígnio de R’hllor. Melisandre usa seduções (glamours, em inglês) para disfarçar Camisa de Chocalho como Mance e vice-versa, e Stannis é convencido para queimar o cara errado disfarçado de cara certo.
Eu nunca achei muito convincente a forma como Camisa de Chocalho é queimado. Não acho crível que ele não percebesse que estava sendo confundido com Mance e não fizesse uma defesa astuta de si mesmo. No caso, ao invés de R’hllor de se esconder atrás de R’hllor, GRRM preferiu deixar patente a importância de Mance para a trama dos futuros livros. E, de fato, sabemos que Mance conhece “muito e ainda mais sobre nosso verdadeiro inimigo” (ADWD, Jon I). Stannis o garante após conversar “por horas” com Mance Rayder.
Dessa forma, a não ser que o conhecimento que o Rei-para-lá-Muralha transmitiu ao Rei-na-Muralha seja suficiente para que a trama se desenvolva eficientemente, Mance teria que viver até que os Outros chegassem. Por essa razão que muitas pessoas suspeitam que as afirmações de Ramsay não verdadeiras. Na carta do bastardo, mais conhecida como “a carta rosa”, o atual Senhor de Winterfell afirma que Mance está enjaulado e deixado para o frio do inverno mata-lo. Esta é uma das afirmações que enche a carta de um senso de urgência, e possivelmente também foi uma das frases que deixou Jon convicto que deveria agir imediatamente para salva-lo.
Mas grande parte dos leitores enxergam muitos furos em tudo que é dito na carta. Alguns até mesmo dizem que dizem que a carta teria sido escrita pelo próprio Mance. Sem falar que o Rei-para-lá-da-Muralha estava confortável demais em sua imitação da história de Abel, o Bardo, para que ninguém imaginasse que ele tinha a intenção de imitá-la até os últimos detalhes. O que, em outras palavras, quer dizer que Mance tinha intenção de se esconder fora da vista de qualquer pessoa até que a confusão terminasse (o que faria de Ramsay um mentiroso).
Porém, não me aprofundarei no conteúdo da carta ou nas teorias que alegam que o autor não teria sido Ramsay (pretendo fazer isso no futuro). Por enquanto, basta dizer que a verdade sobre o que aconteceu com Mance está aberto à discussão dentro e fora do universo dos livros. Veja bem: o que estarão pensando os Selvagens na Muralha agora que Jon Snow leu a eles uma carta que diz que Mance está vivo em Winterfell, sendo que todos eles o viram queimar? Talvez passem a atribuir poderes mágicos a Mance e comecem a teorizar que ele enganou até a própria morte.
Coisas que saberemos quando Os Ventos do Inverno sair.

Perguntas

  1. O navio de onde a seda escarlate do manto de Mance foi retirado vinha do oriente?
  2. Por que Mance reuniu os Selvagens ao invés de fugir e se salvar?
  3. Mance realmente planejava lutar contra os Outros?
  4. Que tipo de influência Mance teve sobre Jon?
  5. Mance realmente foi capturado por Ramsay?
  6. Você acha que os Selvagens podem tentar resgatar Mance com base na Carta Rosa?
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2019.07.21 04:54 LamedVavnik Reportagem da Veja de outubro de 1968 contando um confronto entre a USP e a universidade do Mackenzie com uma fatalidade. A edição da revista é usada como código no filme Batismo de Sangue.

Olá Brasil! Achei essa reportagem à alguns anos atrás enquanto fazia um resumo do filme Batismo de Sangue para um trabalho de ensino médio. É um excelente filme que conta a história do Frei Tito, preso e torturado durante a ditadura sob acusações de ter contato com Carlos Marighella. Durante uma das cenas a edição de outubro de 1968 da revista Veja é usada como símbolo dos militantes. Fiquei curioso na época e conseguir achar uma versão online do texto, que dá uma pequena visão do panorama politico da época.
Destruição e morte por quê?
O ovo veio antes. Estourou na cabeça de um estudante. Depois vieram outras explosões, de coquetéis Molotov, bombas, rojões, mais tiros de revólver, para transformar um pedaço da Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, num campo de batalha. Poderia ter sido mais uma briga, marcando a rivalidade entre os alunos da Universidade Mackenzie e a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, uma em frente a outra se encarando com maus olhos há muito tempo. Mas a incrível batalha foi longe demais: há um morto, um moço de vinte anos, muitos feridos, os prédios de duas escolas danificados, vários carros virados e incendiados. No mesmo momento em que os universitários brasileiros reclamam um nível melhor de ensino e pretendem uma participação mais ativa na vida política do País, 3.000 estudantes do Mackenzie e 2.500 estudantes da Faculdade de Filosofia da USP deflagram a sua guerra por causa de um ovo. Para um estudante do Mackenzie, "essa briga prova que não há lugar para duas escolas na Rua Maria Antônia". é muito pouco para tanta violência. Uma coisa é certa: aos dois lados faltou a visão das conseqÜências políticas e dos danos materiais que a briga provocaria - e faltaram líderes para deter a briga, antes que chegasse onde chegou. Ao lado do caixão de José Guimarães, o jovem secundarista que tombou na batalha sem glória, Dona Madalena, a mãe desolada, chora, enquanto o irmão mais velho, Ladislau, repete para cinegrafistas e fotógrafos: "Filmem e fotografem à vontade. Talvez tudo isso sirva para alguma coisa, um dia".
Paus e pedras, bombas Molotov, rojões, vidros cheios de ácido sulfúrico que ao estourar queimavam a pele e a carne, tiros de revólver e muitos palavrões voaram durante quatro horas pelos poucos metros que separam as calçadas da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Exatamente às 10 e meia da manhã do dia 2, quarta-feira, começou a briga entre as duas escolas. Porque alguns alunos do Mackenzie atiraram ovos em estudantes que cobravam pedágio na Rua Maria Antônia a fim de recolher dinheiro para o Congresso da ex-UNE e outros movimentos antigovernistas da ?ação? estudantil, a rua em que vivem as duas escolas rapidamente se esvaziou. Formaram-se grupos dos dois lados, dentro do Mackenzie, onde estudam membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), Frente Anticomunista (FAC) e Movimento Anticomunista (MAC); dentro da Faculdade de Filosofia da USP, onde fica a sede da ex-União Estadual dos Estudantes. As duas frentes agrediram-se entre discursos inflamados e pausas esparsas. Ao meio-dia a intensidade da batalha aumentou, porque chegaram os alunos dos cursos da tarde. O Mackenzie mantinha uma vantagem tática - os seus prédios ficam em terreno mais elevado e são cercados por um muro alto. A Faculdade da USP está junto à calçada, num prédio cinzento e velho, com a entrada principal ladeada por colunas de estilo grego e duas portas laterais. A fachada não tem mais que 20 metros. Seu único trunfo: uma saída na Rua Dr. Vila Nova, perpendicular à Maria Antônia, bem defronte à Faculdade de Economia, também da USP. Nessa quarta-feira, uma enfermaria improvisada no banheiro da USP atendeu a seis feridos. Dois alunos do Mackenzie também se machucaram. Na rua, os estudantes da USP apupavam os do Mackenzie: "Nazistas, gorilas!" E os mackenzistas revidavam: "Guerrilheiros fajutos!" às 2 da tarde a reitora do Mackenzie, Esther Figueiredo Ferraz, pediu uma tropa de choque - 30 guardas-civis - para "proteger o patrimônio da escola". Quando a polícia chegou, os estudantes se dispersaram. Houve uma trégua.
TODOS NA DEFESA - Durante a noite as duas escolas discutiram a briga em assembléias. E tanto um grupo como o outro chegou à mesma posição: organizar a defesa para o dia seguinte e só atacar se atacado. A assembléia da USP declarou que não queria lutar contra o Mackenzie, mas contra o CCC. No dia 3, quase às 9 horas da manhã, um grupo de rapazes saiu pelo portão de ferro do Mackenzie, correu até a entrada da Faculdade de Filosofia e arrancou uma faixa suspensa entre as duas colunas. Dizia a faixa: CCC, FAC e MAC = Repressão. E mais abaixo: Filosofia e Mackenzie contra a Ditadura. Os dizeres insinuavam união das duas escolas contra a "ditadura" e as organizações de extrema direita. Ao arrancá-la, os mackenzistas repudiavam a pretendida unidade. E para que isto ficasse bem claro, às 9 e meia tomaram mais duas faixas dos alunos da USP. Foi o fim da trégua. Novamente a pequena rua estremeceu com a explosão de rojões, bombas, tiros, vidraças quebradas por tijolos e barras de ferro. Labaredas de fogo subiam pelas paredes lambendo o rebôco e deixando um rastro negro de fuligem. Guardas civis protegiam o Mackenzie - ainda a pedido da reitora - armados de metralhadoras, fuzis e cassetetes tamanho-família. Luís Travassos e Édson Soares, respectivamente presidente e vice-presidente da ex-UNE, somados a José Dirceu, presidente da ex-UEE, comandavam a resistência da Filosofia.
TODOS NO ATAQUE - Por volta de meio-dia, centenas de curiosos e colegiais que vinham das aulas da manhã aglomeravam-se nos dois extremos da Rua Maria Antônia. Aproveitando a presença dessa platéia, os universitários da USP, com saquinhos de papel na mão, pediam dinheiro "para comprar material de guerra". Grupo de alunas de um colégio próximo subiu num monte de material de construção. Entre elas estava uma menina de quinze anos, com uniforme da quarta série ginasial do colégio "Des Oiseaux" e óculos escuros. Ficou ali quase uma hora, até o instante em que três policiais avançaram sobre um grupo de estudantes que havia lançado pedras contra eles. Um dos policiais puxou o revólver e atirou para o ar. Um aluno da USP jogou-se contra ele, de mãos abertas, forçou o braço do soldado para trás e tentou tomar-lhe o revólver. Dois outros soldados começaram a dar tiros no chão. Um estudante foi ferido na perna: Jorge Antônio Rodrigues, do terceiro ano de Economia. Foi o primeiro choque entre polícia e estudantes na quinta-feira. Um capacete de aço que tombou na luta foi levado como troféu para o interior da Faculdade. Nessa hora, a platéia debandou. A menina de óculos escuros quase levou um tombo. Era a filha do Governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré. Logo depois, uma sirena gritou na rua. Os estudantes pensavam que a polícia estivesse investindo, mas era uma ambulância que ia buscar o rapaz atingido no rosto por um rojão, aluno do Mackenzie. Nessa escola, alguém ensinava como preparar bombas Molotov (segundo alguns alunos, foram atiradas mais de mil contra os estudantes e o prédio da USP). Nos rojões de vara eram adaptados vidros com gás lacrimogéneo, que iam rebentar no interior das salas da USP. Ácidos de cheiro muito forte e enjoativo eram lançados da mesma maneira. Foram instalados fios elétricos nos portões de ferro e grades do Mackenzie. Quem tocasse ali seria eletrocutado. As vidraças quebradas da USP eram substituídas por tapumes de madeira. Mas a tropa de choque da Faculdade de Filosofia havia acumulado às 14 horas um monte alto de pedras e duzentos rojões. Uma garrafa Molotov estourou sobre os fios de alta tensão que cruzavam a linha de fogo, queimou um deles, e de repente espocaram estalos e faíscas esverdeadas pela rua. Mais correria, mais gritos, mais palavrões. Do Mackenzie saíram bombas de gás lacrimogéneo que detonaram na rua e na entrada da Faculdade de Filosofia. Um edifício em construção, ao lado do Mackenzie, foi ocupado pelos mackenzistas.
DESORDEM, FERIDOS - Boatos e notícias contraditórias circulavam. A polícia invadirá as duas escolas, diziam uns. Outros negavam, mostravam-se mais sabidos: virá o Exército. "Por que seria a polícia? Se ela quisesse, já teria tomado alguma providência. Não iria ficar parada, assistindo de camarote a essa insensatez dos estudantes", dizia um velho, numa esquina. Para o General Sílvio Corrêa de Andrade, chefe do Departamento de Polícia Federal em São Paulo, todas as providências cabiam à polícia do Estado. "O que ocorre na Rua Maria Antônia é desordem, briga, e não manifestação política", dizia ele. Muitos alunos do Mackenzie feriram-se por acaso. Quando corriam por cima dos prédios para escapar das pedradas, sentiam as telhas cederem sob seus pés. Caíam então de uma altura de quase dois metros, desabando no assoalho do último andar. Um quebrou a clavícula, outro o nariz e um terceiro cobriu-se de escoriações. Por volta das 13h30 chegou um carro-tanque com seis bombeiros a pedido dos alunos da USP. Estacionaram na Rua Dr. Vila Nova e começaram o combate aos focos de incêndio que se multiplicavam pelo prédio da Faculdade de Filosofia. José Dirceu soltava frases de efeito: "As violências da direita estão sendo respondidas pela violência organizada do povo e dos estudantes", ou "Vamos esmagar a reação."
DE REPENTE, A MORTE - Perto do edifício em construção, tomado por alunos do Mackenzie, um grupo de secundaristas recolhia pedras para a USP. Na Rua Dr. Vila Nova ecoaram gritos e para lá correram muitos estudantes. Que era? Um aluno da Faculdade de Direito do Mackenzie, João Parisi Filho, halterofilista e desenhista, que teve trabalhos expostos na última Bienal de São Paulo. "Ele é do CCC", comentava-se. Cerca de oitenta estudantes da USP rodearam Parisi berrando: "Lincha! Mata o canalha!" O rapaz tinha um revólver. Tornaram-no. Depois, aos tapas, conduziram Parisi ao prédio da Faculdade de Economia da USP. (Quando à noite esse prédio foi tomado pela Força Pública, o presumível agente do CCC foi detido com os demais estudantes e encaminhado ao DOPS.) O trabalho dos bombeiros não parava. Rojões estouravam intermitentemente na Rua Maria Antônia. Súbito, defronte à Faculdade de Filosofia, um estudante com os braços abertos e quase se ajoelhando na calçada berrou: "Ambulância, ambulância, por favor". E atrás deste vieram mais rapazes carregando um jovem de cabelos pretos que tinha a camisa de linho branco tinta de sangue. Era José Guimarães, aluno do Colégio Marina Cintra, terceira série ginasial, vinte anos. Pintava nas horas vagas. Tinha mãe viúva. Ao passar pela Rua Maria Antônia resolveu ajudar os universitários. Recolhia pedras para a USP. Uma perua dos "Diários Associados" levou-o para o Hospital das Clínicas. Mas José Guimarães morreu no caminho. Na Maria Antônia ele deixou revolta e manchas de sangue. Laudo da autópsia: "A bala é de calibre superior a 38 ou de fuzil. Havia seis ou sete pedaços de chumbo no cérebro. O tiro entrou 1 centímetro acima da orelha direita e saiu à altura da linha mediana da cabeça, atrás, ligeiramente à esquerda. A bala fez um percurso de cima para baixo, em sentido oblíquo". Quem atirou? Ninguém sabe.
A BRIGA PROSSEGUE - Ao saber da morte do estudante secundário, José Dirceu subiu num monte de tijolos, cadeiras, corrimãos de escada e paralelepípedos, que servia de barricada, fez um comécio-relâmpago. "Não é mais possível mantermos militarmente a Faculdade. Não nos interessa continuar aqui lutando contra o CCC, a FAC e o MAC, esses ninhos de gorilas. Um colega nosso foi morto. Vamos às ruas denunciar o massacre. A polícia e o exército de Sodré que fiquem defendendo a fina flor dos fascistas. Viva a UNE, abaixo a reação!" Então concebeu uma nova imagem e desfechou: "Jorge, o rapaz morto, é um segundo Édson Luís (o secundarista que morreu no restaurante do Calabouço, na Guanabara). Vamos às ruas!" Com essa oratória Josá Dirceu conseguiu pôr a maioria dos assistentes em posição de passeata. "Não é Jorge, é Dionísio" cochichou uma estudante à colega. Ninguém sabia direito o nome da vítima. às 3 e meia uma janela se abriu no prédio da USP, e através dela um aluno gritou: "Estão contentes? Vocês já mataram um". Só assim os mackenzistas souberam da morte de um adversário. Também não entenderam a morte. Uns diziam que tinha sido uma bomba Molotov, outros, que foram tiros da polícia. Quem havia morrido não interessava. Toda a atenção deveria voltar-se para a pontaria das pedradas, que continuaram, mesmo depois de oitocentos estudantes da USP saírem em passeata.
QUEIMAR, QUEBRAR - Os estudantes ganharam a cidade em dez minutos. Arrancaram um pano vermelho da traseira de um carro-guincho e com ele fizeram uma bandeira. Em seguida, cercaram um Aero-Willys com chapa branca da Prefeitura Municipal de Santo André (cidade dos arredores de São Pauto), obrigaram o chofer, preto e gordo, a correr, quebraram todos os vidros do automóvel e amassaram a carroceria. Vinte metros adiante, rodearam um Volkswagen da polícia. Com pedaços de ferro nas mãos, dirigiram-se ao motorista: "Com licença, nós vamos pôr fogo no seu carro". O policial abandonou o automóvel e ficou a distância entre os espectadores. Os estudantes tombaram o carro e atearam fogo.
Depois incendiaram um Aero-Willys da Força Pública de São Paulo. Iluminados pelas chamas que subiam a 20 metros de altura, José Dirceu e Édson Soares fizeram discursos "denunciando o assassinato de um colega e oferecendo solidariedade aos bancários que, em greve, resistem à opressão". Aproveitando o congestionamento do trânsito, as moças da passeata dirigiam-se aos automóveis parados, pedindo dinheiro para "a resistência" e anunciando a morte do companheiro. Minutos depois queimavam mais um Volkswagen da polícia. As chamas ameaçavam um ônibus; os passageiros o abandonaram apavorados, enquanto uma perua Rural-Willys da chefia policial era depredada. Do alto de alguns prédios caíam papéis picados. Na Praça da Sá, ponto central de São Paulo, um Aero-Willys da Polícia Federal foi depredado; os transeuntes gritavam, corriam. Uma senhora desmaiou e foi carregada até a Catedral. A passeata dirigiu-se para o Largo de São Francisco, onde fica a Faculdade de Direito, contra a qual foram lançados paus e pedras. José Dirceu fez novo discurso. De lá os estudantes correram para a próxima Praça das Bandeiras, onde surgiu um caminhão com doze homens da Força Pública. Os estudantes fugiram aos gritos. Seis jornalistas foram presos.
É UMA ESTUPIDEZ - Na Rua Maria Antônia a batalha arrefecia. No prédio da USP sobravam poucos estudantes. Algumas partes do teto ruíam. Às 18h30, Luís Travassos, o presidente da ex-UNE, entrou na Faculdade de Economia dizendo: "É preciso desmobilizar isso. Daqui a pouco não temos mais munição, o prédio pode ser invadido, vai ser um massacre." Os mais atirados queriam ir buscar o corpo de José Guimarães. "E que vamos fazer com o corpo aqui dentro?", perguntou Travassos dando de ombros. Às 20h30, José Dirceu apareceu com uma camisa suja de sangue. Subiu numa janela e, cercado por fotógrafos e cinegrafistas, teve um gesto dramático: "Colegas, esta camisa é do nosso companheiro morto pelas forças da repressão. Vamos todos para a Cidade Universitária. Haverá assembléia." Duzentos e quarenta soldados da Força Pública, cem cavalarianos, dois tanques e cinqüenta cães amestrados começaram a chegar na Rua Maria Antônia e vizinhança. O Mackenzie foi ocupado sem problemas, mas alguns estudantes ainda atiravam bombas Molotov contra o velho prédio da USP e pedras caíam sobre os jornalistas que tentavam se aproximar.
Um repórter da "Tribuna da Imprensa" do Rio de Janeiro foi ferido na cabeça. A Faculdade de Filosofia também foi ocupada. Nela estavam apenas alguns professores e alunos, fechados numa sala para redigir um manifesto sobre os acontecimentos. Os mackenzistas cantavam o Hino Nacional e davam vivas. A reitora Esther Figueiredo Ferraz apertou a mão de alguns funcionários e estudantes. E os estudantes gritaram: Vamos tomar uns chopes para comemorar a vitória". E foram beber.
QUEM VENCEU? - Enquanto o corpo de José Guimarães era velado pela mãe, a irmã e o irmão, sob forte proteção policial, enquanto os alunos da USP discutiam o que fazer no dia seguinte e os mackenzistas bebiam, o diretor em exercício da Faculdade de Filosofia, Professor Eurípedes Simões de Paula, observava que "o prédio da Maria Antônia não tem condições de funcionar até o fim do ano". As aulas serão transferidas para a Cidade Universitária. "Já deveriam ter saído antes", observou Erwin Rosenthal, o diretor que vai à Europa. Com isso, o Mackenzie ganhava o domínio da Rua Maria Antônia. A briga entre as duas escolas é muito antiga e cheia de crises. A principal foi em 1964, quando o CCC sentiu-se fortalecido com a mudança de regime e invadiu a Faculdade de Filosofia quebrando vidraças, móveis e espancando estudantes. Em 1966, quando Luís Travassos foi eleito presidente da ex-UEE, repetiu-se a invasão e foi destruída a urna de votação. Em 1967, quando José Dirceu substituiu Travassos, houve outras brigas. Mas há alunos do Mackenzie contrários a seus colegas da chamada "tropa de choque". E na passeata de uma hora feita na tarde de sexta-feira por cerca de 4 mil pessoas em sinal de protesto pela morte de José Guimarães (um protesto contra quem?), apareceu urna faixa: "O Mackenzie se Une às Outras Escolas e Repudia a Colaboração dos Professores na Fabricação de Armas Assassinas". Nessa passeata, que acabou sendo dissolvida a bombas de efeito moral e gás lacrimogéneo, José Dirceu declarou que "a UNE e a UEE derrotaram o CCC, o FAC e o MAC em quatro assembléias lá dentro do Mackenzie". A União das Mães de São Paulo, que apoiou a passeata, pediu aos estudantes que se manifestassem pacificamente. "Violência gera violência", disse a oradora da União. Os estudantes não gostaram da advertência. Um coro interrompeu o discurso: "Povo armado derruba a ditadura", gritaram. A senhora não perdeu a coragem. Uma mocinha deu-lhe apoio: "Muito bem". Mas o estímulo caiu no silêncio. A União das Mães tomou uma decisão na hora: "Retiramos nosso apoio se vocês não fizerem essa passeata pacificamente". Mas não houve paz. Alguns estudantes quebraram vidraças do First National City Bank, outros viraram e queimaram um carro. Às 20 horas - duas horas após o desbaratamento da manifestação -, uma perua da Força Pública foi atacada num ponto distante do roteiro da passeata. Luís Travassos e José Dirceu estavam cansados e unidos. A camisa manchada com o sangue de José Guimarães foi carregada como um estandarte. Ninguém - exceto parentes e policiais - pôde ir ao enterro do moço assassinado numa batalha absurda. O sepultamento marcado para as 16 horas de sexta-feira foi às 13 horas, no Cemitério do ?Araçá?. Os moços da ex-UNE querem fazer dessa morte um caso político de repercussão nacional e anunciam mais passeatas. A que pode servir tudo isso? O irmão do morto diz que talvez sirva a alguma coisa, um dia. Que coisa?
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2019.07.16 06:53 altovaliriano Cronograma da rebelião da Casa Dayne e o parentesco de Edric

Link: https://bit.ly/32sgp5E
Autor: @liesandarbor (uma das apresentadoras do podcast @girlsgonecanon).

Casa Dayne: a Casa misteriosa que nós amamos, e a casa da qual temos quase nenhum detalhe sobre. A primeira vista, somos deixados com os mistérios sobre Ashara, Arthur, quem é o bebê natimorto de Ashara, eles estão vivos? Quem! São! Eles!
George não nos forneceu muito sobra a Casa Dayne – e o fez por uma razão. Quando ele quer esconder informação de nós, rapaz, ele consegue.
Eu não planejo desmontar nada de importante para vocês hoje (Por exemplo: as loucas linhas do tempo de Ashara e Arthur não terão nenhum efeito real sobre o que estou tratando aqui), mas ao analisar toda esta informação insana, eu me vi com algumas questões. Especialmente em relação a Edric Dayne, seu pai (o “Dayne mais velho”), e quem diabos teria sido sua mãe.
A linha do tempo da Casa Dayne da Rebelião de Robert é muito esquisita quando você a prepara. A década de 280 DC é mal arranjada e cheia de nascimentos e mortes.
É aqui que vocês devem se aprontar, amigos – estamos partindo uma jornada animal.
[OMITI A LINHA DO TEMPO E APONTAMENTOS, VIDE NO LINK] 
Casamentos políticos vantajosos: Parte A
Allyria foi prometida a Beric Dondarrion quando ela tinha 12 anos. Alguém teve que fazer a promessa, e eu tenho certeza que não foi Edric Dayne, aos 7 anos de idade.
Nós não temos uma data estabelecida em texto para a morte do Dayne mis velho, mas em ASOS, parece que Edric Dayne aos 12 anos de idade não é Senhor [de Tombastela] há muito tempo. Quando Allyria foi prometida em 294 DC, Edric se tornou pajem de Beric, fazendo da promessa um acordo em pacote e, provavelmente, não um ato dele próprio. Edric tem 12 anos em 300 DC.
– Há quanto tempo é escudeiro de Lorde Beric? – perguntou, para afastar a mente dele dos problemas. – Ele tomou-me como pajem quando se comprometeu com a minha tia. – Tossiu. – Tinha sete anos, mas quando fiz dez me promoveu a escudeiro. Uma vez, ganhei um prêmio, avançando contra anéis.
Essa passagem do capítulo de Arya, combinada com diversas pequenas citações, nos fornecem pequenos detalhes que nos possibilita desvendar o quando e onde do comprometimento de Allyria e Ned Dayne. Mas elas não nos fornecem ideias sobre o porquê do compromisso entre Allyria e Beric Dondarrion, que tem um castelo nas Marcas e era o Senhor de Portonegro.
Casamentos políticos vantajosos: Parte B
Embora todos os personagens não contemplados pelos livros nem sempre precisem "ser" alguém – por exemplo, a esposa do Dayne mais velho é, na verdade, apenas a Senhora Dayne – eu não tenho dúvidas de que George definitivamente escreveu em algum lugar quem a esposa do Dayne mais velho era e quem é a mãe de Ned Dayne. Não, eu não acho que seja alguma teoria ou pessoa "secreta" - eu acho que há uma explicação perfeitamente lógica que nem diminui ou acrescenta muito à narrativa principal.
O escudeiro parecia a Arya bastante simpático; talvez um pouco tímido, mas de boa índole. Sempre tinha ouvido dizer que os dorneses eram baixos e trigueiros, com cabelos e pequenos olhos negros, mas Ned tinha grandes olhos azuis, tão escuros que quase pareciam púrpuras. E os cabelos eram de um louro claro, mais cinza do que mel.
Uma descrição física de Ned Dayne me fez suar a camisa. Não havia Hightowers ou Velaryons compatíveis com esta linha do tempo, tampouco nenhuma notável donzela de cabelos claros nascida dentro do período de 15 anos que poderia ser a metade de Ned. Quando toda a esperança parecia perdida, eu percebi que eu estava olhando para “quem”, embora politicamente, eu deveria estar procurando um “por que”.
Eu me virei para outra família de dorneses pedregosos, com quaisquer árvores genealógicas ou evidências textuais que pudéssemos ter.
Eu me virei para os Fowlers.
Os Fowlers, uma casa juramentada aos Martell, de nascimento alto o suficiente para ser um bom casamento de um herdeiro da Casa Dayne. Uma Casa famosa por donzelas morenas de cabelos loiros, e uma casa famosa por guerrear com Senhores das Marcas – apenas na primeira guerra dornesa, em 10 DC, Lorde Fowler liderou uma hoste dornesa, queimou Nocticantiga e levou reféns do castelo.
Então, como isso se encaixa?
Se o Dayne mais velho tivesse se casado com uma senhora da Casa Fowler, ao prometer Allyria (e mandar Edric como pajem e, eventualmente, escudeiro) poderia ser visto com um casamento político vantajoso vincular um Senhor das Marcas à Casa Dayne, especialmente se isso significasse paz entre a Casa Fowlers e as Marcas.
*Porém sabemos que nada disso teria importância, pois Beric ficou nessa de morrer e desmorrer e o Dayne mais velho morreu em algum momento, portanto as propostas políticas do Dayne mais velho literalmente mortas.*
Desapontador? Completamente. Mas por um momento, se encaixa. O maior furo nesse encaixe se deve aos Fowlers serem descritos como tendo cabelo amarelo, enquanto Edric é profusamente descrito como tendo cabelos loiros como cinzas. Genealogia não é MUITO importante para um detalhe tão pequeno em ASOIAF, mas George fez uma distinção bem específica dizendo que os cabelos louros de Ned pareciam cinza e não “mel”.
Se eu acho que isso é 100% correto ou que nós iremos ficar sabendo? Não, provavelmente nem um pouco, a menos que George eventualmente lance uma enorme enciclopédia ou tomo com essas pequenas respostas e árvores genealógicas. Como dito acima, eu definitivamente acho que Edric tem uma mãe, e tenho certeza que em algum lugar George elaborou isso, mas não é muito importante para a narrativa e a direção da história.
Eu fiquei intrigado com essa linha do tempo por anos e descobri que algumas das interseções são totalmente insanas e estranhas. Tantas especulações podem ser feitas diante da falta de informação, e a Casa Dayne é certamente divertida de se especular sobre!
Resumo: O irmão Dayne mais velho se casou com uma Fowler, e arranjou para Allyria se casar com Beric para garantir que haveria paz entre os Fowlers e os Senhores das Marcas. Além disso, os Daynes tem uma linha do tempo maluca.
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2019.06.09 12:37 N1ghtm4r3OFFICIAL Quem sou eu? Onde estou?

Acordei no meio de uma floresta , não fazia a mínima ideia onde estava e também não me lembrava de quem eu mesmo era , só sabia que estava com uma dor enorme nas costas e nos joelhos.
Em baixo de mim tinha um buraco de pelo menos 3 metros de altura e 5 de largura e comprimento "será que eu tropecei e bati a cabeça aqui? Não , não era possível eu ter feito esse buraco com uma queda" e então veio a minha mente "será que fui eu que cavei este buraco e depois de tanto trabalho desmaiei?"- pensei eu , mas aquilo não fazia sentido. Eu não tinha ferramentas para cavar aquele buraco e mesmo que eu tivesse cavado com as mãos eu deveria estar com elas a sangrar , mas não estava. Também não tinha ninguém perto de mim por isso pensei "será que alguém me raptou e deixou-me aqui para me enterrar depois? Será que é por isso que não me lembro de nada? Deve ser , devem ter me botado inconsciente e com a pancada devo ter perdido a memória." , mas enquanto eu pensava nisso ouvi um grito que parecia vir de cima "AHHHHHHH" e depois o chão estremeceu. Fui logo a correr ver o que era e deparei-me com um homem caído no chão ferido.
Está tudo bem? - perguntei eu
NÃO, ME AJUDA , POR FAVOR. - gritava o homem
Enquanto ajudava o homem a se levantar e o sentar num tronco que estava no chão do nosso lado perguntei:
O que aconteceu com você?
Então ele paralisou por alguns segundos provavelmente tentando lembrar de algo e de repente disse:
Não sei o que aconteceu... espera quem é você? - o homem gritou assustado
Eu ouvi você caindo e vim logo para ajudar - respondi um pouco assustado também
O homem ficou pensando em algo e eu reparei que onde ele caiu formou-se um buraco de pelo menos 3 metros de altura e 5 de largura e comprimento igual ao meu.
Você se lembra de quem é? Ou alguém da sua família para eu te ajudar a ir para casa? - perguntei
Não , eu não me lembro de nada. - ele respondeu com um tom meio seco
Ficamos em silêncio por alguns segundos quando do nada ouvimos um barulho na mata
Quem está aí? Se mostre - gritei alto
Uma mulher aparece e olha para mim primeiro com um olhar de medo mas depois se torna em alegria
Oi senhora posso ajuda-la com... - a minha voz é interrompida pela mulher
Finalmente encontrei vocês - disse a mulher muito alegre - vamos temos que nos apressar eles estão vindo nos buscar
A mulher ajudou o homem que ainda estava confuso a se levantar e curou as suas feridas do nada.
Como que você... - minha voz é interrompida novamente
Vamos rápido antes que eles nos peguem - disse a mulher enquanto nos indicava para a seguir
Não tentei resistir , eu e o outro homem seguíamos a mulher enquanto falávamos no ouvido um do outro.
Quem diabos é ela? - perguntei
Não sei, mas veja ela curou minhas feridas - respondeu o homem
Será que ela é uma bruxa ou algo do género?
O homem se assustou com o que eu disse e a mulher percebeu.
Parem de falar e se apressem - disse ela chegando mais perto de nós
Enquanto andávamos ouvimos ruídos vindos do mato.
Se escondam - disse a mulher
Nos escondemos em uns arbustos bem altos e ficamos em silêncio quando do nada um grito acaba com o silêncio.
ONDE VOCÊ SE ESCONDEU COVARDE? - uma voz misteriosa de um homem gritou de dentro da floresta.
De quem ele esta falando? Será dela? - sussurrei no ouvido do homem
Talvez mas... - a mulher que nos estava ouvindo interrompeu
Como assim? O que você ta dizendo irmão? Eles estão te caçando.
O homem olhou para mim e se afastou para perto da mulher enquanto eu estava tentando entender o que estava acontecendo
Porque eu? Eu não fiz nada para ele , eu nem sei quem sou , eu acordei na floresta e não me lembro de mais nada - disse eu com uma voz confusa
Eu também não me lembro de nada... - disse o homem muito discretamente - acordei com a dor de uma queda e logo em seguida vi você
Então vocês não se lembram quem são? - perguntou a mulher
Eu e o homem abanamos a cabeça fazendo "não" , quando eu do nada percebo um cheiro de queimado vindo das costas da mulher e uma pena caindo.
Vejo que então não sentiram falta das vossas asas não é? - disse ela
Ao ouvir isso eu tiro a camisa e vejo as minhas costas queimadas assim como as minhas asas e me lembro quem sou.
Eu sou Lúcifer a Estrela Da Manhã , sou líder de um exercito de anjos , sou aquele que lutou com seu irmão e perdeu *respira fundo* sou aquele que falhou em proteger os seres humanos do castigo de meu pai. Sou aquele que foi culpado para darem gloria a Deus, aquele que tentou impedir meu pai de criar os pecados dos seres humanos. Eu sou aquele que os Homens irão chamar de "Satanás" , "Pai da Mentira" ou "O criador do pecado"
Quando do nada muito perto da gente eu ouvi uma voz:
É AGORA QUE EU VOU ACABAR COM VOCÊ E ME TORNAR O MAIS FORTE DOS GUERREIROS CELESTIAIS IRMÃOZINHO - disse Miguel corrompido pelo pecado da ganância ao ajudar meu pai na sua criação.
Parece que desta vez irei cair mais fundo do que da ultima vez - disse eu com um tom de tristeza.
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2019.02.21 03:08 lucius1309 72 HORAS EM CLARO

Coloque esse som pra tocar. E boa leitura.
https://www.youtube.com/watch?v=\_6hYe6FbA60
Um desses bêbados completamente fodidos, no meio da rua, gritando e xingando todo mundo, todo fedido e com vômito pela roupa, cheiro de cachaça da mais barata exalando pelos poros do corpo todo.
Olha pros lados e começa a discutir com a própria sombra. Chego de carro, estaciono na porta da minha casa e ele, sendo meu vizinho me aborda.
"CARLOS, AINDA BEM QUE VOCÊ CHEGOU, EU PRECISO DE TRÊS E CINQUENTA PRA COMPRAR MAIS UMA GARRAFA, AINDA BEM QUE CÊ CHEGOU, NINGUÉM ENTENDE DESSAS COISAS, MAS EU SEI QUE CÊ VAI ME AJUDAR!!"
A mãe do rapaz tenta colocar ele pra dentro de casa, sem sucesso. São mais de vinte anos aguentando o alcoolismo fodido dele, inclusive já bebemos juntos muitas vezes na época que eu tava igual a ele, fazendo a mesma merda que ele tá fazendo agora. Só que hoje eu tenho outra pegada. São 22h, fiquei o dia todo com Mariane, transando e conversando sobre discos e planos pra um possível casamento daqui há uns anos. Ela tem 21 anos e tem um pique diferenciado, eu com 28 nem sempre acompanho ela, mas ela acaba comigo fisicamente, todas as vezes que nos vemos e rola sexo, eu sinto que não tenho mais o mesmo pique que tinha há 10 anos atrás. O que tá acontecendo é que, apesar da pouca idade, eu peguei muito pesado com a minha vida, por muitos anos, e essas noites que ficava sem dormir, acabaram comigo. Às vezes eram três, quatro dias, bebendo vodka e cervejas e cheirando cocaína sem parar, e isso possivelmente acabou com o meu organismo, então, eu não tenho mais o mesmo pique.
Apesar do cansaço, vejo que meu vizinho está muito mal, e ajudo ele, pego ele pelo braço e levo até o chuveiro, dou um banho e coloco pra dormir, como um bebezinho. Tenho inclusive o cuidado de virar a cabeça dele de lado, pra não engasgar com o próprio vômito. A mãe dele não tem palavras pra me agradecer, eu digo que não há de que e tudo segue normalmente. Aquele cara que era fodido de bêbado, hoje tem como missão ajudar outras pessoas que ainda estão fodidas de bêbadas e não vejo isso como algo a me vangloriar, mas sim como algo comum. Quero dizer, o pássaro voa, a cobra rasteja e eu ajudo alcoólatras. Pra mim isso é tão normal quanto aumentarem a passagem do ônibus todo início de ano, ou o Datena encher o cu de dinheiro apresentando desgraças na TV há décadas.
Mas como eu estava dizendo, sobre Mariane.
É uma garota legal que estou conhecendo tem pouco mais de um mês, o sexo é sensacional e ela tem um gosto musical diferenciado, estamos nos conhecendo e fazendo milhares de planos, eu tento acompanhar o ritmo dela e algumas vezes eu consigo, algumas não. A idade está batendo na minha porta. Hoje eu não sei se conseguiria beber como bebia antes. Inclusive, fiz exames de rotina essa semana, pego o resultado semana que vem. Acredito que esteja tudo bem.
Falando em noites sem dormir, eu ainda lembro do dia em que coloquei esse vizinho bêbado dentro da minha casa. Eu tinha acabado de terminar com Andréia, que foi uma foda fixa por seis longos meses, e infelizmente eu acabei me apaixonando. Como eu tinha terminado com ela, resolvi chutar o balde e fazer uma coisinha que a gente chama de "bender", que consiste em simplesmente encher a cara e fazer muita merda sem parar. Eu estava de folga no fim de semana, decidi fazer um bender de sexta a noite até segunda de manhã. Na época eu ganhava um dinheiro bom, portanto poderia ficar 3 dias bebendo sem parar e sem me preocupar com porra nenhuma. Sexta feira fiquei trancado dentro de casa tomando vodka com coca e cheirando sem parar. Quando eu usava droga, minha trilha sonora preferida era uma banda chamada Tool, eu adoro uma faixa deles que chama Third Eye, que fala justamente sobre expansão da mente e de como a gente tem que se questionar para encontrar a verdade ou qualquer tipo de "iluminação", digamos assim. Sobre como o caos é necessário pra se alcançar a ordem. Sobre formar mentes para a realidade justamente fugindo dela. Chovia muito e eu subi na biqueira umas duas ou três vezes pra buscar mais droga, meu quarto estava cheirando a cal e álcool, eu virei a noite sem dormir e não me sentia minimamente cansado no sábado, que foi o dia em que resolvi sair pra beber num bar imundo que eu batia ponto. Antes de ir pro bar, passei na biqueira e peguei 5 gramas de cocaína.
O bar estava animado. Velhas sem os dentes, velhos com a camisa surrada e desabotoada, um karaokê que só tocava brega, drinks baratos, cerveja de litrão a cinco e seis pratas, banheiro imundo com vaso sem descarga e muito, mas muito fracasso num mesmo lugar. Estar ali era como estar em casa. Ao menos o banheiro tinha tranca, ou seja, eu podia me fechar pra usar minha droga em paz, e depois voltar pra beber no bar. Gosto de ambientes assim.
"Novo por aqui, garoto?" um velho me pergunta.
"Claro que não, meu amigo. Estou quase toda semana aqui. O senhor que é novo, não eu." eu disse, golando minha cerveja.
Ele me olhou estranho, aí olhou pra cima, depois me olhou de novo. Aliviado, retruca.
"Porra, mas é claro, sempre te vejo aqui, é que não tava te reconhecendo. Geralmente esse bar é mais escuro do que hoje, não?"
"Com certeza. Gosto dele mais escuro, mas não sou o dono, não posso decidir, né?" respondi demonstrando total desprezo ao lugar.
Começamos a papear sobre todos os assuntos possíveis, o velho tinha alguma bagagem, eram mais de 30 anos dedicados exclusivamente pra garrafa, me deu uns conselhos, principalmente pra parar de cheirar, cocaína ia me destruir um dia, já a bebida só ia me deixar mais esperto e alerta (eu pensava justamente o contrário, mas estava travado demais pra tentar discutir com um bêbado como ele). No fim das contas, estávamos fazendo planos pra abrir um boteco só nosso, com pouca iluminação e velhas semi nuas dançando em pole dances e chupando os paus dos clientes sem usar dentaduras. Seria um novo conceito de entretenimento, e quanto mais cocaína eu mandava pro meu septo, mais ideias eu tinha. Os drinks seriam temáticos e teriam nomes de músicas e artistas bregas, do norte e nordeste do país, os preços seriam em conta e teriam quartos pra quem quisesse traçar as senhorinhas semi nuas. Naquele instante a ideia pareceu genial, trocamos telefones e saímos do bar, ele tropeçou na calçada, caiu na sarjeta e por ali ficou, já eu fui a pé pra casa, mas antes passei na biqueira e na adega 24h, comprei mais drogas e mais bebida, nessa altura já tinha gasto com a pequena farrinha pelo menos uns 500 reais, mas como eu disse, eu não tava me preocupando muito, usei Andréia de argumento e portanto, tava tudo no seu devido lugar.
Domingo de manhã eu estava completando 48h de pé, acordado, sem dormir, de maneira ininterrupta, meu corpo estava quase cedendo, não comia nada desde sexta, mas seguia firme e forte, com rugas no rosto, olheiras fundas e ouvindo Tool, Alice in Chains, Doors, Metallica e Slayer. Saí de casa pra ir buscar mais droga quando encontrei o meu vizinho. Ele estava desesperado.
"Carlos, é o seguinte. Preciso de cinco conto pra comprar uma pedra senão eu vou surtar. É sério, eu PRECISO, é URGENTE."
Eu vendo aquele desespero todo tive que intervir, e por isso, chamei ele pra ir na biqueira. Tava um sol do caralho, andamos que nem camelos, as pessoas nas ruas todas felizes curtindo o final de semana, lavando carros e jogando futebol com os filhos, senhoras nas calçadas com as filhas falando de novelas, e nós dois, completamente travados e virados, desesperados por um momento de prazer, que mesmo curto, ainda assim era um momento de prazer. Comprei 8 pedras pra ele e mais umas gramas de pó pra mim. Passamos no mercado, compramos mais bebida e fomos pra minha casa. Nos trancamos no meu quarto e começamos os trabalhos. A música estava extremamente alta, mas os vizinhos nem chamavam a polícia, talvez por medo, talvez porque viam em nós dois fracassados e não queriam que a gente se fodesse mais, eu não sei dizer ao certo. O quarto tinha um cheiro de querosene queimado do caralho, eu nunca gostei de crack por causa disso, o cheiro era forte demais, a brisa pesada demais e principalmente, curta demais. Meu negócio era a garrafa. E um pouco de pó pra poder beber mais. Passamos a tarde toda juntos, a noite ele foi embora, e eu continuei. Virei a madrugada toda bebendo e cheirando, e quando deu 8h da manhã, meu corpo foi vencido pelo cansaço e finalmente peguei no sono, no sofá da sala mesmo. Dormi o dia todo e acabei sendo mandado embora do meu trabalho no dia seguinte. Dali em diante, minha vida foi ladeira abaixo.
Hoje eu ajudo esse cara como posso, tento aconselhar, tento mostrar que se eu consegui sair, ele consegue também. Tento ter uma vida mais saudável, como legumes e pratico caminhadas pela manhã, não bebo e nem uso droga nenhuma mais, tenho pavor de hospital e graças a Deus só tenho precisado ir em um quando vou fazer exames de rotina. Minhas contas estão pagas e meu sono tá em dia. Mariane suga tudo de mim quando estamos juntos e meus textos estão cada vez mais escassos. O escritor durão está morrendo e se tornando um cara com um puta coração mole que não se deixa corromper por pouca bosta. Um cara que tem empatia, talvez. Um cara que tenta ajudar, talvez. Apesar dos pesares, estou aqui, firme.
Tudo ainda é real demais pra ser esquecido. A riqueza de detalhes da minha mente ainda é real demais. Então, por enquanto, tô seguindo tranquilo na minha caminhada. Entre dias bons e dias ruins, tudo está no seu devido lugar. E quem sabe, eu volte a bater contos, assim como ensaiei um nesse texto aqui. Ao som de Coltrane e Miles Davis, enchendo a cara com água gelada e tentando resgatar em mim algum talento que algum dia possa ter existido. Simples como montar planos em botecos. Simples como olhar pro céu e sentir esperança e com sorte alguma paz. Simples como ajudar as outras pessoas. E, o principal: me ajudar.
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2018.12.17 04:34 arthur11313 Sally Face

capitulo 1.
no inicio o sally aparece no hospital com a cara enfaixada, depois a cena muda para ele no novo ap conhecendo os visinhos, ele conhece o suposto assassino (charli),depois disso ele conhece larry que vira seu amigo, larry fala sobre o charli para sally e eles começam a procurar pistas, o capitulo encerra com ele vendo o charli preso e a mulher morta na ambulância.
capilo 2.
nesse capitulo ele começa tendo meio q uma visão do dia em que sua mãe morre, depois larry e sally vão para a casa na arvore e começam a falar sobre o pai de larry, ele conhece a senhora rosenberg( a mulher chata pra caralho q n para de falar sobre como a vida é sofrida), ele vai falar depois com todd, nesse momento ele tambem conhece a ash, ele pede para o todd fazer um dispositivo para ver os fantasmas, em especifico ele vê a megan e a sra sanderson( a mulher que foi assassinada), um bicho q parece um monte de rabiscos e por ultimo ele vê o pai da megam que parece ser um demonio e por ultimo o psicologo do sally morri pq ele vê o fantasma do larry.
capitulo 3
sally começa correndo de um mostro que tem um roste de uma câmera, depois aparece uma jornalista entrevistando sally ela pergunta do por que ele n gostar de presunto, ai a historia é por que o presunto do colegio dela era feito de carne humana então ele ficou traumatizado por causa disso, e por fim mostra o todd em uma camisa de força por que ele tava maluco( por causa de alguma coisa que possuiu ele).
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2018.10.24 04:12 another_random_whale Por que o Bolsonaro é pior? Meu posicionamento.

Digo logo que não vou defender o PT, Haddad ou Lula e nem pretendo atacar o Bolsonaro, acho no mínimo desmoralizante ter um partido no poder onde a figura do líder está na cadeia, não é o objetivo do post discutir a prisão.
Esse texto tem um total de 45 fontes (em maioria sobre fatos) que eu desejava aprofundar mais, tanto em leitura quanto em aproveitamento de conteúdo. Vou falar sobre coisa relativamente nova para vocês do brasil, já vi postarem algumas notícias e reflexões aqui no sub que usarei como base e já vi que as discussões foram ricas. Não vou falar para não votar no Bolsonaro pelos vários fóbicos/istas que chamam ele, já tem discussão demais sobre isso e não almejo mudar a opinião de ninguém sobre o assunto.
Também não vou me deter nos assuntos de minorias.
Eu me peguei refletindo em como várias pessoas “de repente” (jajá chego nesse ponto) começaram a acreditar, esbravejar, espalhar fatos em sua maioria objetivos que... simplesmente não aconteceram, não existem, exemplos de alguns: que nazismo foi de esquerda; que vivemos hoje numa ditadura comunista/esquerdista/esquerdopata; que o Brasil é ou vai virar comunista, que temos que reconquistar o nordeste dos comunistas; que precisamos agir em defesa da família brasileira que está sob ataque. Não coloco fontes porque sinceramente acho que não precisa, acho que todo mundo já viu ou ouviu. Curiosidade: o candidato do Partido da Causa Operária para presidência em 2014 obteve 12 mil votos.
Fui atrás de onde vinham essas informações e porquê acredita-se nelas, não parei na explicação de que “são doidos, lunáticos, virou religião, não aceitam fatos e não adianta argumentar”, eu já testemunhei esse fenômeno acontecer e acredito que parte do sub também, como a realidade objetiva (ou seja, fatos) pode surgir de uma realidade partidária (ou seja, de um lado, de uma narrativa). Ou melhor ainda, como “a verdade” partidária pode se transformar na realidade objetiva para muitos. Exemplo palpável disso (embora mais complexo do que estou insinuando): livros de História. George Orwell em um de seus livros fictícios diz “a história é escrita pelos vencedores”. Falo dessa década, isso acontece e dá medo. Trump e seus seguidores são um exemplo disso. Notícia de 2016 “Trump escolhe negacionista da mudança climática para dirigir agência do meio ambiente dos EUA”. Em 10/10/2018 “Trump sugere que o clima está “fabuloso” depois de um sinistro relatório da ONU sobre um desastre iminente”. Um post no /The_Donald: “Está confirmado. A farsa da “mudança climática” é uma tentativa de empurrar comunismo em todo mundo”, pesquisa pela palavra “climate” no fórum renderá bons resultados. De brinde, aqui você pode encontrar centenas de contradições do presidente no próprio Twitter dele, onde pesquisando por “warming” ele chega a creditar o aquecimento global a teorias conspiratórias.
Na noite de 10 de outubro uma notícia de que uma suástica foi talhada numa brasileira foi um dos posts mais cimavotados do worldnews, se logo após veiculação da notícia existir corrente afirmando que é fake news, acho eu que pessoas vão acreditar veementemente, principalmente aquelas mais afetivamente investidas no lado que perde força com a notícia, pois tendemos a aceitar fatos que vão de acordo com nossas crenças... se você é anti-Bolsonaro, você ficou mais cético com a facada? Sobre o tamanho da rede de fake news: “A rede (whatsapp) é a mais difundida entre eleitores brasileiros, utilizada por 66% deles, ou 97 milhões de pessoas” “[...] eleitores de Bolsonaro foram os que mais declararam usar alguma rede social – 81% -, ante 59% dos eleitores de Haddad. Também foram os que mais disseram ler notícias sobre política no WhatsApp. São 57% dos eleitores de Bolsonaro, enquanto só 38% dos eleitores de Haddad disseram se informar no aplicativo sobre política.”
O que me assusta é o tamanho da rede pró-Bolsonaro, a quantidade de pessoas que repetem a narrativa, acreditam na mesma, e agem como se a narrativa fosse “a verdade”.
81% de eleitores dele usam rede social.
57% de eleitores dele admitiram se informar por política pelo WhatsApp. Segundo o TSE, ele teve 49.276.990 de votos no 1º turno. Admitindo que a reportagem da BBC é confiável, 28.087.884 eleitores dele se informam de política por Whatsapp. São 2 milhões de pessoas a menos que a população da Venezuela em 2015. Ironicamente, praticamente temos uma Venezuela inteira aqui dentro que consome conteúdo político pró-Bolsonaro diretamente por WhatsApp.
Eu me pergunto o quanto desse conteúdo é selecionado e manipulado pela sua equipe “oficial” de marketing e o quanto não é: "Time digital de Bolsonaro distribui conteúdo para 1.500 grupos de WhatsApp“.
Voltando para as narrativas, também existem várias que, num dia que eu estivesse puto da vida, chamaria de teorias conspiratórias e mentiras, mas eu não chamo simplesmente pelo fato de que muita gente acredita e repete. Exemplos são: Ideologia de gênero [1, 2, 3]; Kit gay [1, 2]; Ameaça do marxismo cultural [1, 2] (daqui considero vir a ideia da “defesa da família” que não sei muito bem o que significa);
Alguns dos links nesse parágrafo são de discussões, notícias e vídeos dos “2 lados”. O próprio Bolsonaro esbravejou o absurdo que era o kit gay antes das eleições e em 2012, 6 anos atrás, acusou Haddad de disseminar isso, dói em mim assistir o vídeo, mas afirmei que não falaria sobre minorias e vou manter meu posicionamento.
Agora algumas narrativas que considero, na melhor das hipóteses, questionáveis. Não sei de onde nem quando surgiram, não sei porque passei a ouvir todas juntas e de uma vez só, não achei análises positivas sobre elas sem serem enviesadas, alguns com os títulos dos vídeos em caixa alta, apelando para emotividade e afirmando espalhar “a verdade”, ao mesmo tempo não citando fatos objetivos reais. Algumas narrativas até apresentam pensamentos racionais e lógicos sólidos, mas esbarram nas (faltas de) evidências empíricas. São algumas delas: Brasil vai virar uma Venezuela - na verdade, achei um link de 2002, tem até uma palestra bem interessante do General Mourão onde ele diz que isso não vai acontecer; Se o PT ganhar a gente vai virar uma ditadura comunista; O maior problema do Brasil/mundo é a esquerda; Esta é a última oportunidade de tirarmos a esquerda do poder sem derramamento de sangue; Tudo de ruim do Brasil vem da esquerda; Na ditadura era melhor, cidadão de bem vivia bem, só comunista/terrorista/bandido foi morto;
Armar o cidadão de bem é a solução para a questão da violência
Acho que essa parte já demonstra quantas coisas que já consideramos verdades e narrativas plausíveis que talvez não questionássemos, na realidade, não são verdades e narrativas razoáveis. Peço para lembrarem o quanto da campanha oficial do candidato e das correntes de WhatsApp e Facebook se basearem em narrativas como essas. E quantas pessoas ainda acreditam nelas.
Agora o porquê tenho muito medo dos acontecimentos:
Eu percebo acontecendo muita coisa que vi acontecer em 3 países que acompanho há alguns anos: EUA, Turquia e Filipinas – Este último não vou comentar pra não deixar o texto tão grande, mas deixarei fontes. Na Turquia 2 anos atrás, em 15/07/2016 ocorreu um golpe de estado sem sucesso, o grupo militar golpista foi para a rua “tomar o poder” armado até de tanques, aqui um vídeo da noite, é surreal. O então presidente afirmou que a democracia estava em perigo e chamou a população à rua. No fim dos acontecimentos, 179 civis morreram. Hoje, parte (não há consenso [23]) da mídia internacional afirma que foi um autogolpe para consolidação do poder, pois, entre outras razões, após o golpe falhar, até o dia 20 de julho do mesmo ano (menos de 7 dias depois) 45.000 pessoas já tinham sido detidas, presas ou exoneradas do cargo público, incluindo 2700 juízes, 15.000 professores e todos os reitores de universidades do país [23]. Na época, lembro que nas aulas de Geografia meu professor falava da aproximação da Turquia com a União Europeia, já hoje:
1- Conselho de Assuntos Gerais da União Europeia: “O Conselho registra que a Turquia se distancia da União Europeia”.
2- Religião e estado estão começando a se confundir.
No pós-golpe, houve clamor popular pela volta da pena de morte que foi abolida em 2004, sendo 1984 o ano que ocorreu a última execução oficial, em 2017 o presidente disse que “imediatamente aprovaria a pena capital no próximo referendo constitucional” - mas isso ainda não aconteceu. Hoje é argumentável que a Turquia se encontra em crise financeira. A Turquia também se transformou no país com mais jornalistas presos do mundo e hoje seu futuro é incerto.
Não falo que o Brasil vai virar Turquia, são países completamente diferentes, também não argumento que vai ter golpe aqui. Meu ponto é que um líder carismático chegou ao poder, tinha uma parcela da população que tinha afeto por ele, chamou a população para a rua enquanto um golpe acontecia, pessoas chegaram a ficar na frente de tanques de guerra barrando a passagem (spoiler: o tanque não parou), além de civis também ficarem na linha de fogo de militares. O vídeo é surreal. No momento eu lembro de ficar bastante interessado em porquê esses civis terem se comportado de tal maneira.
Sobre EUA: o episódio de Charlottesville (vídeo), uma marcha da extrema-direita, onde os participantes acreditavam na “supremacia branca”, carregavam bandeiras e usavam uniformes com suásticas e chegam a confirmar abertamente suas “opiniões”, afirmando e defendendo por meio da força bruta ideias como: negros são seres inferiores e/ou devem ser extintos. Defensores desse lado justificaram o ato citando “liberdade de expressão”. Houve presença de um grupo anti-protesto e houve confronto entre os lados. Existem vários vídeos e notícias sobre o caso. Uma pessoa morreu atropelada durante as manifestações quando um motorista decidiu jogar o carro contra uma multidão. Parte do comentário de Trump sobre o ocorrido: “você tem um grupo de pessoas más de um lado e você tem um grupo do outro lado de pessoas que também foram muito violentas. Ninguém quer falar isso, mas eu vou dizer isso agora mesmo”.
O pronunciamento sobre tal ato soa razoável?
Pronunciamento de Bolsonaro na madrugada do dia 10/10 sobre a morte do capoeirista: “Pô, cara! Foi lá pergunta essa invertida... quem tomou a facada fui eu, pô! O cara lá que tem uma camisa minha, comete lá um excesso. O que eu tenho a ver com isso? Eu lamento. Peço ao pessoal que não pratique isso. Eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam. Agora a violência vem do outro lado, a intolerância veio do outro lado. Eu sou a prova, graças a Deus, viva disso aí”.
Tweet do candidato à presidência na tarde do dia 10/10
Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar. Há também um movimento orquestrado forjando agressões para prejudicar nossa campanha nos ligando Nazismo, que, assim como o Comunismo, repudiamos completamente. Trata-se de mais uma das tantas mentiras que espalham ao meu respeito. Admiramos e respeitamos Israel e seu povo!”.
Sério, fico mais aliviado em ele pedir pro pessoal não praticar isso, fico mais aliviado também quando ele afirma dispensar votos e aproximação com quem pratica violência. Mas ao mesmo tempo também fico extremamente preocupado com o fato de ser chamado de “excesso” o assassinato do capoeirista, é objetivamente verdade que 12 facadas são um excesso, afinal, não deixa de ser, mas caracterizamos coisas mais banais como excesso, não um homicídio. Eis um pronunciamento de Bernie Sanders sobre um episódio parecido: “Acabei de ser informado de que o suposto atirador no treino republicano de beisebol é alguém que aparentemente se voluntariou em minha campanha presidencial. Estou enojado com esse ato desprezível. Deixe-me ser tão claro quanto posso ser. Violência de qualquer tipo é inaceitável em nossa sociedade e eu condeno essa ação nos termos mais fortes possíveis. A verdadeira mudança só pode acontecer por meio de ações não violentas, e qualquer outra coisa é contraria a nossos valores americanos mais arraigados...”.
Bem mais forte, né? É mais provável que um homicídio seja cometido de novo se ele for caracterizado como excesso ou se ele for caracterizado como o Bernie falou? É mais provável que o próprio eleitorado de Bolsonaro condene tal ato se o ato for chamado de “excesso” ou como o Bernie caracterizou? Além disso, no episódio que Bernie se refere, a única morte que ocorreu foi a do próprio atirador.
Ao mesmo tempo afirmar que a violência e intolerância vem do outro lado e posteriormente reiterar a afirmação, falar de caluniadores que “tentam nos prejudicar”, falar que há tantas mentiras sendo espalhadas ao seu respeito é uma transferência de responsabilidade e não reconhecimento de atitudes antiéticas e mentirosas que é bastante perigosa. Dá para argumentar que esse discurso instiga a disseminação de notícias falsas por parte de seu eleitorado que “faz campanha de graça”, pois tal ação do eleitorado passa a se tornar justificável, tal ação não é mais um “ataque”, é uma “defesa”. Já ouvi justificativas como “se o outro lado faz, por que eu não faria?”.
Sabe as narrativas que viram verdades? Pois Ustra agora está virando herói nacional, símbolo de ordem. “Eduardo Bolsonaro segue o pai na defesa do torturador Brilhante Ustra”. “Bolsonaro volta a defender Ustra e diz que número de mortos na Ditadura é igual a no Carnaval”. Quer ver como as coisas mudaram? As vaias que o candidato tomou no dia do Impeachment quando se pronunciou, além das discussões que vejo hoje sobre o problema de usar Ustra como simbolismo... “mas e o PTChe Guevara?”
E empurrar a narrativa de que as urnas foram fraudadas?
Em 17/09: “Do leito do hospital candidato do PSL denunciou possibilidade de fraude na votação eletrônica...”.
Em 28/09: “Bolsonaro diz: 'Não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição'”.
Em 07/10, no dia da eleição o próprio filho divulga em rede social um vídeo de suposta urna fraudada. Logo depois: “Vídeo de fraude em urna divulgado por Flávio Bolsonaro é falso, diz TRE-MG", além da enxurrada de relatos, fotos e vídeos de problemas nas urnas supostamente fraudadas que vimos em todos os lugares durante o dia.
Logo após a divulgação do resultado: “Bolsonaro diz que problemas nas urnas impediram vitória no 1º turno”.
Até hoje vejo pessoas convictas de que as urnas foram fraudadas... E indignadas que tal fato aconteceu.
Pois bem, sabem os livros de história e narrativas? “General ligado a Bolsonaro fala em banir livros sem "a verdade" sobre 1964“. Torna-se conveniente a narrativa/crença de que há doutrinação nas escolas, de que Universidade Federal é “fábrica de comunista”.
E aqui eu me pergunto:
São quase 30.000.000 eleitores declarados que se informam pelo menos por WhatsApp, sem contar outras redes sociais. Quantos eleitores foram cativados porque em um dia ouviram falar do kit gay criado por Haddad para crianças de 6 anos, no outro dia tiveram contato com a ideia de que haveria ditadura comunista, no outro dia sentiram nojo da Manuela por ter escrito na camisa “Jesus é travesti”, no outro dia receberam uma foto de uma senhora cheia de hematomas que supostamente foi vítima de ataque de petistas? Afinal, qual a chance de isso tudo ser mentira? Principalmente quando meus pares compartilham e reforçam minhas crenças?
Quanto de poder real o Bolsonaro já tem? O quão afetivamente ligadas ao candidato essas pessoas estão? Quantas delas já estão dispostas a bloquear a passagem de tanques de guerra com o próprio corpo? Quantas foram manipuladas para chegar nesse estágio? Quantas agem no mundo se guiando por essas mentiras e convictas que estão espalhando “a verdade”?
Quantas narrativas mentirosas foram empurradas? Quantas discussões foram superficiais porque “o Brasil vai virar uma Venezuela?” Quantos votos foram conseguidos através da manipulação de medos e ódios já existentes? Quanta polarização foi propositalmente criada porque as urnas “foram fraudadas” ou porque “querem ensinar nossos filhos a se tornarem gays”? Quantas famílias e amigos brigaram feio por causa disso? Quanto da campanha para o cargo mais importante do país foi baseada na emoção e na mentira, e não na razão e na verdade? E o mais importante, o quanto da verdade foi deturpada?
Meu argumento final é que considero muito mais perigoso eleger Bolsonaro, pois sua campanha conscientemente e deliberadamente faz a população acreditar em mentiras, são 30 milhões de eleitores só por WhatsApp, mas qual o número total se juntarmos as outras redes sociais? Quantas dessas pessoas estão propensas a acreditar nas narrativas mais loucas possíveis para justificar seus atos? O candidato fez uma campanha através de mentiras e teorias conspiratórias, difamou os adversários com mentiras, mentiras essas que se tornaram verdades para grande parte de seu eleitorado, verdades essas que irão pavimentar o caminho que seguiremos no futuro. Problemas inexistentes que serão combatidos. Problemas existentes que serão ignorados. Um líder que nos venda, nos roda, nos deixa tontos, tem o poder de nos guiar para onde bem entender. E pelo histórico do candidato, meu medo é por onde e para onde ele pretende nos guiar.
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2018.06.20 13:14 Pedinhuh Desinstalei o Tinder e não estou arrependido

Bom dia senhoras e senhores, antes de mais nada eu quero deixar claro aqui que se vocês está tendo "sucesso" com app, então isso é ótimo para vocês pois mostra que vocês tem uma aparência que é aceita e considerada "bonita" para a sociedade...Esse texto não é direcionado para vocês mas sintam se a vontade para ler e debate lo.
Pra quem ainda não sabe, o tinder classifica seus usuários em base de como ele é aceito e rejeitado por outros usuários e também baseado em como suas fotos são consideradas "atrativas" pelos outros(fonte: http://uk.businessinsider.com/tinder-secret-success-rate-photos-right-swipe-percentage-2017-3 ), isso significa que se você não é considerado "atrativo" ou "bonito" pelos usuários, não só você tem poucas chances de sucesso no app, mas o próprio aplicativo faz com que você seja rejeitado baseado na sua classificação, ninguém sabe ao certo o porque desta classificação ter sido implementada(no começo da vida desse App não tinha isso) e eu desconfio que seja para impulsionar mais contratação de assinaturas, meio conspiracionista essa especulação mas é o que me faz sentido.
Se você for gordo, ou tem o rosto assimétrico(o que é considerado feio), ou qualquer outros fatores que não o tornem atrativos, esse app vai fazer você ser relacionado com outros usuários do seu "nível" de começo, daí por diante se você continuar sendo rejeitado a situação só tende a piorar.
Após muita reflexão sobre o app, meu sucesso com ele, minha aparência, o fato de um sempre abrir uma conversa com alguém, independente da aparência e continuar sendo rejeitado, e depois de ver um amigo meu receber 3 matches de uma única vez(para referência, esse meu amigo tem uma foto de perfil sem camisa para mostrar o peitoral malhado dele e de gravata, parecendo um stripper...Mas estava dando certo), eu cheguei a conclusão que o meu fracasso nesse app vem da minha própria aparência, de como isso faz eu ser rejeitado não só pelos usuários como também pelo próprio app.
Não preciso nem dizer como isso afetou negativamente minha auto estima, que já é baixa, mas acho que a culpa disso é só minha.
Hoje eu desinstalei esse App definitivamente: removi o link dele do meu face, apaguei a conta e desinstalei...Me senti livre fazendo isso, não tenho arrependimentos, essa experiência com o app só serviu para me mostrar como a sociedade(tanto homens como mulheres) ainda dá mais importância para as aparências.
Se você é o tipo de pessoa do qual meu desabafo foi direcionado e ainda continua com esse app, eu lhe desejo toda sorte e sucesso possível com ele, do fundo do meu coração porque eu já desisti disso.
TL; DR: Desinstalei o tinder após perceber que apenas as pessoas bonitas tem real sucesso com o app e que minha aparência é a razão do meu fracasso, não estou arrependido de ter tido essa experiência e quis deixar aqui meu desabafo.
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2018.02.21 09:18 QuintoImperio Um dia ia eu a andar na rua quando vejo um carro a vir na minha direcção. Um bruto Mercedes...

Um dia ia eu a andar na rua quando vejo um carro a vir na minha direcção. Um bruto Mercedes, preto, todo brilhante, vidros fumados. De repente o carro para e no lugar do passageiro abre-se um vidro. Qual o meu espanto quando vi que quem lá estava dentro era o Quim Barreiros. "Então rapaz, ora viva!" - saudou-me ele com entusiasmo. "Oh senhor Quim, por esta é que eu não estava à espera. Sou um grande fã seu e da sua música" - disse eu, sendo que de imediato fui prontamente interrompido por ele. "Olha lá, queres ir comigo a Londres? Vou dar um concerto privado à Rainha de Inglaterra a seguir ao jantar e fazias-me companhia, escuso eu de ter de ligar a televisão para não me sentir sozinho". Eu nem queria acreditar. "Claro que sim, senhor Quim. Deixe-me só então ir a casa da minha avó para a avisar que não conte comigo para o jantar para ela não fazer empadão a mais e depois é chato eu não aparecer e sobrar" - respondi eu. E em seguida, nunca mais me vou esquecer na vida, com estas exactas palavras ele perguntou: "É verdade, frio não tem graça. Olha lá, a tua avó é uma senhora assim e assim que mora ali?". Fiquei completamente perplexo. P-E-R-P-L-E-X-O. "É essa mesmo, como adivinhou senhor Quim?" - perguntei eu muito espantado. "Ah, nada. Tenho um primo que vive aqui na Ramada. Não te preocupes com isso. Ele depois dá-lhe o recado" - tranquilizou-me ele.
Entrei de imediato no carro e fomos para Figo Maduro onde nos esperava um jacto privado daqueles em que eu só tinha visto até então nos filmes americanos. Era um sonho que eu estava a viver. Foi uma viagem animada. Apesar de ser uma estrela, o Quim Barreiros tem os pés no chão e a fama nunca lhe subiu à cabeça. Contou-me muitas histórias do mundo da música que ele viveu, umas marotas, outras não, as quais, por sigilo e respeito ao Quim, eu não as vou revelar aqui como é óbvio. Ah, e bebemos um licor oriundo da terra do Quim enquanto voávamos e durante o qual ele dava também uns toques para mim no acordeão da música da Édith Piaf, La vie en rose.
Chegados a Londres e ao aeroporto de Heathrow, estava o motorista da rainha à nossa espera. Um senhor todo bem vestido. Prontamente quis levar o acordeão do Quim que de imediato disse: "Não, não. No meu instrumento não tocas tu. Era o que faltava". Pediu mil desculpas e apressou-se a abrir a porta ao Quim Barreiros mas ele de imediato fez sinal com a mão e mandou-me entrar. "Primeiro, a canalha" - disse ele ao motorista. Mais uma vez o senhor Quim a mostrar uma elegância, respeito e cavalheirismo para comigo. Uma coisa curiosa, nunca tinha andado num carro onde o motorista tinha o volante à direita como nos filmes do James Bond. Até aqui tive a sorte de conhecer o Quim Barreiros.
Daí até ao Palácio de Buckingham foi um saltinho. O Quim estava entusiasmado e eu também. Nem parecia que ia cantar e tocar para a Rainha de Inglaterra, tal era a calma que transparecia. "São muitos anos a virar frangos" - segredou-me ele.
Já no palácio e depois de estacionar o carro, vem o mordomo da rainha abrir a porta do carro ao Quim. Mais uma vez ele não deixou abrir a porta, fazendo cara feia ao mordomo e apontando para o meu lado. "Estes ingleses não percebem patavina de etiqueta, chiça" - disse o Quim Barreiros um pouco irritado. Em seguida, também este lhe tentou levar o acordeão. "Olha-me outro a querer mexer no meu instrumento. Nem penses". O mordomo pediu imensa desculpa. Já dentro do palácio, o mordomo levou-nos para uma salinha. Tal é o meu espanto quando abre a porta e estavam lá os Rolling Stones. Não queria acreditar. Belisquei-me para saber que não estava a sonhar. Iam abrir o espectáculo do Quim Barreiros para a rainha. Lá estava o Mick Jagger, com umas calças de licra roxas e uma camisa de alsas amarela enrolada até a cima que mais parecia um soutien de mulher. O Keith Richards elegantemente vestido com um smoking e um laçarote ao pescoço e o Ron Wood com um estilo casual-chic mas que se via que não era comprado na Zara. Já o Charlie Watts vestia uns calções e uma t-shirt com um desenho de uma palmeira que dizia Benidorm.
Ao entrarmos, o Quim e o Mick cumprimentaram-se friamente e com palavras secas. Soube mais tarde que eram muito amigos e há muito tempo mas tinham existido desavenças entre os dois por causa de uma miúda que se meteu entre eles e a coisa nunca ficou bem resolvida. Ainda o Quim Barreiros estava a cumprimentar os restantes elementos da banda quando irrompe a Rainha de Inglaterra, com uma bata branca, uma roupa de trazer por casa. Afinal de contas e para todos os efeitos, ela estava na casa dela. Fazemos todos uma fila e a rainha cumprimenta-nos um a um, só que quando chega a vez do Quim, nervoso por causa do momento, ele engana-se e diz "é uma honra, Sôtora" quando queria dizer "Sua Majestade". O Mick riu-se com um ar gozão como se estivesse engasgado e a cuspir um ou dois cereais. Mas palavra seja dita, o Quim Barreiros aguentou-se forte apesar do seu lapso e de um saquinho de plástico que trazia com ele na viagem, tirou um frasco de Mokambo que ofereceu à rainha. "És sempre o mesmo doce de pessoa, oh Quim. Tantos anos e nunca te esqueces de mim e daquilo que eu gosto" - disse comovida Sua Alteza, a Rainha de Inglaterra Isabel II. O Mick Jagger aí ficou vermelho de raiva. No entanto a rainha continuou: "Peço mil desculpas mas o concerto para hoje terá de ficar para outra altura. O meu neto vai ter amanhã um teste de Ciências da Natureza e só agora me disse. E eu tenho de lhe ensinar a matéria para ele tirar positiva". "Ora essa, não tem problema, primeiro vêm os deveres da escola" - retorquiu logo o Quim Barreiros e todos os membros dos Rolling Stones concordaram, fazendo o gesto com a cabeça.
"Mas fiquem aqui. Ao menos comam antes para não irem de estômago vazio. Encomendei uns quantos frangos assados ali da churrasqueira para o nosso jantar e se não se comer aquilo, depois amanhã, frio, já não tem graça nenhuma" - disse a rainha. E o que a rainha diz, é uma ordem. Sentamo-nos depois na sala de jantar, serviram-nos o frango com batatas fritas de pacote e o Mick vira-se para o Quim e diz-lhe: "Olha para esta música que eu inventei", sacando da sua harmónica que tinha no bolso das calças e que eu pensei erradamente que era o volume do seu pénis quando o vi à chegada. De imediato bufou uns acordes na sua gaita de beiços enquanto cantarolava o "Chupa Teresa". "Epa, já me fodeu este cabrão. Já está, roubou-me a música" - exclamou para mim o Quim visivelmente irritado mas num tom baixo sem levantar alarido. "O que foi, senhor Quim?" - perguntei eu assustado. "É a minha música mas caramba, eles são os Rolling Stones. Eles fazem tudo o que querem. Se eles lançam isto em disco ninguém vai acreditar que fui eu que fiz esta música há muitos anos" - respondeu ele. "Mas essa música saiu em 1992 no álbum com o mesmo nome. Como alguém iria acreditar neles quando o senhor Quim já o lançou?" - perguntei eu inocentemente de seguida. "Eles conseguem lavar o cérebro às pessoas com as músicas nos álbuns deles. É como se fosse o canto de uma sereia. Fazem isso há muitos anos com músicas de outros artistas. Todo o sucesso deles é uma farsa. Por exemplo, um dos maiores êxitos deles era uma música do Miguel Ângelo dos Delfins que o lançou num disco na década de 80 mas que depois os açambarcaram. E mesmo com isso, os créditos são dados todos aos Rolling Stones e o próprio Miguel Ângelo e os Delfins sofreram essa lavagem cerebral e não sabem que foram eles. Foi o próprio Mick Jagger que me contou isto durante umas férias que passamos juntos em Olhão" - esclareceu o Quim Barreiros. Ainda estava o Quim a contar-me isto quando o Keith Richards, já todo bêbado, começa a balbuciar o refrão da música ao ouvido do Quim "Na-na-nesa, na-na-nesa" caíndo depois da cadeira para o chão. "Ele está bem, não se preocupem" - disse o Mick com um ar despreocupado. O Ron e o Charlie assim não o entenderam e levantaram-se dos seus lugares no lado oposto da mesa para irem ajudar o beberrolas.
Esta foi a gota de água. O Quim Barreiros aguentou o gozo do Mick Jagger durante o beija-mão à rainha, o roubo da música e todas as tentativas de desestabilização ao artista mas não aguentou este à vontade e desrespeito do Mick perante o seu colega de banda que caíra inanimado. Levantou-se de imediato e de repente pregou um valente e estrondoso peido que ecoou por toda a sala de jantar do Palácio de Buckingham. O pior veio depois. Um cheiro nauseabundo e putrefacto que nos deixou atordoados. "Foi da sopa de nabiças e hortaliças da terra que comi ao almoço" - dizia alto e em bom som o Quim enquanto se ria que nem um perdido. Eu que ao início também não achei muita piada ao traque mal cheiroso do Quim, me ri. O Mick, o Ron e o Charlie seguiram as minhas gargalhadas e até o Keith acordou e se riu um pouco, desmaiando em seguida novamente porque tinha muita bebida dentro dele.
Enquanto nos ríamos, alguém de repente abre as portas da sala de jantar à pressa para saber o que tinha acontecido, tal estrondoso tinha sido a flatulência do Quim Barreiros. Meus senhores, espantem-se, era a Jennifer Lawrence. Também estava no palácio. "Primeiros" - grita logo o Quim. O Mick atira o guardanapo ao chão visivelmente chateado. "Não fui rápido. Perdi esta" - admitiu o Mick Jagger resignado mas com desportivismo. O Quim Barreiros levanta-se da mesa à pressa e dá o braço à Jennifer Lawrence. Ela ficou toda derretida por ele. Aquele homem sabe da poda. De como as arrebatar. No entanto, sempre um cavalheiro. Nunca ordinário. "Já cá canta, já cá canta" - diz-me ele entusiasmado, perguntando-lhe de seguida como ia eu para casa, visto que ele ia fazer o amor a noite toda com a bela actriz americana num qualquer hotel da capital inglesa. "Fala com o Mick miúdo, ele é boa pessoa, uma das melhores que conheci até hoje e olha que conheci muitas e ele trata do teu assunto" - responde-me o Senhor Quim já quando ia a sair com a loira. E foi verdade. O Mick tratou-me.
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2017.12.12 03:04 subreddit_stats Subreddit Stats: curitiba top posts from 2012-02-22 to 2017-12-08 18:00 PDT

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    9. Conta de luz da Copel vai ter desconto de mais de 10% em abril (7 points, 0 comments)
    10. É hoje! “A inesquecível viagem de Natal” estreia no Palácio Avenida (7 points, 0 comments)
  5. 71 points, 8 submissions: frahm9
    1. O Greca brindou o ano novo com Cini (13 points, 3 comments)
    2. A RPC parece um grupo do whatsapp (12 points, 0 comments)
    3. (banhopensamento) O Parracho da RPC é a cara do Jeb Bush (11 points, 3 comments)
    4. A rádio Lumen vai acabar mês que vem (10 points, 1 comment)
    5. Indicação de psiquiatra e/ou psicólogo? (9 points, 1 comment)
    6. Curitiba tá longe de receber uma Olimpíadas, mas pelo menos teve Água Verde (7 points, 0 comments)
    7. Semana do Cinema Polonês no Shopping Agua Verde: cinco filmes com entrada gratuita (5 points, 0 comments)
    8. O dia que a Khaleesi foi pedir ajuda do Rafael Greca (4 points, 1 comment)
  6. 55 points, 8 submissions: koselleck
    1. TIL: Alguns ônibus de Curitiba têm mais de 17 anos mesmo com o limite máximo permitido em contrato de 10 anos. (13 points, 0 comments)
    2. Professor de História é ameaçado por dizer que Lula não deve ser assassinado (10 points, 4 comments)
    3. Greca diz que vai fazer "Lava Jato física" em Curitiba e que metrô é para toupeira (Entrevista para o UOL) (7 points, 2 comments)
    4. Delator diz que encontro para discutir caixa dois reuniu Beto Richa, presidente da Alep e diretor da Seed (6 points, 0 comments)
    5. Orquestra Sinfônica do Paraná abre temporada com novo maestro titular (6 points, 2 comments)
    6. O céu é o limite: Os movimentos do camaleônico ministro da Saúde, Ricardo Barros, para fazer de sua família a nova oligarquia do Paraná (5 points, 0 comments)
    7. Terceira edição do Festival de Ópera do Paraná com apresentações gratuitas (5 points, 0 comments)
    8. Visita à Lapa (3 points, 1 comment)
  7. 49 points, 7 submissions: rpcastilho
    1. Curitiba vista do bairro Alto da XV (15 points, 1 comment)
    2. Fábrica dos "Sonhos Alfa" do carro do sonho é atingida por incêndio (9 points, 1 comment)
    3. se você é gordo/gorda, como faz pra comprar roupas aqui em Curitiba? (7 points, 1 comment)
    4. Moinho Holandês em Castro/PR (6 points, 0 comments)
    5. Ladrões armados roubam loja dentro do ParkShopping Barigui (5 points, 0 comments)
    6. Homem morre ao tentar pegar pinhão em árvore (4 points, 1 comment)
    7. Família Imperial vem a Curitiba (3 points, 1 comment)
  8. 42 points, 6 submissions: mrcapgras
    1. Lumen FM anuncia encerramento das atividades após 12 anos (13 points, 2 comments)
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    5. Projeto prevê abono na falta de servidor municipal em caso de morte de animal (5 points, 1 comment)
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  9. 39 points, 7 submissions: luccwb
    1. Esquema de desvios milionários da UFPR era comandado por três famílias, diz PF (8 points, 1 comment)
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  10. 32 points, 6 submissions: luiznp
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  11. 27 points, 6 submissions: tarigui
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  13. 23 points, 4 submissions: crszoom
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  14. 19 points, 2 submissions: drlyons
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  33. 8 points, 1 submission: -Chimpzy-
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  34. 8 points, 1 submission: Fer22f
    1. Aviso encontrado sobre a Frente Nacionalista (8 points, 3 comments)
  35. 8 points, 1 submission: GiovaniGuizzo
    1. Redditors do /curitiba, postem suas fotos com o grande Oil Man. (8 points, 3 comments)
  36. 8 points, 1 submission: ProfessorPauloGuina
    1. I was researching the city of Curitiba for my Geography project, found its horrible flag, and redesigned it. : vexillology (8 points, 0 comments)
  37. 8 points, 1 submission: ebaroni83
    1. Adolescente morre esfaqueado dentro de escola ocupada em Curitiba (8 points, 0 comments)
  38. 8 points, 1 submission: hankdraperdasilva
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    2. Any good trails for trail running in or around the Curitiba area? (3 points, 4 comments)
  40. 7 points, 1 submission: anonimou_eu
    1. Violência em Curitiba (7 points, 6 comments)
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    1. Dicas e fatos sobre Curitiba (7 points, 4 comments)
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    1. Maratona "De Volta Para o Futuro" no dia 21 de Outubro (7 points, 0 comments)

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  1. Um destes é o novo prefeito de Curitiba. Consegue distinguir qual deles? by zikavirusfromhell (18 points, 0 comments)
  2. Curitiba vista do bairro Alto da XV by rpcastilho (15 points, 1 comment)
  3. De modelo a defasado: o declínio do sistema de ônibus de Curitiba by chiphead2332 (15 points, 1 comment)
  4. Google Transit agora mostra os horários dos ônibus em tempo real em Curitiba by gordori (15 points, 0 comments)
  5. Prefeitura anuncia aumento de passagem de ônibus em Curitiba (4,25, dia 06/02) by Chrono1984 (14 points, 11 comments)
  6. Esta senhora vende coisas feitas com anéis de lata de refrigerante na feirinha do Largo e estava vestida com uma "cota de malha" feita desse material by meunovonomedeusuario (14 points, 1 comment)
  7. /gazetadopovo by leospricigo (13 points, 3 comments)
  8. O Greca brindou o ano novo com Cini by frahm9 (13 points, 3 comments)
  9. Lumen FM anuncia encerramento das atividades após 12 anos by mrcapgras (13 points, 2 comments)
  10. Número de atropelamentos em Curitiba cai 36,5% em dois anos by gordori (13 points, 0 comments)

Top Comments

  1. 10 points: Chrono1984's comment in Rafael Greca estuda limitar grafite
  2. 8 points: Chrono1984's comment in Greca diz que vai fazer "Lava Jato física" em Curitiba e que metrô é para toupeira (Entrevista para o UOL)
  3. 8 points: punkcosmonaut's comment in Prefeitura anuncia aumento de passagem de ônibus em Curitiba (4,25, dia 06/02)
  4. 7 points: gordori's comment in Greca faz balanço dos 100 dias de gestão e diz que não quer ser quem 'agrada sindicatos e maltrata o funcionalismo'
  5. 6 points: Jvrc's comment in Manifestantes ameaçam atear fogo na sede do PT em Curitiba
  6. 6 points: RafaAff's comment in Tem um Delivery novo de cerveja gelada em Curitiba... pedi hoje e fiquei surpreso que chegou em 30 minutos! E o preço parece ser bem mais em conta que o Alo Esquenta
  7. 6 points: chiphead2332's comment in Ratinho lidera disputa a prefeito; 4 opositores ‘embolam’ o 2.º lugar
  8. 6 points: chiphead2332's comment in Por que Curitiba ainda não tem um bilhete único?
  9. 6 points: eojnai's comment in Prefeitura anuncia aumento de passagem de ônibus em Curitiba (4,25, dia 06/02)
  10. 6 points: gordori's comment in Histórico da tarifa de ônibus em Curitiba
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2017.12.02 20:43 fijozico Post-Match Thread: CF Esperança de Lagos 1 – 2 FC Ferreiras [1ª Divisão AF Algarve]

CF Esperança Lagos 1 – 2 FC Ferreiras

Estádio Municipal de Lagos
Golos do Esperança de Lagos: 30' Jorge Teixeira
Golos do Ferreiras: 85' Peixinho, 93' Pias

Esperança de Lagos

11 inicial: Cristiano Toco; Guell, Hernâni Nunes, Jorge Carvalho, Rafa Gonzalez; Rafa Pinto, Bruno Gonzalez, André Lourenço; Tommy Batista, Jorge Teixeira, Francisco Batista
Suplentes: Rafael, Tiago Serras, Lino Jerónimo, Nuno Alves, Nóbrega

Ferreiras

11 inicial: Duarte Encarnação; Mika, David Monteiro (C), Fábio Murraças, Ricardinho; Diogo Afonso, Ricardo Nascimento, Hagi; Jorge Correia, Vítor Pestana, João Viana
Suplentes: Paulo Bacôco, Pedro Colaço, Jeremy Pereira, Peixinho, Pedro Duarte, Wesley Douglas, João Pias

Jogo

Sejam todos muito bem-vindos meus caros shitposters a mais uma thread do melhor futebol do universo, a distrital algarvia! E que jogo que se antevia aqui: 1º vs 2º, Ferreiras contra Esperança de Lagos! O vosso leal repórter fez os 60km até a cidade lacobrigense para acompanhar esta partida em exclusivo para o /PrimeiraLiga.
A equipa da casa, o Clube de Futebol Esperança de Lagos, chegava a esta jornada com 23 pontos, após uma demolição ao Quarteirense, em Quarteira, por 4-0.
Já os visitantes, os maiores do concelho de Albufeira, os líderes desta porra toda, o Futebol Clube de Ferreiras, encontrava-se como se encontra há 10 jornadas: isolado na 1ª posição; 34 pontos, mais 11 que o Esperança, após uns expressivos 4-0 frente ao Quarteira na jornada anterior.

Primeira Parte

Com um frio de rachar, um vento macabro, e um sol que não aquecia nada, o jogo começava, com uma bancada algo despida. Os visitantes com camisa e calção branco, e meias azuis, e os visitados de camisa amarela, e calções e meias pretas. Foi-me confirmado pela minha companhia do costume que o nosso guarda-redes habitual, o Rúben Borges, partira o pulso no jogo anterior, e por isso saiu ao intervalo e não jogou hoje.
A primeira metade da primeira parte foi bem disputada, com ambas as equipas a tentar dominar o jogo. Quem o conseguiu foram os da casa, que não deixaram o Ferreiras respirar; no entanto, não conseguiam criar situações de perigo efetivo.
26' Amarelo para o Ricardo Nascimento. O defesa do Esperança acerta-lhe na canela, ele vi ao chão, o árbitro considera simulação...
A primeira situação de grande perigo surgiu para os da casa: uma bola apanha o Mika em contra-pé, e ficam 2 para 1 no ataque; o portador da bola passa para o lado para o outro encostar, mas chegou o Murraças com a pica toda e tira o pão da boca dele! Mas que corte! Canto para o Esperança.
30' 1-0 para o Esperança de Lagos, Jorge Teixeira. Ora aí está o que se esperava. Canto da esquerda, atravessa a pequena área toda, e calha no #9 dos da casa, que voleia cruzado perfeitamente para o primeiro do jogo.
E acabou aqui o jogo do Esperança. Começaram a arrefecer o jogo, e a dar o jogo ao Ferreiras. Num livre vindo da esquerda batido pelo Ricardo Nascimento, a bola sobra para um remate em rasteiro do Monteiro, que vai por cima da barra. A acabar a primeira parte, o Vitor Pestana tem uma oportunidade flagrante, mas demora muito a chutar e perde o golo do empate.

Segunda Parte

46' Substituição (1/3): Ricardo Nascimento Peixinho Não tou a ver o sentido desta substituição, mas ok. O Peixinho volta a jogar após o castigo, mas não tem metade da capacidade do Nascimento.
46' Substituição (2/3): Vitor Pestana João Pias Em mais um regresso, o Pias entra. Mais uma substituição que não entendo, preferia que tivesse tirado o Jorge Correia, que é um cepo. Mas pronto, In Seromenho We Trust.
A segunda parte começou como a primeira terminou, com o Esperança contente com o resultado e a dar o jogo ao Ferreiras. O Mika rompe pelo meio em drible, passa ao Pias, que remata à malha lateral.
51' Amarelo para o Mika, após travar um contra-ataque.
A partida segue e vai ficando mais dura, com bastantes entradas fortes, com amarelos à mistura. As tentativas do Esperança de Lagos de arrefecer o jogo dão tanto resultado que eu tou ali a tentar não morrer de hipotermia.
71' Amarelo para o Ricardinho, após travar mais um ataque do Lagos.
73' Substituição (3/3): Hagi Pedro Duarte Acertou no que entra, e errou no que sai. Como o Jorge Correia continua em campo, sem dar nada à equipa, ultrapassa-me.
A pressão do Ferreiras aumenta, e o Esperança recua mais. A este ponto, antevê-se o final do percurso imbatível do Ferreiras...
85' GOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOOOO, PEIXINHO, 1-1!!! Agora é que os minutos que gastaram vão dar jeito, seus cabrestes! Um livre para o Diogo à entrada do meio-campo do Esperança viaja até à cabecinha do Peixe que cabeceia cruzado para o golo do empate! Agora é que vai ser emoção até ao final, com ambas as equipas a querer a vitória!
3 minutos adicionados à segunda parte, um empate não é assim tão mau para o Ferre–
93' GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO, PIAS, 1-2!!! EU NÃO ACREDITO, EU NÃO A-CRE-DITO, A MINHA VIDA É UMA MERDA MAS O FERREIRAS NÃO ME DESILUDE, PORRAAAA!!!!! ISTO É COISA DE CAMPEÕES, MEUS CAROS! No último lance do jogo, a acabar o tempo adicional, o Diogo "Literalmente Özil" Afonso bombeia mais um livre para a área, o Pias baixa-se para cabecear, o redes ainda toca na bola, mas ela só para no fundo da baliza, para o êxtase do Ferreiras e dos seus aficionados! Que final de jogo!
E assim acaba a partida no Municipal de Lagos; as muitas lágrimas a correrem nos rostos dos jogadores do Esperança contrastam com o êxtase dos do Ferreiras, que agora se vêm a 12 pontos do 2º lugar, que volta a ser o Silves! Cenas inacreditáveis!

Campeonato

Jogos da Jornada 13

Casa Fora
Culatrense 3 – 0 Carvoeiro United
Imortal 2 – 1 Quarteirense
Messinense 1 – 0 Lagoa
Silves 3 – 0 Sambrasense
Quarteira 1 – 1 Faro e Benfica
Esp. Lagos 1 – 2 Ferreiras

Tabela Classificativa

Equipa P J V E D GM GS DG
1 Ferreiras 37 13 12 1 0 23 4 +19
2 Silves 25 13 7 4 2 25 12 +13
3 Esperança de Lagos 23 13 7 2 4 24 11 +13
4 Imortal 23 13 7 2 4 19 13 +6
5 Messinense 22 13 6 4 3 16 13 +3
6 Quarteirense 17 13 5 2 6 14 21 -7
7 Lagoa 15 13 4 3 6 17 16 +1
8 Culatrense 15 13 4 3 6 18 24 -6
9 Quarteira 15 13 4 3 6 19 18 +1
10 Faro e Benfica 14 13 4 2 7 12 19 -7
11 Carvoeiro United 7 13 1 4 8 11 26 -15
12 Sambrasense 4 13 0 4 9 10 31 -21
Fase de Promoção Fase de Despromoção

Menções Honrosas

Não posso não mencionar o grande jogo que o Esperança fez. Jogadores muito talentosos (de notar os dois laterais, Guell e Rafa, num nível muito superior).
Agradecer também à senhora que eu ainda não sei o nome que sempre está nos jogos do Ferreiras, que me deu um Filipino! Como não tive sequer tempo de almoçar, foi algo que me salvou de morrer com fome e frio!
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2017.09.17 05:55 pedrothegrey O detetive.

Entendiado na sala de espera. Fazem quarenta minutos que estou sentado neste sofazinho marrom, esperando que me chamem. Folheio as revistas e ouço o barulho da rua, o som das buzinas irritadas e o choro das crianças, o grito das mães, do dinheiro que entra no caixa, do assaltante que foge. Os sons que por mais de 10 anos escuto todo santo dia.
— Detetive N...! — Ouço a secretária gritar.
— Aqui. — Respondo, com rispidez.
— A doutora H... pediu para que o senhor entre, a consulta vai durar apenas vinte minutos. Não se preocupe.
Faço que sim com a cabeça e entro no consultório. Era diferente do que eu imaginava, na sua mesa tinham algumas pilhas de papéis, fichas dos pacientes, algumas revistas de psicologia em francês e inglês e uma cadeira na frente da mesa. Ela era uma mulher alta e bonita, motivo pelo qual tantos policiais não se importavam em ter que fazer as seções obrigatórias. Eu me sento na cadeira, pego o maço de cigarros amassado que guardo no bolso e puxo um cigarro.
— Você não pode fumar aqui. — Ela me diz, e com muito desgosto guardo o cigarro. — Estou vendo na sua ficha, você veio aqui porquê... deixa eu ver... Ah! Agrediu um padre. O senhor confirma? Ótimo, vamos prosseguir. Esta é a primeira das sete visitas obrigatórias, vou pedir para que o senhor assine aqui. E aqui. Obrigada. Agora sente-se. O senhor poderia me contar um pouco mais sobre sua experiência?
— Sobre o padre? Vamos, doutora, está tudo na ficha. Tudo bem, tudo bem, eu falo. Tínhamos uma investigação de violência sexual de um menor na paróquia da rua 52. Recebemos alguns telefonemas anônimos detalhando certos aspectos da aliciação dos garotos, e o modus operandi deste padre em específico. Minha equipe seguiu de perto o caso, e tínhamos fortes evidências que sugeriam que o padre guardava um diário, onde ele fazia uma espécie de confessionário com ele mesmo. Pedimos um mandato ao Juiz para investigar sua casa e encontrá-lo, mas vi que ele ia rejeitar o pedido quando retirou debaixo do terno um crucifixo e o mostrou para mim.
Eu olhava pela janela que ficava ao lado da cadeira onde me sentava, e contemplava, como um espectador em imersão, as entranhas da cidade. Havia muito que eu não enxergava as vísceras dela, mas daquele consultório eu tinha uma visão privilegiada da podridão.
— Continue, por favor. — Ela disse, rabiscando seu bloco de notas.
— No fim das contas, o juiz acabou contando ao padre sobre a investigação. As provas, nesse momento, devem estar enterradas debaixo dos sete círculos do inferno. — Eu disse, cansado.
— E você foi atrás dele? Quer dizer, do padre. — Ela perguntou.
— Olha, doutora, acho que repetir tudo que está registrado na minha ficha não vai me ajudar em nada. O que você quer que eu diga? Olhe pela janela e veja. Pouse seu olhar em um ponto fixo e observe os arredores, note como o ponto vai mudar. Perceba como as pessoas vem e vão em perfeita harmonia com o ambiente, com uma sincronia ímpar entre a indiferença social e cósmica. Socar a cara daquele padre não me fez bem, tampouco ajudou as crianças ou a investigação. Fiz o que fiz pelo mais mesquinho dos desejos. Sou isso, tempestade e ímpeto. Um coração à deriva, uma garrafa de consciência largada num oceano revolto de emoções profusas e indistinguíveis. Tentar ver valor ou significado nas minhas ações vai se mostrar, como a senhora verá nas próximas seções, a mais inútil das tarefas.
Um alarme que vinha do relógio de pulso da doutora disparou.
— N..., acredito que estamos progredindo. Nossa seção está encerrada, mas o aguardo para a próxima. Você se importa de chamar o próximo? Feche a porta. Adeus. Eu saio do consultório. São 18:30h e já anoiteceu. Uma noite sem estrelas, sem o máximo atestado da indiferença do mundo. Isso me força a olhar para frente, para a rua e para as pessoas. Elas tem caras de sono, mas a doença destas é o tédio, que em um bocejo mortal, engolirá a todos nós. Da onde eu ouvi isso? Deve ter sido algum francês, talvez Baudelaire ou Flaubert, não tenho certeza. Mas soa francês, não é?
Caminho para o estacionamento, entro no carro e dou a ignição no motor. A 120 quilômetros por hora numa rodovia mal iluminada, enxergo somente a sinalização reflexiva do chão. Algum drogado sai correndo de um canto qualquer, e num instante me desvio dele, derrapando os pneus e quase capotando o carro. Com o coração acelerado, sinto a adrenalina residual no meu corpo, que agora não tem mais uso além de deixar tenso. Talvez seja esse um problema mais geral do que eu imaginei, adrenalina residual.
Meus punhos ainda doem. As crianças ainda choram. E o padre ainda faz sua confissão e se exime dos pecados. Numa espécie de autoflagelação profana, nós seguimos unidos em um mesmo destino, em uma mesma aventura pagã e sádica. Eternas peças em um tabuleiro sem divisões, de um jogo sem regras. Sem um começo ou um final, seguimos no mesmo ritmo melancólico até o final das eras. Todos nós. Eu, as crianças e o padre.
Perco minha linha de raciocínio; o bip de superaquecimento do carro havia sido acionado há alguns minutos, e somente agora, quando o carro começa a esfumaçar, reparo. Ligo para a seguradora, em vinte minutos o reboque vai chegar. Me sento no banco novamente, olhando os carros que vão e vem, em borrões retangulares à luz de postes amarelados. A maioria tem seu destino para fora do centro da cidade, correndo o mais rápido que podem em direção aos subúrbios, tentando fugir de mais um dia.
O reboque chega e eu ganho uma carona. Preencho a papelada da oficina; me dão um prazo de duas semanas para terminar de consertar o carro. Chego em casa, tão disperso que nem me lembro como. Não importa. Tiro o uniforme, o revólver do coldre. Banho. Me sento a frente da escrivaninha, tiro a munição do tambor da arma, desencaixo o tambor e a empunhadura. Limpo o revolver com delicadeza, tirando poeira e pólvora seca de cada ranhura. Respeito a arma. Melhor, eu a admiro. Ela é um símbolo, e Deus sabe que temos poucos bons símbolos hoje em dia. É muda e sincera, a face da morte, representante máxima da impotência e da ignorância humana. Eu entendo o motivo pelo qual, durante o treinamento, fomos disciplinados a amá-la como nossa mulher. Ah! Eu entendo. Eu durmo em rápida e profunda dormência...
... Estou atrasado. Visto meu uniforme e vou para o ponto de ônibus. Faz um calor opressor, o vento corre pelo meu rosto, secando-o em pinceladas secas e dolorosas. Insipiro e expiro; o som é alto e seco, um barulho de papel amassando, de cigarro queimando. O ônibus chega e libera mais uma lufada de ar quente, que sai do escapamento, em mim. Entro e me sento. O calor faz o rosto das pessoas parecer miserável às sete da manhã, e o meu não é diferente. Olho pela janela e o sol mutila a todos como o olhar de uma mulher, mas não me engano, pois nem todos sentem isto, assim como nem todos estão conscientes dos olhares das mulheres, da maré alta durante a lua cheia ou das flores do mal, que morrem em agonia, sem o amor de um poeta. De novo essa paixão francesa no meu coração, recorrente, irreal.
Alguém faz sinal. O ônibus para e entram uma mulher e duas crianças. Uma delas com cinco ou seis anos, a outra, apenas um bebê no colo de uma mulher. Uma mulher negra, magra, com um cabelo desgrenhado, porém bem cuidado. Alta e forte, ela carrega a criança como se nada pesasse, se move com graça com toda a bagagem feminina, isto é, bolsas, fraldas, mamadeiras, roupas reserva etc. Vestia um vestido colorido, predominantemente verde, e no pescoço, um crucifixo de madeira. Quando tirei os olhos dela e olhei o menino, foi que reparei quem ele era. Nunca vou esquecer do olhar que me deu, nem da forma como, logo em seguida, desviou o olhar envergonhado. O medo, o desespero, a dor nos olhos de uma criança; de todos os grandes filósofos, só o maior deles entendeu o desespero de uma criança, mas mesmo assim, Ivan Karamazov só renunciou a Deus. Que haverei eu de fazer? Eu, que já não tenho a quem fazer rebelião, pois que nunca tive religião. Não amo a vida, o viver, e portanto não me basta o destino de Werther, de Hemingway. O que é o homem sem rebelião, ou ainda, sem a quem se rebelar? Nada mais que um inseto. E esse pensamento sempre foi tão natural, tão profundo no meu ser, que me espanta só agora ter me tornado consciente dele.
Em pouco tempo, cinco horas se passaram. Estou almoçando sozinho, em um restaurante barato, vendo o noticiário sensacionalista do horário dos insetos. O trabalho não me deixa em paz nem quando como. Saio de lá de estômago vazio, pago minha conta e me ponho a andar. Em alguns instantes já será hora da consulta.
— Assine aqui... e aqui. — Disse a doutora. — Sente-se, por favor, fique à vontade. — Nos sentamos e nos encaramos por alguns segundos.
— Posso quebrar o gelo?
— Com certeza.
— Você quer tomar um café comigo depois da sessão?
— O quê?
— Vai ser interessante.
— Isso é inapropriado, senhor N...!
— Ah! Tudo bem. Bom... é...
— O senhor pode começar me falando como se sentiu depois da sessão anterior.
— Eu comecei a fumar mais.
— Tem vontade de parar?
— Nenhuma.
— O senhor deveria ten...
— Você pode me receitar algum remédio para dormir? — A interrompi.
— O senhor está tendo problemas para dormir?
— Não. Durmo o sono das crianças. Só que são as dessa cidade.
— Ri, e percebi que ela se assustou com o comentário.
— Não existe razão para que eu receite esse tipo de remédio então, não é?
— E o que você pode me receitar?
— Qual o seu problema?
— Achei que você pudesse me dizer.
— Sou a mediadora, senhor N...
— Ah! Entendo. Posso ir embora?
— A corporação o obriga a fazer as seções.
— Eles sabem ser persuasivos. Eu não tenho nada para falar hoje. E como eu disse, tudo que faço é ímpeto. A senhora não vai achar nenhum material de estudo nos meus problemas.
— Meu objetivo não é esse. Quero somente te ajudar.
— A senhora pode reverter uma decisão judicial?
— Não, não posso.
— Então a senhora não pode me ajudar.
Passados cinco minutos de silencio, eu olhava para o teto e para a janela do consultório. Da rua, via-se um bar. Nele, rapazes sem camisa, com bermuda e boné. Carros de som estacionados na rua reverberam música em volumes altíssimos. Os gritos e os risos raramente eram distinguidos do som alto, mas se faziam ouvir no meio do barulho. Do outro lado da rua, saído de algum beco inominável, um homem branco, pálido, magro, seco e encurvado, atravessa a rua. Sua camisa, rasgada pela metade, expunha sua costela que se sobressaía da pele. E o cheiro e a dor da miséria eram transmitidos no olhar. Seus braços estavam cobertos de feridas, o sangue denso, coagulado, estava preso na pele, acobertando parte das manchas de infecção que seu corpo colecionava. Ele tremia as mãos e na direita exibia um caco de vidro. Ele se aproximou do bar convulsivamente, tremendo todas as partes do corpo. Um homem sem controle. Aquilo já não era mais um homem, não era... Ah! Os insetos! Sempre me perseguem. Absorto em meu pensamento narcisista, só me dou conta do problema depois que o som dos carros é interrompido. Os rapazes expulsam o ser à socos e chutes. Como ele não rachou ou quebrou é impressionante, devo dizer. Olho para a doutora e aponto, com o olhar, para a rua.
— Só assine aqui antes de ir. — Ela disse.
Saio depressa do consultório, chego na calçada e avanço para o bar. Perguntas rotineiras. Sigo o caminho que disseram que o inseto havia percorrido, e faço eu o mesmo caminho. Procurando; Ouroboros. Perco rapidamente a corrida, os labirintos do centro se estendem além da compreensão humana, e paro no meio da rua, ofegante. O silêncio me oprime. Olho no celular; 18:13. A noite começa a chegar, aumentando o sibilo do vento e diminuindo a temperatura. Eu só tenho que seguir na mesma direção que ele pode ter ido, me embrenhar mais profundamente nas ruas apagadas, passar por entre as praças, com seus bancos e brinquedos quebrados. Eu tenho que continuar a seguí-lo. Eu quero continuar. Uma raiva irracional começa a brotar de mim, e a abraço como ela vem.
Subitamente, um grito. Agudo, desesperado, forte e vigoroso. Deus! Eu demorei demais. Sigo o grito, "SAI DAQUI! MEU DEUS, AJUDA!", viro uma, duas, três ruas e o grito cessa. Debaixo da luz do poste, embaixo de um céu sem estrelas, jaz um corpo que sangra. Eu saco o revólver e sigo com cautela, olho em todas as direções e me aproximo do corpo. Coloco meus dedos indicador e médio no seu pescoço; sem pulso. Viro o corpo e a luz amarelada e inconstante do poste revela uma mulher negra, bonita. Com um vestido verde manchado de sangue, rasgado no peito e na barriga. O sangue escorre delicadamente do seu corpo, criando um padrão singular no chão, onde uma pequena poça se forma, e em um ou dois segundos, o sangue caminha devagar para o esgoto. O crucifixo que ela usava mais cedo havia sumido. A melancolia não me atinge, a adrenalina permanece comigo, olho atento em todas as direções e... Ela não carregava um bebê mais cedo?
Aperto a empunhadura do revolver com força, estendo meus braços e tento mirar para frente. Minhas mãos tremem; um homem sem controle. Não posso me desesperar agora, não, não agora! Ouço um barulho pouco mais alto que meus pensamentos, uma lata de alumínio cai no chão. Achei. Sigo o som devagar, com passos determinados. Uma esquina; me viro rapidamente, engatilhando o revolver. Da sombra sai o inseto. Trêmulo e vacilante. Cadê o bebê? Cadê o bebê? Olho para os lados mas é só escuridão.
— Você pegou o bebê!? — Gritei. — Responde, caralho!
O inseto grunhiu baixinho, como se coçasse a garganta. As mãos trêmulas sobem e sobem, até chegarem na sua boca. Ele a cobre com uma das mão, e a outra o acaricia, como se tivesse vida própria, independente. Ele ri, uma risada abjeta e irreal, que não exprimia felicidade, nem dor, nem qualquer sentimento humano. Era um som, que me convém chamar de riso, pela semelhança auditiva. Em um borrão, num movimento cego, aperto o gatilho. O martelo cai e cria a faísca... Silêncio. Depois de tanto limpar o revolver ele falha agora, é como se a lua afetasse as armas como ela afeta as mulheres. Segurei o revolver pelo cano e tambor, com a outra mão segurei o cabelo da criatura. O barulho seco da madeira batendo no crânio dele ecoava no beco escuro. A empunhadura estava manchada de sangue, e não sei diferenciar meu sangue do dele na minha mão.
— O que 'cês tão' fazendo aí, porra? — Gritou uma voz, vinda da janela do apartamento do lado do beco.
Isso! A luz do apartamento. Eu olho para frente, e do lado de uma montanha de sacos de lixo, encontro o bebê, e o pedaço de vidro que o inseto carregava mais cedo estava fincado no seu pequeno pescoço. A luz se vai, o homem vê minha arma e o corpo no chão e se assusta. Se esconde na sua casa. Ele vai ligar para polícia, nem preciso me incomodar. Pego meu celular, mas a tela trava com o sangue e o suor, desisto. Me sento na calçada junto da mulher, embaixo da luz do poste. A poça de sangue chegou no bueiro, e meu coração ainda corre acelerado; adrenalina residual. Depois disso ainda tenho que pegar um ônibus para casa, será que eu vou encontrar o menino? Não, claro que não, ele vai para a delegacia... Espero que eu não tenha que dar a notícia para o garoto.
O barulho das sirenes fica mais e mais alto. Os carros estacionam.
— Senhor N..., você 'tá' bem? 'Tá' machucado? — Me perguntou um dos cabos.
— Não. Só não quero que o D... me coloque pra falar com o garoto.
— Que garoto?
— O garoto, porra. O filho dela. — Apontei para o corpo da mulher.
— Vou pedir 'pro' S... te levar, ok? Deixa que a gente cuida do resto.
Fui colocado na viatura e levado para a delegacia. Da janela, eu via os borrões dos carros, indo e vindo. Na minha mente falavam uma multidão, uma pluralidade de vozes, gritos e sons ininteligíveis. Uma pena, não ouvi o barulho do motor velho da viatura, o zunido dos carros que passavam por mim, me eram sons caros, me acalmavam. O carro parou de repente. Fui retirado por um colega e colocado na minha sala. Me deram água e café. Alguém bate na porta.
— Entra.
— N..., como você tá?
— Eu vou ser preso?
— Por causa do drogado? A gente já deu um jeito nisso, ninguém vai notar.
— Ótimo. E o filho da mulher?
— Já encaminhamos o garoto para o orfanato municipal. Falamos com ele, me disseram do seu pedido.
— Perfeito.
O orfanato municipal, eu já sabia, recebe a maior parte da ajuda e doações da paróquia da rua 52... Eu mereço meu destino, juro que mereço. Mas a mulher e os meninos não, não, não mereciam. E mais um dia se passa na cidade dos insetos, onde nossa sina cruel e vil se faz visível através das almas inocentes. Eternamente impotentes, pagamos um dívida infinita à ninguém, nadando nus em um mar de canivetes e facas, onde a consciência se desfaz e o desespero é cada vez mais cutâneo.
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2017.09.11 12:34 gilsonvilain Dorocaso — Corações de Areia

Dorocaso Corações de Areia
“Essas alegrias serão jogadas ao esmo. A areia vai consumir suas lembranças até a última gota, e quando não sobrar mais nada você vai virar areia.” Jochasta, rainha dos esquecidos.
De pé ele olhava para as nuvens no céu sem sentir seus pés. Caminhando eternamente sem destino, elas vagavam escuras e carregadas como ele nunca havia imaginado. O solo é engolido pelo breu e os escorpiões alaranjados saem da areia. Cavando e cavando, centenas de lacraus submergem do da escuridão, brilhando e batendo suas garras como soldados marchando para o combate. O medo lhe puxa pela espinha, mas suas mãos estão vazias. Ao longe uma sombra de luz surge na imensidão.
-Davi! A cidade chegou! Davi! Você ainda não acordou? –Disse Franz ao lado da porta. Seus cabelos loiros iluminavam demais para sua vista adormecida. Piscando com força seus olhos, devagar ele se esticava na cama de esponja até sentir suas articulações despertarem. –Hoje não é o seu dia de vender as beterrabas? –Como um soco no peito ele se levantou. O sol já se erguera, e ele ainda estava ali.
-Chuva! –Disse o rapaz se pondo de pé velozmente, apenas para sentir uma tontura e perder parcialmente a visão tendo que se apoiar nas paredes para se manter. Calçando os sapatos escuros e com cheiro engraçado ele se ergueu novamente. Desviando das pequenas lâminas curvadas no chão, ele achou seu caminho até Franz.
-Eu e o Caiou já colocamos as caixas no Sableridge, até que horas você ficou afiando as talons? –Disse o Franz cedendo espaço para que Davi passasse correndo para as escadas. –E não esqueça de comprar um filtro novo para o reservatório!
Subindo as escadas como um lobo atrás de sua presa, Davi vê de relance Seth, Nami e Gilli sentados na mesa da cozinha. –Até as crianças já estão acordadas e eu aqui. –Subindo as escadas enquanto afivelava o cinto marrom, ele se voltou para a janela, olhando ao fundo a grande cidade cinzenta parada no deserto. –Mau dia! –Disse ele pegando a máscara azul presa na parede ao lado do espelho retangular e a colocando em seu rosto. Apertando o fecho e pressionando o único botão em sua lateral, ela se acendeu em um branco fraco. –Ah não!
Olhando a lateral do respirador ele passou o dedo por cima de pontinhos roxos que cercava o gradeado da máscara. Com o polegar pelo lado de dentro ele pressionou o puxador, fazendo as grades se abrirem e liberando a película tomada por centenas de micro pontos que variavam de roxo até rosa fraco. Davi abriu o armário de metal embaixo do espelho deixando que uma brisa gélida saísse. Colocando a película para dentro, fechou a porta e acertou o tempo para quinze segundos. Olhando novamente o espelho ele notou várias manchas de sangue coagulado em seus ombros e braços. Davi deu a volta e foi até a impressora amarelada de sujeira. Pressionando o menu ele selecionou a cor, comprimento da manga e por fim o tamanho, fazendo que a máquina emitisse um som agudo e constante ao passo de que o armário embaixo do espelho soou três apitos seguidos. Retirando a película sem luvas Davi sentiu como se seus dedos fossem derreter, só então sentindo o real frio quando encaixou a lâmina branca de volta na máscara. Vestindo a camisa bege de manga comprida, ele religou o respirador que se acendeu em um branco forte.
Fechando a porta de trás e abrindo a da frente ele foi em direção ao Sableridge. Vários arranhões circundavam o veículo encouraçado, as duas esteiras frontais estavam gastas mas não chegavam ao nível de desgaste dos pneus traseiros. Estes foram remendados tantas vezes que Davi já não sabia se eram feitos de borracha ou de remendo. A lataria perfurada era estrategicamente escondida pela sujeira e a lama viscosa das estradas. –As chaves! –Pensou ele batendo as mãos nos bolsos, só para perceber que não portava nenhuma. –As chaves! Gritou ele em direção a toca.
-Já estão dentro! - Disse Caiou do segundo andar. Davi Se aproximou do painel e ouviu o som de motor. Ele se voltou para Caiou e assentiu com a cabeça.
Poucas estradas cruzam em direção ao grande deserto. A pista de fogo sai da capital até o batalhão especial no sul, circulando o continente e passando por todas as grandes vilas. Usando areia vermelha para montar seus tijolos, a pista de fogo era o jeito mais fácil e seguro para aqueles que não possuíam problemas com o Armata. Ao seu lado muitas trilhas foram feitas ligando pequenas vilas até a pista de fogo, como galhos em um tronco. A estrada de pedra sai das grandes montanhas e se conecta com as estradas de terra, geralmente usadas por contrabandistas ou fugitivos, uma vez que não haviam patrulhas. Davi saiu da toca e seguiu em frente pegando a estrada de barro, o caminho que ele mesmo batizara, ligando a toca até a vila das palmeiras a oeste. Com uma agricultura rudimentar, a vila das palmeiras resistia apenas pela criação de roedores. Fáceis de alimentar eles eram a moeda de troca de algumas dezenas de famílias. De lá ele pegou a estrada de ferro, cruzando a floresta das almas até o grande deserto ao norte. Dali ele já conseguia ver as marcas de pneus na areia, sinal de que estava atrasado. Acelerando ele sentiu o veículo trepidar e perder força, mantendo o acelerador pressionado enquanto reduzia a marcha. Ainda assim a força havia indo embora, e ele seguiu até a pista de fogo na velocidade de um homem correndo. Devagar ele viu rasgando o deserto azul e branco. Mais de mil passos de largura, e outros oito mil de comprimento, com esteiras maiores que a vila das palmeiras, e com pistões mais fortes que dez mil homens, marchando para cima e para baixo, em um compassar estrondoso. Maciça e barulhenta, ela cavava com seus pistões exteriores descendo e subindo como um ferreiro batendo seu martelo, se enterrando mais fundo naquela areia sem dono, ela descansava enquanto ele se apressava. Apertando o pé contra o pedal e tentando aumentar as rotações, ele notou um grupo de pessoas segurando placas. Davi não conseguiu ler o que estava escrito, as manchas azuladas em suas peles tiraram sua atenção. Engatinhando pela estrada de fogo, ele rumou ao sul do titã encouraçado, seguindo outros veículos que jaziam estacionados ali.
Davi estacionou o sableridge ao lado de uma motocicleta de propulsão amarela. Algumas dezenas de veículos estavam ali, ainda assim Davi se surpreendeu com a baixa quantidade. Em temperaturas amenas, aquele pátio sempre estivera lotado de lanchas terrestres e caminhões. No porta-malas ele retirou as quatro caixas cheias de beterrabas, cada uma pesando metade de seu peso. Suas veias saltaram por entre a pele, e com um urro de vontade ele as ergueu caminhando lentamente até a entrada norte.
-Vento! Eu preciso ir até o templo das Lamentações! –Disse uma voz vinda de trás de Davi. Ele girou sua cabeça para procura-la mas no instante seguinte ela havia sumido. –Você tem um carro, pode me levar lá? –Disse a voz. Davi abaixou as caixas e conseguiu ver a moça a sua frente. Bem menor do que ele suspeitava, ela se erguia pouco a cima das quatro caixas deixadas no chão. Olhos cinzentos e lábios fartos, ele não conseguiu distinguir mais nenhuma caraterística dela, além de sua barriga proeminente e arredondada.
-Eu estou indo vender beterrabas na vila. –Disse ele olhando seus braços finos e curtos. –Esse templo fica no norte, não acho que tenha alguém de lá por aqui. –Disse ele se abaixando para pegar as caixas.
-Você não entende, eu preciso ir lá! –Disse ela erguendo a voz e riscando a areia com seu pé.
-Eu entendo, mas agora eu não posso fazer nada para te ajudar. –Disse erguendo novamente as caixas e a perdendo de seu campo de visão.
-Você pode depois? –Perguntou ela com um tom mais doce. Davi começou a andar e não olhou mais para trás. –Vou te esperar aqui!
-Não foi isso que eu quis dizer. –Falou ele alto o suficiente para ouvir suas palavras ecoarem pela vastidão seca, mais baixo o suficiente para não ouvir resposta alguma.
Se arrastando para frente, uma moça de cabelos escuros e longos passou por ele, porventura as caixas ainda tapavam sua visão frontal, o impedindo de conseguiu ver seu rosto. Ele gostava da ideia de andar sem ser percebido. Ao seu lado as vozes vindas da cidade se intensificavam, o empurrando para frente. Ouvindo passos na areia, ele inclinou a cabeça para ver um homem baixo com uma barriga proeminente caminhando de mãos dadas com uma menina de cabelos alaranjados. Os escorpiões voltaram a sua cabeça, e ele desejou que Nissa falasse algo que o puxasse de volta, mas ela estava na toca.
-Chuva! Posso ajudar? –Disse o homem com turbante branco, portando uma máscara amarela e uma barba escura e rala. Davi abaixou as caixas e suspirou por um segundo relaxando os ombros. O homem flexionou os olhos e pequenas bolsas de pele surgiram em cima de suas bochechas.
-Chuva! Eu vou vender as beterrabas. –Disse ele esticando a mão em direção ao homem.
-Os vendedores de comida já estão localizados no setor dois, penso que não há mais espaço para estandes. –Disse o homem o olhando de queixo erguido.
-Eu me atrasei. –Disse Davi abaixando o braço e se aproximando. -Mas eu tenho uma reserva. –Disse batendo as mãos nos bolsos. -E eu conheço o prefeito. –Disse Davi gesticulando com suas mãos armadas em veias proeminentes enquanto ele abria os bolsos internos da camisa.
-Certamente que não conhece. –Disse o homem de turbante. –Uma vez que eu não tenho nem ideia de quem é você, e eu sou o prefeito; Alouite Seeiso. –Disse o homem dois palmos menor que Davi, erguendo ainda mais o queixo para cima. Davi desistiu de procurar a licença e coçando a cabeça.
-Eu deixei na outra camisa! –Percebeu ele olhando para o céu. -Na verdade o prefeito que eu conheço se chama Timothy, ele tem cabelos escuros, é magro e... –Disse Davi gesticulando as medidas com as mãos. –Alto.
-Ah. –Disse Alouite. –Esse é o segundo prefeito. –Disse abaixando a cabeça e apertando os dentes. –De qualquer modo eu sou o prefeito para os assuntos externos da vilavassoura. Eu cuido de quem entra e quem sai.
-Eu sei. –Disse Davi sorrindo por debaixo da máscara. –O Thimoty cuida da manutenção da vila, proteção das pessoas, educação dos jovens, tratamento dos enfermos, conserto das máquinas, contrata os seguranças. –Enumerou Davi olhando para as beterrabas ardendo no sol do deserto. –E o senhor cuida de quem entra e sai. –Disse Davi se mordendo para não o chamar de porteiro.
-Thimoty tem suas funções, eu tenho as minhas. –Disse ele se virando de costas. -E o período para alocação de novos estantes já se encerrou.
-Eu também preciso comprar um filtro. Já acabou o período de entrada de compradores também?
-Hum. –Disse o prefeito de turbante declinando o queixo e encarando os tubérculos. –Você entra, as beterrabas não.
-Tudo bem, quando eu encontrar um vendedor de filtros, eu peço para ele vir até aqui fora retirar o pagamento, o senhor toma conta delas para mim? –Perguntou ele levantando uma caixa e colocando aos pés do prefeito. O homem bufou mais forte e se voltou para recolocar a caixa em cima das outras. Buscando todas as forças de seus braços flácidos, o prefeito ergueu a caixa poucos centímetros do chão, soltando suas alças e voltando a ficar ereto.
-Leve isso daqui. –Disse Alouite ofegante.
-Obrigado senhor prefeito! –Disse Davi erguendo as quatro caixas e seguindo em frente para a o portão de acesso.
-Bem-vindo a vilavassoura. –Disse ele em um tom seco. –Espero vê-lo novamente. –Apertando os olhos e ajeitando o turbante.
O chão de areia afundava a cada passo de Davi. Jogando areia para trás, ele sentia que a cada passo andava menos. Pisando em falso sentiu a areia dar lugar a tábuas de metal. Forçando os joelhos ele subiu a entrada que se elevava pelo menos oito passos do nível do chão. A grande fachada esculpida em madeira e aço, dizia “Village de Balai Cinq”, vilavassoura em uma língua antiga. A gigante de aço possuía metralhadora automáticas acopladas a parte de dentro apontadas para o chão. Aportando e um lugar diferente a cada dois dias, a bordo ela levava mais pessoas que ele conheceria sua vida inteira. Mais cores de cabelo do que tons de céu, mais vozes do que mil autofalantes. O cheiro das comidas, mesmo passando pelo respirador, já encharcava Davi por dentro. Olhando para o arco de entrada, ele viu seis guardas carregando fuzis e ao seu lado um grupo de pessoas rodeando um grande homem de cabelos longos e encaracolados. Davi abaixou as caixas para conseguir olhar por cima, fazendo seus músculos guincharem por dentro, mas seguindo em direção as pessoas.
-Eles andam em caravanas. Centenas de milhares. Caminham até as vilas, e lá destroem tudo. Nada fica para trás, nem os habitantes, é terrível! –Disse a senhora de cabelos curtos usando uma camisa de flores brancas, combinando com sua máscara.
-Devem ter sido mandados pelos homens de sabão. Eles estão há décadas se alastrando pelo litoral. –Disse o senhor de máscara lilás com um guarda-chuva em mãos.
-Não são os homens de sabão, quando paramos na vila da pedra, um soldado me disse que eles comem as pessoas e usam os ossos como adereços, isso é coisa do povo vermelho! –Disse o senhor careca usando um roupão verde.
-Estamos seguros aqui. –Disse o homem no centro, rodando os dedos por entre os fios de cabelo que caiam por seus ombros. –Além disso, todos os relatos são de vilas no Norte. Não há nenhum indício que ela esteja marchando para cá.
-O bosque vermelho foi dizimado. A fumaça chegou até a capital. Quando a Armata foi para o socorro, só haviam cinzas. –Disse a senhora. O homem alto inclinou a cabeça atento a suas palavras quando no meio da multidão, algo pescou sua atenção.
-Com licença. –Disse o homem alto esticando o braço. –Davi?
Davi o olhou e sorriu, ganhando espaço em meio ao aglomerado, colocou as caixas no chão esticou a mão e apertando o antebraço do senhor.
-Chuva Prefeito! –Disse ele chacoalhando o braço e sentindo os dedos finos e longos se apertarem em sua pele.
-Veio vender amoras? –Perguntou o homem de pele clara e lábios roxos e esticados.
-Pretendia. –Respondeu Davi apertando os olhos e observando as beterrabas por um instante até retornar os olhos para o prefeito. Ao seu lado havia uma grande porta dupla de vidro que guardava o estreito corredor em frente, lotado de pessoas andando por entre as lojas. O prefeito girou sua cabeça na mesma direção e coçou o nariz pontiagudo.
-Vamos ver onde eu consigo colocar você. –Disse Timothy dando um tapa em seu ombro. Davi pegou as caixas nos braços e o seguiu enquanto ele entrava na antessala do tumulto. As vozes se mesclavam a multidão atrás do vidro, podia se ouvir tudo, mas nada se entendia.
-Não vi você aqui mês passado. –Disse o prefeito erguendo os braços enquanto a primeira porta de vidro se fechava. No mesmo instante um jato de fumaça quente e clara saiu do chão e inundou toda a parte enquanto o prefeito retirava o respirador. Alguns segundos depois a fumaça se esvaiu pelo teto e a segunda porta se abriu dando acesso ao corredor.
-Mês passado. –Repetiu Davi erguendo as caixas de madeira. –Deu um vazamento lá em casa, tive que desligar todas as saídas de ar, perdemos boa parte da colheita.
-Sinto muito. Suas batatas são ótimas, as cenouras nem tanto. –Disse ele espiando as beterrabas por entre as frestas da caixa. –Você teve mais alguma notícia do Colm? – Davi balançou a cabeça. A mão do prefeito veio ao seu ombro mais uma vez enquanto ele sorria olhando para o chão. -Já pode tirar o respirador. –Disse o prefeito olhando Davi. Cerrando os olhos ele abriu a boca por um suspiro e a fechou. –Eu esqueci, o Colm me contou, mas eu esqueci, desculpa. –Disse ele enquanto Davi erguia o ombro e coçava a cabeça.
Adentrando a multidão de pessoas andando por entre as lojas, o prefeito achava brechas entre os cotovelos e ombros para Davi passar sorrateiramente, avançando entre bolsas e mochilas, sua altura lhe forneci uma visão privilegiado do pátio interno. Alguns passos para frente e uma voz chamou “prefeito! ”. Thimoty se virou e viu um sujeito de pele escura com olhos vermelhos. Com os dedos o prefeito gesticulou pequenos círculos, voltando sua cabeça para frente e seguindo até a segunda parte sem se virar para trás.
-Aqui estamos! –Disse o prefeito olhando o círculo de vendedores sentados em frente a caixas de legumes. –Você vende amoras, amoras são como alfaces não? –Perguntou ele, jogando um cacho de cabelos para trás enquanto olhava para as alfaces.
-Os dois são plantas, mas acho que beterrabas entram mais na sessão de raízes. –Respondeu Davi.
-Hahahahaha raízes! Mas não vendemos árvores aqui, e o único estande que tem espaço é o da alface. –Disse ele apontando para as folhas verdes e crespas. Davi virou a cabeça, mas não disse nada, apenas sorrindo para o prefeito e colocando as caixas no chão. –Chuva minha menina! Qual seria o seu nome? –Perguntou ele piscando para a jovem de cabelos escuros sentada atrás das caixas da alface.
-Naya. –Disse ela entortando a boca e olhando Davi de baixo para cima. –Naya Avilis, senhor. – Seus cabelos se agrupavam em cachos pequenos e longos. O delicado nariz arrebitado apontava para Davi enquanto ela falava com o prefeito. Davi apertou os punhos para tentar sair do seu encanto, mas já tinha certeza que estava encarando a jovem a tempo de mais.
-Este menino tem problema. –Disse o prefeito em direção a Davi, que mesmo assim não tirou os olhos de Naya. –Ou teve um problema. Ele pode dividir o espaço com você hoje? –Perguntou se abaixando e analisando de perto as hortaliças.
A jovem olhou sem expressão para Davi, que corou em menos de um suspiro. Ela ergueu o braço e puxou ar para argumentar, mas virou a mão e o olhou de lado.
-Achei um lugar para você! –Disse o prefeito voltando a ficar de pé. –Vocês se acertam então, eu vou ali procurar algum nabo. –Disse ele sorrindo e andando em direção aos tomates.
-Com licença. –Disse Davi colocando as caixas roxas ao lado das verdes. –Eu me chamo Davi. –Disse ele esticando o a mão em frente. A jovem sorriu e apertou seu antebraço.
-Naya. –Repetiu ela cedendo espaço para que ele dividisse a caixa ao seu lado. –Você por acaso não tem nenhum anel de vilírdia, tem? –Perguntou ela observando um roxo no pescoço de Davi. Ele balançou a cabeça tapando o machucado com a mão direita. –Imaginei que não. –Disse ela erguendo a sobrancelha ao olhar o respirador branco. –Você já foi lá? –Perguntou ela enquanto Davi levantava as sobrancelhas e fazia um beiço com os lábios. –Eu nasci lá. Em Viliris. Você é daqui?
-Eu nasci no Norte. –Mentiu ele. -Uma vila comerciante. –Disse engolindo em seco e levando os olhos até o rosto dela. –Onde fica Vilirdis?
-Viliris. Você nunca ouviu falar? –Perguntou ela abaixando as sobrancelhas e erguendo as bochechas. –Eu saí de lá ainda muito pequena, mas ela fica no extremo leste, entre mares. –Disse ela erguendo a mão e gesticulando uma onda. –No encontro de três continentes, uma linha traçada nos oceanos, delimita a vida e a morte poente, a água dá início e fim aos planos, construindo a ferro e fogo; o tridente, E costurada através dos séculos; mil anos, surge no mar da primeira e última corrente, Viliris, a cidade com sangue dos tiranos, viva para sempre, Viliris, a cidade descontente. –Cantou ela abaixando a mão ao final.
Davi a olhou boquiaberto. Nunca ouviu da cidade, mas as palavras deixavam sua boca com pétalas se soltam de flores no outono. Sua pele lisa acendia entre o cinza das paredes. Seus olhos escuros puxavam sua alma para dentro, e ele já não tinha forças para segura-la. Suspirou fundo e balançou a cabeça.
-Ela fica... no mar? –Perguntou ele encarando as alfaces.
-No Nemo. –Disse ela tirando o cabelo da frente dos olhos. –O ponto mais distante da terra entre os três continentes. –Disse abrindo um tímido sorriso. –Um dia eu vou voltar para lá.
-Quanto pelas batatas rosas? –Perguntou o homem alto de cabelos castanhos curtos que se aproximara usando uma capa marrom e um colete escuro, com braçadeiras pretas que vinham até os pulsos, e duas grandes cicatrizes no pescoço.
-São beterrabas. –Disse Davi se levantando e pegando uma da caixa.
-Batatas, baterrabas, tudo a mesma coisa. –Disse o homem estreitando os olhos. Passando a mão por dentro do colete, ele retira uma corrente avermelhada e a entrega para Davi. –Doze batatas rosas? –Perguntou ele. Davi olhou para a corrente e esticou a mão para pegá-la. Passando os dedos entre os elos e olhou de volta para o homem.
-Oito. –Disse Davi. O homem passou a mão em outro bolso e retirou um pequeno brinco prateado e o colocou na mão de Naya.
-Doze. –Disse ele rangendo os dentes enquanto ela olhava para a joia. Davi se voltou para Naya que segurava o brinco em frente aos seus olhos.
-Doze. –Repetiu Davi assentindo com a cabeça. O homem retirou a mochila das costas e começou a escolher as beterrabas. Naya entregou o brinco a Davi que o segurou com as pontas dos dedos. O brinco imitava o formato de uma orelha, adornado de pequenas pedras azuis, ele formava uma ponta no topo. Voltando-se para o homem, Davi já não o encontrava a multidão de pessoas andando entre as vendas.
-Bonito esse brinco. –Disse Naya passando o dedo por sua ponta.
-Você quer? –Perguntou ele corado.
-Ele é seu. –Disse ela se afastando.
-Eu não uso brinco, ele iria ficar bonito em você. –Disse ele esticando a mão em sua direção. Ela o apanhou e colocou na orelha esquerda.
-Como ficou? –Perguntou ela.
-Sen... –Disse ele buscando ar nos seus pulmões. –Sensacional. –Completou sorrindo.
-Mas eu não te conheço, não posso aceitar um presente assim. –Disse ela desatarraxando o pingente.
-Não, é um presente. –Disse Davi esticando seu braço em direção as hortaliças e pegando uma folha verde e molhada. –É uma troca. –Disse ele mordendo a alface com força e empurrando o resto da folha para dentro da boca. Naya riu e colocou o brinco de volta.
Antes do sol chegar no topo, todas as beterrabas já haviam sido trocadas, ao passo que mais da metade das alfaces esperavam paciente nas caixas de madeira. Davi já havia aprendido sobre o período de Naya em Viliris, sobre o Vento, o barco de seu pai que havia cruzado todos os mares baixos da costa entregando tâmaras do oceano. Dos monstros antigos que ameaçavam os cargueiros a cruzar os estreitos de pedra. Do tempo em que Naya morou nas minas de marfim com sua tia, das aventuras nas montanhas azuis, de sua vinda até a vilavassoura. Davi podia ficar ali o ano inteiro a ouvindo falar.
-Eu moro em uma “casa” na floresta. –Disse Davi apoiado na borda da vila vassoura apontando para o horizonte. –Você continua por aquele caminho até a vila das palmeiras e vira para a estrada de barro.
-Eu preciso ficar aqui a tarde, você não volta amanhã? –Perguntou Naya olhando as árvores dobradas. Davi balançou a cabeça olhando para baixo. –Meu pai é dono de uma empresa de mineração perto daquela montanha ao sul. Talvez eu volte para visita-lo um dia. Se você me convidar para conhecer a sua casa, talvez eu aceite o sofrimento de passar um tempo com ele.
-Ele é mau com você? –Perguntou Davi se voltando para ela. Na parte de fora do mercado, os dois se escoravam na lateral da cidade de aço. Naya usava um respirador vermelho com azul. Davi pensou em sugar todo o ar do mundo só para poder ver seus lábios mais uma vez.
-Ele é ausente. –Disse ela olhando para a amontanha verde. –Desde que ele deixou o barco e criou raízes na terra, ele não tem tempo para mais nada.
-Se você quiser ir lá em casa, eu acompanho você até essa fábrica. –Disse ele sorrindo por debaixo da máscara.
-Gostaria de ver você tentar. –Respondeu ela o olhando no fundo de seus olhos. –Você é diferente Davi. –Ele se virou de costas para a borda da cidade se encostou com as costas e cotovelos.
-Diferente bom? –Perguntou ele inclinando a cabeça.
-Diferente, porque você tem tantos roxos pelos braços? –Perguntou ela se voltando para examinar os machucados.
-Ah isso. –Disse ele olhando para um grande hematoma no seu pescoço. –Você me acompanha até a toca, e eu te conto o que você quiser saber sobre mim.
-Hum. –Disse ela torcendo o lábio. –Isso é um encontro? –Perguntou ela erguendo as sobrancelhas.
-Não, isso é só uma conversa. –Respondeu ele observando o brinco em sua orelha esquerda. –Quando eu te ver de novo será um encontro.
-Me diga algo primeiro. –Disse erguendo as sobrancelhas. –Porque você entrou no mercado de máscara? –Os pelos nos braços de Davi se eriçaram e ele baixou os olhos, dando um passo para trás.
-Eu preciso ir. –Disse ele diminuindo em tamanho.
-Desculpa. –Disse ela. –Eu não queria...
-Não há nada por que pedir desculpas. –Disse ele se aproximando das caixas vazias deixadas no chão. –Eu não me importo tanto com isso. –Disse ele desengatando a fivela que prendia a máscara branca. Devagar ele a abaixou segurando a respiração. Engatando novamente suas pontas ele puxou o ar com dificuldade até o respirador se acender em branco. –Mas as pessoas olham muito quando eu fico sem. Por isso prefiro ficar com ela.
-Com quantos anos você saiu de lá? –Perguntou ela deixando que as lágrimas corressem soltas sem se importar.
-Eu não sei. –Disse ele sorrindo com os olhos. –Minha mestra me tirou de lá, eu conto meu aniversário a partir daí.
-Entendo. –Disse ela limpando os caminhos deixados pelas lágrimas em seu rosto. –Então, eu passo a vila das palmeiras e viro à esquerda?
-Esquerda de quem vêm, direita de quem vai. –Disse ele caminhando em direção a saída da vilavassoura.
-Eu vou mesmo hein. –Disse Naya passando os dedos no brinco esquerdo.
-Assim espero. –Disse ele erguendo a mão e a balançando no ar. –Chuva Naya de Viliris!
-Chuva Davi! –Disse ela já distante.
Caminhando até o sableridge com as caixas vazias, tudo o que Davi conseguia fazer era reviver em sua mente as lembranças que recém fizera. Entoando as falas e buscando por detalhes que havia deixado passar. Naya deixou seus olhos, mas não sua mente. O cheiro doce. Desejou poder sentir aquele perfume para o resto da vida, mas tudo o que tinha era ar filtrado.
Caminhando sem pensar, avistou o sableridge, agora com muitos veículos ao redor. Sem pressa ele depositou as caixas no seu porta-malas e deu a volta para ir embora. Entrando ele fechou a porta e esticou a mão para puxar o cinto, olhando para o lado e sentindo seu coração apertar tanto que poderia sair do lugar.
-Agora você me leva? –Perguntou a moça grávida sentada ao seu lado. Davi não gritou, mas sentiu sua alma tremer.
-O que você está fazendo aqui dentro?! –Perguntou ele soltando o cinto a abrindo a porta.
-Você disse que me levaria. –Respondeu ela afivelando o cinto.
-Não! Eu disse que... –Começou ele apontando seu dedo, só então tentando lembrar do que havia dito. As palavras se enrolavam em sua mente, mas ele tinha noventa por cento de certeza de que não havia dito aquilo. Olhando para dentro ele viu os olhos da moça se abaixarem enquanto ela erguia os lábios inferiores para frente. –Eu não vou para lá. Posso te deixar na vila das palmeiras, de lá talvez você consiga alguma carona. A moça concordou com a cabeça, e Davi reentrou no sableridge.
Dirigindo em silêncio para fora da cidade na areia, Davi notou quatro motocicletas estacionadas na entrada da floresta que dava caminho para a estrada de ferro. Olhou para os lados, mas não viu ninguém, decidindo por seguir em frente. Pensou que se tivesse com a Ajna, poderia rever seu rosto depois, mas com a incerteza das vilasvassoura, talvez tudo que restasse fosse aquela memória malformada ainda.
Acelerando em frente o veículo começou a falhar perdendo força. Reduzindo a marcha as esteiras forçavam o carro sem resultado. Duas motos de propulsão surgiram em meio as árvores retorcidas e tomaram a frente do veículo. Davi pisou o acelerador, mas as rotações não aumentavam, permanecendo pouco mais rápido que um homem caminhando.
-Ele não anda mais que isso? –Perguntou a moça olhando para o velocímetro no painel. Davi tirou os olhos do volante e examinou as marcas no chão, só então se voltando para ela.
-Peixe dado não se olha as ovas. –Respondeu pisando fundo no acelerador sem retorno. Ao longe um ronco começou a crescer. Olhando pelo retrovisor ele viu quatro motos se aproximando.
-Talvez eles possam ajudar. –Disse ela olhando com seus olhos cinzas pelo retrovisor.
-Você conhece eles? –Perguntou Davi olhando os quatro homens descerem das motos com armas em mão. Ela balançou a cabeça se apertando para trás. Parando ao lado da porta do carro, um homem a apontou um revólver para Davi. Segurando o volante com mais força e retirando o pé do acelerador, o carro morreu.
-Sai todo mundo! –Disse o homem do lado de fora. Davi olhava fixamente para a moça. Respirando forte ele não sabia como havia sido tão ingênuo. Claramente ela conhecia eles. O velho truque da laranja que prepara o terreno para seus amigos. Seu sangue fervia em suas veias, e ele sentiu vontade de dar um soco naquela barriga falsa. Mas aquela arma era o problema principal, por enquanto
-Calma amigo, a gente só quer o que você ganhou lá dentro. –Dizia outro homem de ombros largos e cabelo curto, usando um respirador azul escuro, ao lado da porta do carona. Suando frio, ele não ousou olhar para o porta-malas, onde todo o seu ganho daquela manhã estava guardado.
Davi respirou fundo e retirou o cinto de segurança, apertando o botão vermelho abaixo do volante antes de ser puxado pela fora pelo homem que se agarrara ao seu pescoço, o jogando no chão. O homem careca se aproximou e começou a dar tapas nas pernas e braços de Davi que tentava se recompor.
-Limpo. –Disse o careca se afastando.
-Se vocês continuarem assaltando os clientes da vilavassoura, eles vão apenas parar de vir aqui. –Disse Davi olhando o homem de máscara azul enquanto outros dois entraram no sableridge revirando os bancos em busca de algo. A grávida estava em pé do lado de fora segurando sua barriga falsa.
-A gente segue ela, problema nenhum, sabe. –Disse ele fixando os olhos escuros em Davi. –Mas pelo visto você já tem um costume de ser assaltado, sabe. –Disse ele olhando para os roxos nos braços de Davi.
-Mais ou menos. –Respondeu ele olhando para trás. Um distante ronco de motor vinha em direção a estrada de fogo. Davi só conseguia pensar em quanto odiava surpresas.
-Tem uma luz piscando aqui dentro. –Avisou o homem de barba grisalha de dentro do carro.
-Você chamou alguém? –Perguntou o homem de azul dando um tapa no rosto de Davi. –Eu queria fazer as coisas sem violência, mas vocês sempre pedem, sabe. –Disse ele puxando a arma de trás das costas e apontando em direção ao barulho.
-Não chamei ninguém. –Disse Davi vendo no horizonte um veículo preto se aproximando, enquanto sentia seu rosto esquentar. Davi estava tão confuso quanto eles, o carro parecia ser de Thimoty. O homem deu-lhe mais um tapa com as costas da mão e Davi caiu de joelhos segurando a máscara. Do chão ele viu o assaltante disparar uma saraivada de balas em direção ao carro, fazendo que ele virasse para o lado e batesse em cheio a uma árvore, levantando uma nuvem de areia.
Thimoty, aquele era o carro do prefeito. Rodas prateadas, capô adornado em madeira. O que ele estaria fazendo ali, se perguntou no chão.
-O que a gente faz Tellius? –Perguntou o homem careca.
-Vá ver quem está lá! –Urrou o homem de azul apertando os dentes. Correndo em direção ao carro preto, um vulto abriu a porta e saiu mancando escorando-se nas árvores.
-Quem vem lá? –Perguntou o homem careca apontando seu revólver. Uma voz doce veio em resposta, atiçando os nervos de Davi ao máximo.
-Naya. –Disse ela erguendo as mãos enquanto o homem se aproximava.
Davi olhou para cima ignorando a conversa entre os dois. Procurando no céu, ele ainda não havia encontrado nada.
-Não vai chover hoje não garoto. –Disse o homem de azul rindo em pé a sua frente. –Tragam a menina, tenho um amigo que pagaria bastante por ela, já essa grávida aí...
-Não é chuva que eu espero. –Disse ele vendo um risco no céu.
O homem abaixou o rosto para olhar novamente para Davi, sendo surpreendido por uma cabeçada em seu estômago. Davi se levantou e subiu em cima do carro gritando “Aqui, aqui! ”. O risco no céu voava rápido e ao se aproximar largou uma grande caixa de metal em cima do veículo, balançando sua estrutura e levantando uma grande nuvem de poeira e detritos.
-Maldito! –Disse o homem de azul no chão com uma mão na barriga e a outra tapando os olhos contra a poeira. –Eu vou te picar inteiro e te jogar para os peixes, sabe! – Ao seu lado a grávida corria para dentro da floresta em direção a vila das palmeiras.
Davi pulou em cima da caixa e ela jogou uma forte luz esverdeada que o varreu por completo em menos de um piscar de olhos. A caixa abriu as laterais, saindo lâminas longas que se encaixaram nos pés de Davi, subindo o tornozelo, joelhos até se prender completamente nas duas pernas. As lâminas se prendiam desordenadamente, se arrastando entre si até encontrarem o seu encaixe. Davi pulou para frente a caixa se ergueu em seu próprio eixo, encaixando uma camada de lâminas nas suas costas, correndo o metal até os seus braços, cobrindo cada parte do seu torso. Ele se virou para trás ouvindo um tiro, rapidamente pegando o elmo prateado com um círculo azul claro no meio. Ajeitando em sua cabeça, ele se voltou para olhar os homens ainda confusos pela nuvem de poeira.
Investindo em frente, Davi passou as lâminas das mãos pelas costas do braço do homem de azul, fazendo seis pequenas e rápidas incisões em seu braço direito, enquanto contornava por trás, golpeando as pernas do homem sem reação. A lâmina fina penetrava a carne como um graveto penetra a areia. Entrando e saindo, ele costurava uma trilha de pequenos furos que passavam a pele e se enterravam até ele sentir um desengate interno. Indo para dentro do carro, Davi golpeou os dois invasores dezenas de vezes em pontos entre as costas e a barriga, sem derramar uma única gota de sangue. Com a poeira baixando ele conseguiu ver ao longe o homem careca apontando a arma para Naya, tremendo como um galho fino em frente ao furacão. Jogando a arma no chão, ele correu para trás, em direção ao grande deserto.
-Meus braços, o que você fez com os meus braços?! –Perguntou o homem no chão. Davi se aproximou emitindo um som de lâminas de metal se arrastando umas nas outras. Davi já estava cansado, e aquela armadura facilmente pesava o dobro das caixas de beterraba.
-Meu juramento me proíbe de matar qualquer um que não esteja no mesmo nível. Eu só cortei todos os tendões dos seus braços, você não vai mais usa-los. –Disse Davi retirando o elmo. –Mas o juramento não fala nada sobre abandonar moribundos. –Disse Davi passando a lâmina da mão esquerda por entre a tira que prendia a máscara azul do sujeito. Pegando-a com a mão Davi a colocou em cima da mão imóvel do homem no chão. –Sua máscara está aqui, é só a colocar de novo. Mas prenda a respiração, o ar daqui não faz muito bem, sabe?
-Desgraçado. –Disse o homem selando os lábios e amaldiçoando Davi com os olhos.
Se atentando aos sons, ele sentiu uma fisgada lhe puxar a direita, recolocando o elmo. “Nissa? ” Perguntou ele sem voz. “Três ameaças neutralizadas. Um suspeito está correndo em direção ao grande deserto a 2,759 metros por segundo. ” Ele sorriu ao ouvir a voz dela em sua mente. “Como elas estão? ” Perguntou ele se virando para olhar Naya. “Uma sofreu arranhões e uma provável contusão no lobo parental. A outra sofreu um tiro no tornozelo, está perdendo sangue. ” Davi girou seu corpo para olhar a grávida no chão se arrastando, esticando no chão uma linha vermelha que a separava de seu pé direito.
-Você é um... –Disse Naya se aproximando mancando com um filtro em mãos. Davi se voltou para ela e retirou novamente o elmo, pressionando o círculo azul claro em seu centro. A armadura de lâminas se soltou e caiu no chão desmontada. -Você é um alado!
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2017.06.01 17:25 Jukeboss- Quando eu fiquei com a garota que eu gostava, mas tudo deu errado

Bom dia. Há alguns dias atrás, aqui no /brasil, presenciei um ato de coragem, no qual uma user relatava uma crônica escatológica de altíssimo nível. Não tenho como intuito superar tal drama, queria poder não ter passado por tal situação. Se o meu eu de hoje encontrasse o meu eu daquele fatídico dia, diria: não vá. Mas, isso não aconteceu e eu fui para o que deveria ser uma noite de diversão, mas foi de uma série de acontecimentos errados, dignos de roteiro do Fargo.
Em um sábado, durante a tarde, estava conversando no MSN (rip) com uma guria no qual eu gostava desde o primeiro dia do ensino médio. Estava no último ano, então podíamos dizer que eu era BFF dela, embora eu quisesse tentar algo desde sempre, nunca havia tido a oportunidade, dado que ela só ficara solteira havia pouco tempo e dito que queria ficar de boas. Papo vem, papo vai, ela usando o famigerado “vs” para o você. Eis que ela me convida para um evento. Bom, não foi exatamente um convite, e sim um

vou lá no hoje a noite com umas amigas, vai tbm pra gente se veeeer”.

Disse que pensaria no assunto, porque precisava cuidar da casa. Na verdade eu tinha partida combinada com o clan de DotA no RGC, e àquela altura da situação entre nós, eu já tinha desistido dela ficar comigo.

Acabou que de última hora, algum escroto (eu te odeio com muita força, cara, você podia ter feito eu evitar tudo isso) desmarcou a partida de dotinha e não fechamos um time. Olhei pro relógio e dava tempo de ir pra festa, só teria que arrumar uma carona. Mandei mensagem pra 4 chegas, perguntando quem ia e quem poderia me dar carona. Arrumei uma carona que chegaria em 20 minutos. Me aprontei com a minha melhor vestimenta, uma camisa preta, um jeans escuro e um coturno preto (nada descolado, porque naquela época o conceito hipster era novidade até em cidade grande, então tudo que eu sabia usar era preto). Passei meio litro de perfume, só muitos anos depois descobri que isso é tão ruim quanto não passar perfume. A carona buzinara lá fora e prossegui para o evento.

Entrei com o colega da carona. Não era exatamente uma festa, mas um daqueles barzinho com espaço bem amplo pro povo tentar se pegar numa suposta pista de dança, enquanto tocava música eletrônica. Acho importante ressaltar que eu nunca me dei bem com esse tipo de ambiente, sempre fiquei muito nervoso em locais cheio de estranhos, abafado etc. Eu mal havia entrado e já não me sentia bem, queria ir embora. Já havia me arrependido de ter ido, mas teria que aguardar a carona, porque era distância de quase uma hora andando de volta pra casa.
Como não tinha mais jeito, pensei "tá no inferno, bora sentar no colo do capeta”, comprei um copo enorme de cerveja (ou pelo menos era o que estava escrito num cartaz rudimentar) e fui bebendo, enquanto andava pelo local totalmente perdido, já não sabia mais onde estava meu colega. Eis, que encontrei a garota no qual eu era apaixonado e ela estava absurdamente linda, eu nunca havia visto ela tão arrumada e com vestes tão curtas. Bebi toda a suposta cerveja de uma só vez, voltei até o balcão e comprei outra. Respirei fundo, estufei o peito, fiz força com o braço flexionado, pra parecer fortão (estava enganando quem?), segurando o copão de cerveja, ajeitei a postura e caminhei lentamente até ela. Estava me sentindo confiante. Era hoje! E realmente era, eu só não sabia exatamente a que custo. Na minha cabeça, estava andando como um daqueles caras de comercial de carro importado, que chegam no local todo pimposo e as mulheres se derretem, mas na realidade acho que eu deveria estar marchando igual um pato em direção a pata.
Ela me viu, sorriu, ou riu, não tenho certeza hoje em dia. Dei um beijo naquele belo rosto, erramos os lados e quase nos beijamos. Ela riu. Nós rimos. Ela pediu licença para as amigas e nos sentamos numa espécie de puff para dois. Lembro que ela ficava ajeitando a barra do vestido. Nem sequer lembro o que conversarmos, só sei que eu fui bem virjão e falei que gostava muito dela, que ela estava linda etc. E ela sorria muito. Reparei que as amigas estavam todas olhando pro nosso rumo, de forma nada discreta. Não sei exatamente o que aconteceu. Só percebi que ela veio pra cima e nos beijamos. Ficamos cerca de 10 minutos nos beijando. Ela se afastou, sorriu e disse que precisava ir ao banheiro. Concordei, me ofereci de acompanhar ela até a porta, ela disse que não precisava, mas que logo voltava. Ela mal levantou do puff e eu senti o demônio, ou melhor a legião toda. Foi numa única repuxada dentro do intestino que eu percebi que as coisas não estavam bem. Mal tive tempo pra dar aquele soquinho no ar de vitória por ter beijado a guria, pois minhas mãos se concentravam em apertar a barriga. Levantei rapidamente pra ir até o banheiro masculino, que era no sentido oposto do feminino. Andei até lá segurando o brioco, num movimento muscular de fecha e trava. E a barriga assoprava a trombeta dos 13 infernos, com barulhos que não sabia que era possível vir de dentro de um ser humano.

Logo que me aproximei do banheiro, avistei uma fila que me fez lacrimejar, era enorme. Parei atrás da última pessoa na fila, enquanto suava frio e tremia, e toda minha concentração física, psíquica, mental e espiritual se concentravam em tentar travar o anus com mais força possível. Eu mentalizava “vai dar, se concentra, calma, tu consegue, você vai conseguir, força”. E cerca de infinitos 30 segundos que nunca passavam, percebi que eu não iria sobreviver naquela fila. Eu tinha que sair daquele lugar, o mais rápido possível. Me dirigi ao caixa, que como era muito cedo ainda, não tinha fila. Dei minha comanda, paguei as cervejas. Havia dado 30 reais, somando a entrada, devo ter dado 50 na mão da mulher. Não esperei por troco, não era humanamente possível, já não estava pensando, só agia. O pensamento estava totalmente concentrado em confabular com meu intestino, tentando chegar a um acordo impossível.
Comecei a andar em direção a minha casa, tentando encontrar um banheiro público. Cada passo era uma repuxada de dor, eu seguia fazendo a milésima série de apertar e travar o anus. Minha camisa já estava toda ensopada. Andava como se tivesse pernas de pau, com medo de abrir demais as pernas e não conseguir controlar a situação. Após andar uma rua inteira, percebi que a situação estava mais controlável. Aparentemente eu estava ficando muito bom em dialogar com meu corpo. Me senti um daqueles monges do Tibete, que conseguem controlar a temperatura do corpo, ou algo assim. Experimentei acelerar o passo e consegui. Naquele momento eu era a pessoa mais feliz do mundo. Eu conseguia respirar mais calmamente e a dor cessara. Acontece que a felicidade é ínfima. Mal completei mais duas ruas e senti minha barriga vibrar e a legião voltara a urrar como se estivessem prontos para adentrar os portões celestiais, mas no caso era sair da minha bunda mesmo. Até aquele momento, nada havia saído, absolutamente nada. Mas no momento do vacilo, falhei em segurar um gás quente, foi breve, mas longo o suficiente pra perceber que algo estava morto dentro de mim há dias. Era um cheiro pútrido de morte, que fez meus olhos lacrimejarem e tive um ataque de ânsia. Voltei a tremer e apoiei numa parede. Percebi que não chegaria em um banheiro. Já tinha dúvidas se iria sobreviver. Sentia que a podridão estava se alastrando pelo meu corpo. Pensei em agachar ali na rua mesmo e deixar rolar. Quando dei por mim, havia carros passando, não era rua deserta, tão pouco era escuro o suficiente para que tivesse um mínimo de dignidade. Analisei minha situação. Precisava encontrar um local seguro, pois tinha certeza que não seria um momento breve. Olhei ao redor, enquanto tremia e exercia com muito mais afinco o apertar e travar. Vi muros altos, percebi que não conseguiria pular eles. Vi um muro mediano e também vi uma câmera de vigilância. Por fim, no outro lado da rua, vi uma bela residência, com muros baixos, cercadas por palmeirinhas. Era ali que o meu flagelo terminaria. Estava decidido, era o que o destino havia me reservado e eu o abraçaria com força.
Manquei até a entrada da residência, aguardei que não tivesse nenhum carro transitando na rua e encostei meu corpo na mureta, deixei que meu próprio peso me conduzisse pelo muro acima, não queria arriscar fazer movimentos acrobáticos enquanto todas minhas forças musculares se resumiam a um único músculo. Cai pelo outro lado, destruindo um canteiro de flores. Engraçado, é que naquele momento, tudo piorou. A dor, a intensidade dos barulhos, o suor, até a visão estava turva. Achei que fosse desmaiar ali mesmo. Comecei a desabotoar a calça, descer o zíper, apenas implorando por mais uns segundos de força. Então um carro passou e percebi que eu ainda estava exposto, pois quando um carro vinha em direção da casa, iluminava muito a mureta e a luz passava pelas palmeiras. Com medo de ser visto, denunciado ou coisa assim, fui agachado com as calças na altura da coxa, até a entrada da casa, que ficava em uma espécie de curva em L em relação ao portão, então não estaria mais exposto. Verifiquei as janelas e todas luzes estavam apagadas. Fui até o rumo da porta, pra verificar se não ouvia nenhum barulho lá de dentro. Ao me aproximar da porta, senti o tranco final. O músculo havia falhado e pude sentir todo o meu corpo cedendo, desistindo de mim e se entregando àquela fatídica bomba infernal. Vi um tapete escrito “Bem-vindo” e tentei puxar ele, mas lembrei que havia a cueca para puxar. Optei pela cueca. E senti aquela rajada descomunal sair. Era como se os piores cheiros do mundo estivessem em um só local e esse local fosse o meu intestino. Eram fezes com gases saindo com a pressão de um tiro de espingarda. O alivio foi mais instantâneo do que miojo. Eu já não tremia, já não sentia dores, tudo que eu fazia era torcer pra ninguém abrir a porta. O cheiro sequer me incomodava mais, era praticamente um perfume satânico, um presente pela sensação de estar finalmente livre. Devo ter demorado cerca de 10 minutos. Rasguei a cueca e tentei limpar o que dava, como minha bunda, minhas coxas, beirada do coturno. Não foi o suficiente, larguei a cueca ali mesmo, e usei as meias para acabar o serviço. Quando finalmente havia abotoado a calça, olhei o prejuízo. Eu havia pichado a metade inferior da porta com bosta. Já não era mais possível ler o “Bem-vindo” do tapete. Havia respingos até perto das janelas. Me senti muito mal naquele momento, mas por dentro sorria de satisfação, não pelo ato em si, mas sim por estar bem. Alguns minutos atrás pensara que morreria. Pulei o muro e segui até a minha casa, enquanto o fedor me acompanhava. Cheguei em casa, joguei a calça e a camisa no lixo, deixei o coturno de molho e tomei um belo banho, super demorado e me deitei, estava exausto. Então me lembrei da guria. Lembrei que não havia dito nada pra ela. Lembrei que as amigas dela devem ter me visto indo embora como se estivesse muito bêbado ou muito doente. Torci pra segunda opção, era mais fácil contornar doença do que álcool.

Domingo, entrei no MSN e ela não estava online. Fiquei o dia todo olhando e nada. Na segunda feira ela não foi pra aula. Na terça, descobri por um amigo, que ela havia voltado com o ex, que aparentemente no sábado ela tinha saído com umas amigas, deu bosta lá (mal sabia que era literalmente) e ela ficou super chateada, encontrou com o ex, eles conversaram e ele convenceu ela a dar mais uma chance. Ou seja, eu fui o alicerce pra ela voltar com cara. E me fiquei me remoendo por muito tempo que talvez podia ter sido eu o namorado dela, que ela deve ter pensado que eu só quis dar uns beijos e vazei. Nunca conversei com ela sobre isso, não consegui imaginar um diálogo em que eu poderia simplesmente soltar um “precisei cagar e vazei”. Hoje, acho que eu teria dito numa boa. A casa em que eu caguei? De uma senhora de 85 anos, mãe do delegado da cidade. Não deu BO de aparecer no jornal, mas o povo mais velho da cidade, ou envolvido nos problemas da mesma, ficaram tudo sabendo, e chamaram de “ato de vandalismo sem precedentes”. Ouvi até os meus pais conversando sobre isso, que o vandalismo chegara num nível absurdo, que ninguém respeitava mais nada. Queria poder levantar e dizer “E se foi uma pessoa muito doente, que naquele momento não conseguiu segurar e quis um pouco de privacidade?” Nunca disse nada. Fiquei sabendo que o delegado chegou a comentar que encheria de porrada no filho da puta que fez aquilo. Tive medo de ser descoberto, até evitei aquela rua por muito tempo. Meses depois, um dia precisei passar por lá e vi que a casa passara a ter o muro mais alto da rua, com cerca elétrica.

Gostaria de agradecer o espaço do /brasil por esse desabafo, de algo que guardei por quase 9 anos comigo. Recomendo que vocês façam o mesmo com o que está preso no peito, ótimo pra tirar o peso da consciência

TL:DR: Era afim de uma guria por três anos, consegui ficar com ela numa festa, tive uma dor de barriga, precisei fugir do local, não consegui chegar num banheiro, pulei numa casa pra cagar no quintal, acabei cagando na casa da mãe do delegado da cidade. E a mina voltou com o ex, porque pensou que dei um fora nela quando sumi (pra cagar).

Edit: Editei uns erros, arrumei a flair e corrigi o filha, era mãe, no final. :bad:

Edit 2: TLDR adicionado.

Edit 3: Obrigado pelo ouro ikkebr, não esperava.
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